Advogadas da palavra contra o retrocesso
Na 24ª edição da Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), realizada na noite de sexta-feira (24), as escritoras Nathacha Appanah e Bethânia Pires Amaro trouxeram ao centro do debate a fragilidade dos direitos das mulheres, mesmo em sociedades que já consideravam tais conquistas consolidadas. Appanah, autora de Noite no Coração — obra que aborda três casos de violência de gênero, incluindo um feminicídio contra si própria —, afirmou que “cada avanço é seguido por recuos, e por vezes estes ultrapassam em magnitude as conquistas obtidas”.
Pautas históricas sob ataque contemporâneo
A franco-mauriciana citou movimentos recentes, como os crescentes discursos antissufragistas e antiaborto, como evidências de que direitos como o voto e a autodeterminação reprodutiva jamais estiveram definitivamente assegurados. Bethânia Pires Amaro, brasileira autora de Ressalga, ecoou a análise ao recorrer à máxima de Simone de Beauvoir: “Basta uma crise política, econômica ou social para que os direitos das mulheres sejam recolocados em xeque”.
Literatura como espelho da violência estrutural
As duas autoras, cujas obras exploram formas diversas de opressão contra as mulheres, convergiram na crítica à naturalização de estruturas patriarcais. Appanah, cuja narrativa em Noite no Coração mergulha em casos de violência doméstica, venceu premiações francesas de relevo, sinalizando que a literatura pode ser tanto um instrumento de denúncia quanto de reflexão sobre a persistência da desigualdade de gênero. Amaro, por sua vez, utiliza a ficção para expor as sutilezas da violência cotidiana, em um país onde, segundo dados recentes, uma mulher é assassinada a cada sete horas.




