Órgãos destruídos e vidas ceifadas: o custo humano do ‘suco’
Na última quarta-feira, o advogado José Luís Leite Vieira, 53 anos, completou 24 meses sem injetar esteroides anabolizantes — uma decisão que, em 2024, desafiava credibilidade até entre familiares e profissionais de saúde. Morador de Botucatu (SP), Vieira ingeriu hormônios sintéticos por duas décadas, impulsionado pela promessa de resultados físicos imediatos. O que começou como um ciclo de aplicações clandestinas transformou seu corpo em um laboratório de sequelas: hipertrofia cardíaca, disfunção hepática e danos renais irreversíveis. Casos como o dele se multiplicam, com estatísticas de 2025 indicando um aumento de 42% nas internações por complicações relacionadas ao uso de anabolizantes, segundo dados do Sistema de Informações Hospitalares do SUS.
Reabilitação gratuita: a resposta tardia a uma epidemia silenciosa
O programa “Saindo do Suco”, vinculado à Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), registrou em junho de 2026 um recorde histórico: 187 pessoas em tratamento para dependência de esteroides, número 300% superior ao mesmo período de 2023. A iniciativa, que oferece suporte psicológico e acompanhamento médico sem custos, atende majoritariamente homens entre 25 e 40 anos — faixa etária responsável por 78% dos casos de uso prolongado de anabolizantes no país. “O paciente chega com o fígado destruído, testosterona endógena zerada e, muitas vezes, com traços psicóticos”, relata a coordenadora do programa, Dra. Mariana Costa. “A abstinência é física e emocional, pois o corpo passa a depender da substância até para funções básicas”.
Mercado clandestino: a ilusão do ‘corpo perfeito’ que mata
O tráfico de anabolizantes no Brasil movimenta R$ 1,2 bilhão anuais, conforme estimativa da Polícia Federal, com 60% das substâncias comercializadas via grupos de WhatsApp e redes sociais. A facilidade de acesso contrasta com os riscos: entre 2024 e 2026, o número de mortes por overdose ou complicações cardíacas associadas dobrou, segundo o Ministério da Saúde. “A pessoa acha que está controlando, mas o corpo não foi feito para aguentar doses 200 vezes superiores à fisiológica”, alerta o endocrinologista Dr. Ricardo Almeida. A falta de fiscalização nos laboratórios clandestinos agrava o problema: 89% dos medicamentos apreendidos em 2025 continham substâncias não declaradas nas bulas, como óleos contaminados e hormônios veterinários.
Consequências além da saúde: o colapso familiar e social
As repercussões do uso de anabolizantes extrapolam a esfera individual. Dados do Conselho Federal de Medicina revelam que 63% dos pacientes em reabilitação perderam empregos ou foram afastados por incapacidade laboral, enquanto 41% sofreram rupturas conjugais. “Minha família não acreditava que eu estava doente. Achavam que era frescura”, desabafa Vieira, que hoje atua como voluntário no programa da Unifesp. Especialistas destacam ainda o impacto na saúde pública: o SUS desembolsa R$ 450 milhões anuais com internações por complicações relacionadas, valor que poderia ser revertido para prevenção. “Precisamos tratar isso como uma crise de saúde pública, não como um problema moral”, defende a psiquiatra Dra. Sofia Mendes.




