ClickNews
Artigos

As distâncias que o tempo criou – Por Wilton Emiliano Pinto

Jeverson
4 de julho de 2026 às 14:07
Compartilhar:
As distâncias que o tempo criou –  Por Wilton Emiliano Pinto
Divulgação / ClickNews

Outro dia, depois de ler minha crônica “O presente chamado hoje”, meu compadre Tadeu, leitor assíduo de meus textos, me escreveu pelo WhatsApp.

A mensagem era pequena, mas me fez pensar durante vários dias.

Escreveu, mais ou menos, o seguinte:

“Há pessoas que conviveram conosco durante muitos anos e que hoje parece que já não representamos mais nada em suas lembranças. Muitas vezes somos até ignorados. Com o tempo, infelizmente, aprendemos a não sentir mais falta.”

Aquelas palavras não saíram mais do meu pensamento.

Comecei a voltar no tempo.

Lembrei-me do começo da vida de nossas famílias, lá pela década de 70.

Nossos filhos ainda eram pequenos.

Não tínhamos muitos recursos.

Dinheiro sobrando era coisa rara.

Mesmo assim, havia uma riqueza que hoje faz muita falta:

a convivência.

Quase toda semana tinha aniversário de alguma criança.

Era na casa de um irmão, de um primo, de um cunhado, de um compadre ou de um amigo mais chegado.

Não importava se o bolo era simples, se o refrigerante era pouco ou se o presente era modesto.

O importante era estar presente.

As crianças corriam pelo quintal.

Brincavam até escurecer.

Enquanto isso, os adultos conversavam sobre a vida, o trabalho, os filhos e faziam planos para o futuro.

As horas passavam sem que ninguém percebesse.

Naquele tempo, a porta das casas quase nunca estava fechada para quem era da família ou amigo.

Muitas vezes nem precisava avisar que ia.

Bastava chegar.

Depois os anos foram passando.

Os filhos cresceram.

Vieram os estudos.

O emprego.

O casamento.

Os netos.

Cada um foi construindo sua própria história.

E isso é natural.

Os aniversários foram ficando mais raros.

As visitas também.

Naquela época não existia celular.

Quando demorávamos alguns dias para nos encontrar, era comum tocar o telefone.

Sempre havia alguém perguntando:

Como vocês estão?

Era uma conversa rápida.

Mas fazia bem.

Parecia que a distância diminuía.

Hoje temos celular, internet, chamadas de vídeo e grupos de WhatsApp.

Sabemos da vida uns dos outros pelas fotografias, pelas mensagens e pelos vídeos.

É uma facilidade que antigamente nem imaginávamos.

Mesmo assim, tenho a impressão de que estamos mais distantes.

Alguns filhos mudaram para outras cidades.

Outros foram para outros estados.

Alguns até para outros países.

Isso faz parte da vida.

O que mais me chama a atenção é quando as pessoas moram na mesma cidade e passam meses, às vezes anos, sem se visitar.

Às vezes bastariam quinze ou vinte minutos de carro.

Mesmo assim, o encontro não acontece.

Ficamos sabendo das notícias pelas mensagens.

Hoje nos tornamos verdadeiros mestres em dar os parabéns por aniversário apenas escrevendo duas ou três palavras:

“Feliz aniversário. Parabéns!”

Na maioria das vezes, pelo WhatsApp.

A mensagem chega rápido, é verdade.

Mas o abraço não chega.

A conversa não acontece.

O café continua na garrafa.

E a visita fica para um outro dia que, quase sempre, nunca chega.

Eu também preciso reconhecer minha parte nisso.

Dou a mão à palmatória.

O próprio compadre Tadeu, que despertou esta reflexão, hoje falamos mais pelo WhatsApp do que pessoalmente.

Agora, por causa destas crônicas, voltamos a falar com mais frequência.

Mas quase sempre mensagem pelo WhatsApp.

Faz muito tempo que não nos sentamos para almoçar juntos, sem olhar o relógio.

E acredito que isso aconteceu com quase todos nós.

Os relacionamentos não acabam de um dia para o outro.

Eles vão se afastando devagar.

Primeiro diminuem as visitas.

Depois os telefonemas.

Mais tarde ficam apenas as mensagens.

Quando percebemos, já faz muito tempo que não vemos pessoas que foram importantes em nossa caminhada.

O mais triste é que acabamos nos acostumando.

A vida segue.

Cada um com seus compromissos.

Cada um com suas preocupações.

E a saudade vai ficando quieta dentro da gente.

Mesmo assim, continuo acreditando que nunca é tarde.

Enquanto Deus nos conceder vida, sempre haverá tempo para fazer uma visita, tomar um café, sentar na varanda ou simplesmente perguntar pessoalmente:

Como você está?

Talvez não consigamos voltar aos tempos em que nossos filhos corriam pelos quintais e os aniversários reuniam toda a família.

O tempo não volta.

Mas nós ainda podemos voltar.

Podemos pegar o celular, combinar um café, fazer uma visita sem motivo especial, apenas para matar a saudade.

No final das contas, descobri que meu compadre Tadeu não estava apenas comentando uma crônica.

Estava, sem perceber, escrevendo uma das mais profundas reflexões sobre a fragilidade dos relacionamentos humanos.

Aí, cheguei à conclusão de que a distância nem sempre é medida pelos quilômetros.

Às vezes, ela cabe entre duas casas da mesma cidade.

E pode ser vencida com um gesto muito simples:

decidir novamente caminhar ao encontro de quem um dia fez parte da nossa história.

Porque o tempo cria distâncias, mas o afeto ainda sabe o caminho de volta.

Wilton escreve sobre lembranças que o tempo não conseguiu apagar.

O que você achou desta notícia?

Sua avaliação ajuda nossa redação a entregar o melhor conteúdo.