Contexto histórico e evolução da IA no Judiciário brasileiro
O uso de inteligência artificial (IA) no sistema judiciário brasileiro ganhou força na última década, impulsionado pela necessidade de agilizar processos e reduzir a morosidade. Em 2018, o Conselho Nacional de Justiça (CNJ) implementou o PJe – Processo Judicial Eletrônico, plataforma que incorporou algoritmos para triagem de demandas, priorização de casos e até sugestões de sentenças. No Pará, o Tribunal Regional do Trabalho da 8ª Região (TRT-8) aderiu a essa inovação em 2020, integrando sistemas de machine learning para analisar petições e identificar padrões em recursos trabalhistas.
O caso em Parauapebas: multa e acusações
Em decisão publicada na última semana, a 2ª Turma do TRT-8 manteve a multa de R$ 84.375, aplicada a duas advogadas do escritório X Legal, de Parauapebas, pela inserção de um script oculto em um recurso eletrônico. Segundo a corregedoria do tribunal, o código teria o objetivo de alterar a interpretação da IA sobre os argumentos apresentados, buscando uma decisão mais favorável ao cliente. A prática, classificada como spoofing judicial, configura tentativa de fraude processual, conforme o artigo 347 do Código de Processo Civil (CPC) e a Resolução CNJ nº 345/2020.
Defesa das advogadas: ‘proteção ao cliente’ como justificativa
Em petição enviada ao TRT-8, as advogadas, identificadas como Dra. Ana Cristina Souza e Dra. Fernanda Lima, argumentam que o comando oculto não teve intenção fraudulenta, mas sim de ‘blindar’ o cliente contra possíveis viés da IA. Segundo elas, o sistema de julgamento eletrônico do tribunal teria histórico de desconsiderar argumentos técnicos em recursos trabalhistas, o que motivou a medida. ‘Não foi uma tentativa de enganar, mas de equilibrar as forças em um ambiente onde a máquina já opera com vieses’, declarou a Dra. Souza em entrevista ao ClickNews.
Impacto da decisão e reações da classe jurídica
A multa aplicada pelo TRT-8 é a primeira do gênero no Pará, mas segue uma tendência nacional. Em 2023, o Tribunal Superior do Trabalho (TST) já havia aplicado sanções semelhantes a advogados que utilizaram técnicas para manipular algoritmos em processos. A Ordem dos Advogados do Brasil (OAB-PA) emitiu nota técnica afirmando que, embora reconheça os desafios da IA no Judiciário, ‘a ética profissional não pode ser relativizada’. Já a Associação dos Advogados Trabalhistas do Pará (AATP) criticou a decisão, classificando-a como ‘excessiva’ e pedindo regulamentação clara sobre o uso de ferramentas tecnológicas.
Análise técnica: como funciona o ‘spoofing’ judicial
O spoofing judicial consiste na inserção de metadados ou comandos ocultos em documentos eletrônicos para induzir a IA a interpretar o caso de forma específica. No sistema do TRT-8, a IA analisa não apenas o texto das petições, mas também padrões como estrutura de parágrafos, palavras-chave e até o tempo de resposta do usuário. No caso das advogadas, o script teria alterado temporariamente a formatação do documento, fazendo com que a IA priorizasse determinados argumentos. Especialistas em cibersegurança jurídica, como o professor Ricardo Oliveira da UFPA, destacam que essa prática pode configurar crime contra a administração da justiça, previsto no artigo 359 do Código Penal.
Desdobramentos e possíveis recursos
As advogadas recorreram da decisão ao próprio TRT-8, alegando cerceamento de defesa e excesso de rigor na aplicação da multa. Caso o recurso seja negado, elas planejam levar o caso ao Conselho Nacional de Justiça (CNJ) ou até ao Supremo Tribunal Federal (STF), sob o argumento de que a decisão fere o princípio da proporcionalidade. Enquanto isso, o TRT-8 anunciou a abertura de um grupo de trabalho para revisar seus protocolos de segurança contra fraudes em IA, com previsão de conclusão em seis meses.
Debate sobre a regulação da IA no Judiciário
O caso reacende o debate sobre a necessidade de regulamentação específica para o uso de IA no sistema judiciário. Atualmente, não há uma lei federal que discipline o tema, cabendo aos tribunais a definição de regras internas. Em 2024, o Senado Federal instalou uma comissão temporária para discutir o assunto, com foco em transparência, accountability e direitos digitais. Advogados e juristas divergem: enquanto uns defendem a proibição total de técnicas que interfiram em algoritmos, outros argumentam que a IA já é tendenciosa e que medidas como o spoofing podem ser vistas como ‘autodefesa’ do jurisdicionado.




