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CACHAÇA COM FARINHA – Por: Professor Dr. Elismar Bezerra Arruda

Jeverson
29 de agosto de 2026 às 16:36
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CACHAÇA COM FARINHA – Por: Professor Dr. Elismar Bezerra Arruda

Imagem ilustrativa criada por IA

Quando o Brasil era menor que o seu Sertão – que se estendia das profundezas dos territórios centro-oestinos, amazônicos e nordestinos, até as franjas dos grandes centros urbanos, que nem eram tão grandes assim – dizia-se, pelas bocas e penas de políticos e intelectuais que, lá, era como era, porque não havia a presença do Estado; com efeito, que aquelas imensidões precisavam ser integradas ao restante do País, inclusive para não animar o espírito invasor da “potência do Norte”. Daí o governo brasileiro ter concebido, decretado e implementado uma forte e ampla política de interiorização, sintetizada no epíteto: Integrar para não entregar. Para a efetivação daquela política, a máquina estatal ampliada (numa interpretação gramsciana), tanto por seus elementos da sociedade política, quanto pelos da sociedade civil, foi mobilizada de maneira a regular e reorientar a vida social e, principalmente, econômica, mudando definitivamente o modo de ser e viver naqueles ermos.

É de se destacar, talvez, como a ação de maior significância e impacto para os que já viviam ali, bem como para os diversos sujeitos sociais que foram incentivados a migrarem pra lá, a “distribuição”, redistribuição e posse lega da terra – que resultou na estrutura fundiária baseada no latifúndio; isto, mediante a subtração e aniquilamento da pequena propriedade rural, que se efetivou pela expulsão violenta de seus ocupantes ou posseiros, com o apoio ostensivo e intransigente da polícia, da justiça e da política, por mandatários-sabujos, notadamente deputados, prefeitos e vereadores. Assim, observado à luz da Filosofia da Práxis, o Estado estava presente em cada corrutela do Araguaia, por exemplo, na forma das Polícias, da Justiça, das Exatorias, Prefeituras, Cartórios, Escolas, Igrejas, Sindicatos e o escambau – que desenvolviam suas ações expressando as contradições fundamentais da sociedade, decorrentes das necessidades e interesses antagônicos de trabalhadores e proprietários. Evidencia-se, então, que o problema não era a ausência, mas, a necessidade de qualificar a presença já existente do Estado.

Confirmando o econômico como o conteúdo fundamental do Estado, e que, no caso, naquele então, a Economia se desenvolvia em descompasso com as relações e finalidades especificamente capitalistas – o Governo tratou de implantar, ampliar e fazer funcionar uma estrutura material, institucional, fundamental para promover a superação das antigas relações de produção, substituindo-as por relações de caráter especificamente capitalista; nesse sentido, suprimiu a posse, como forma de ocupação e apropriação da terra, instituindo a propriedade legal, atestada em cartório, como única forma de propriedade. A imposição dessa política confrontou o modo de ser e viver daquela gente, especialmente pela subtração das suas condições materiais de vida, fundadas na posse e cultivo da terra; que, contestada e tratada como terra devoluta, foi reapropriada e dada pela institucionalidade, legalmente, para os que já eram ou se fizeram por esses meios, grandes proprietários.

Com efeito, as relações de trabalho transigiram definitivamente para o assalariamento, cujo caráter expropriatório foi perversamente agravado por instrumentos e figuras como a do “Gato”, intermediário que mobilizava e contratava a força de trabalho em diversas regiões do país, para o trabalho duro, de formação das grandes fazendas; ali eram submetidos às mais desumanas condições de vida e trabalho, semelhantes às escravagistas. Assim, pela expropriação violenta, inclusive por assassinatos de posseiros e pequenos proprietários, pela sujeição dos peões-do-trecho às mais abjetas condições de vida e trabalho e, custeados por montanhas de recursos públicos, os grandes empreendimentos agropecuários foram formados em nossos sertões; desta forma, conjugando violência, coerção e convencimento das massas trabalhadoras e comunidades tradicionais, ribeirinhas, etc., foi que o Estado Capitalista garantiu à classe proprietária (empresários rurais e urbanos) as condições necessárias para que se tornasse a classe dominante que é – em face do que, impõe-se a pergunta: é desarrazoado afirmar que o Agronegócio (vitalmente dependente do Governo), é a Casa Grande rebocada com tecnologia?

Sob aquelas condições, as notícias que chegavam nas vilas e cidades sobre o que passavam aqueles trabalhadores, eram terríveis: uns que trabalhavam “alongados” na fazenda por seis, oito, meses, sem ver a cor de dinheiro, e que, no acerto de contas, o Gato lhes apresentava dívidas com passagem, comida, algum remédio, etc., que superavam tudo que o peão tinha pra receber; sob ameaça, o coitado saía dali com “uma mão na frente e outra atrás”. Também, de outros que, depois de quase um ano de trabalho, receberam um bom dinheirinho no acerto e final, meteram esse dinheiro no bolso e ganharam a estrada no rumo de casa; mas, no meio do caminho sofreram emboscada: foram roubados e assassinados, restando seus corpos ali abandonados. Desses, nunca mais suas famílias tiveram notícias; por eles, o Estado nada fez – somente a Igreja Católica, com seus Bispo e Padres “comunistas”, os defendia e denunciou suas mortes.

Naquele ambiente difícil, perverso e injusto, o trabalhador tentava sobrevier, não enjeitando serviço. Mas, também havia os que chegavam ali corridos da justiça e da vingança de algum familiar de um que foi assassinado: naqueles ermos, só por acaso conhecidos se encontravam. Assim, um sem-número de tipos, os mais diversos, eram vistos nas ruas, bares e cabarés das cidadezinhas e corrutelas: não poucos, entregues ao alcoolismo; outros que, doentes, dementes, zanzavam sem rumo, falando e gesticulando ao léu, esquecidos de quem eram, de onde vieram; além dos que, conjugando álcool com má-índole, deram-se às mais tenebrosas violências: pistoleiros, matadores de gente a mando, por encomenda. Desses, ficou conhecido um, que tinha por alcunha Cachaça-Com-Farinha: sujeito atarracado, forte, olhar sem brilho, morto, opaco como o das serpentes peçonhentas; o carga-torta trazia consigo, sempre, um punhal “língua-de-peba”: com quase meio metro, de aço fino e duro, oxidado, ponta afiadíssima, enfeitado por um cabo feito com rabo de tatu…

Guardada numa bainha de couro cru, trabalhada em arremates de bom artesão, o bruto trazia aquela arma metida na parte de trás das calças; era de jeito que, conforme ele se sentava, o cabo se mostrava reluzindo de sob a camisa. Dizia-se na região, que aquele apelido devia-se a um gesto seu, tido como diabólico, de tão macabro que era: que depois de apunhalar alguém, entrava no primeiro botequim que visse, pedia um copo de pinga, enfiava a ponta do punhal no copo, lavando assim a arma do sangue do morto. Sob silêncio pavoroso, ele levantava o copo à altura daqueles olhos-mortos, olhava os presentes em desafio mudo, bebia até a metade do copo com aquela cachaça ensanguentada, estalava a língua; aí, com o copo numa mão, enfiava a outra mão num bolso da calça, tirava dali um punhado de farinha de mandioca e jogava na boca: ouvia-se o mastigar dos dentes, quebrando os grãos duros da farinha, mastigava devagar até formar a massa que engolia com gosto – arrematava tudo, virando o copo na boca com o resto daquela cachaça avermelhada…

Já no fim dos anos de 1980, correu a notícia de que o Cachaça-Com-Farinha tinha sido morto: morte por tiro e faca – naturalmente…

* Professor Dr. Elismar Bezerra Arruda. Doutor em Educação pela Universidade Federal Fluminense (2017). Mestre em Educação pela Universidade Federal de Mato Grosso (2011). Possui Graduação em Pedagogia pela Universidade Federal de Mato Grosso (1986). Atualmente é efetivo – Secretaria de Estado de Educação e efetivo – Secretaria Municipal de Educação de Cuiabá.
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