Contexto histórico e ruptura institucional
Desde os tumultuados eventos de 8 de janeiro de 2023, quando grupos extremistas invadiram as sedes dos Três Poderes em Brasília, o debate sobre a responsabilização dos envolvidos tem gerado intensas disputas políticas e jurídicas. A Lei da Dosimetria, aprovada em 2022, estabelecia critérios mais rígidos para a progressão de pena de condenados por crimes contra o Estado Democrático de Direito, incluindo participantes de atos antidemocráticos. No entanto, o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), suspendeu recentemente a aplicação da lei, alegando inconstitucionalidade, o que reacendeu as tensões entre o Judiciário e o Legislativo.
A ofensiva legislativa do PL
O Partido Liberal (PL), liderado pelo ex-presidente Jair Bolsonaro, anunciou que, a partir de 11 de maio de 2026, iniciará uma ofensiva no Congresso Nacional contra o ministro Moraes. A estratégia divide-se em duas frentes: no Senado, o PL busca pressionar pela votação de um projeto de anistia para os condenados no 8 de janeiro, enquanto na Câmara, a proposta é de uma Proposta de Emenda à Constituição (PEC) para anistia ampla e irrestrita, sem depender de sanção presidencial ou do STF.
Segundo declarações do líder do PL no Senado, Carlos Portinho (RJ), o partido já conta com mais de 42 assinaturas — ou seja, mais da metade da Casa — para um pedido de impeachment contra Moraes. No entanto, a efetivação da medida depende da vontade política do presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), que, até o momento, mantém o processo adormecido.
Divisões políticas e resistências institucionais
A estratégia do PL enfrenta obstáculos significativos. O presidente do Senado, Davi Alcolumbre, tem demonstrado relutância em pautar tanto o projeto de anistia quanto o pedido de impeachment, o que levou Portinho a declarar que “falta vontade política”. Essa postura reflete as complexas relações entre os Poderes, especialmente após anos de tensões entre o Executivo, Legislativo e Judiciário.
Na Câmara, o líder do PL, Sóstenes Cavalcante (RJ), defende uma PEC de anistia em vez de um projeto de lei tradicional, argumentando que a medida não dependeria de sanção do presidente ou do STF. “O projeto de lei não vai resolver, tem que ser uma PEC porque aí não vamos depender de ninguém do STF”, afirmou Cavalcante em redes sociais. A proposta busca uma anistia ampla, geral e irrestrita, o que, segundo o deputado, seria a única forma de pacificar o país.
Reações e justificativas
O relator do PL da Dosimetria, senador Esperidião Amin (PP-SC), classificou a decisão de Moraes como uma “provocação” e afirmou que a resposta deve vir por meio da votação do projeto de anistia. “Mais uma vez Alexandre de Moraes foi prepotente e suspendeu a Lei da Dosimetria. Precisamos responder votando e aprovando o projeto de Anistia”, declarou Amin em publicação no Twitter.
Enquanto isso, o STF mantém sua posição de que a Lei da Dosimetria fere princípios constitucionais, como a individualização da pena. A decisão de Moraes, embora polêmica, reforça a autonomia do Judiciário em revisar leis aprovadas pelo Congresso, o que, para críticos, representa uma ingerência indevida nos poderes Legislativo e Executivo.
Desdobramentos e perspectivas
A ofensiva do PL contra Moraes levanta questões sobre o equilíbrio entre os poderes e a governabilidade do país. Se o Congresso aprovar uma PEC de anistia ou um projeto de lei nesse sentido, a medida poderá ser contestada judicialmente, prolongando ainda mais o impasse. Além disso, a recusa de Alcolumbre em pautar o impeachment pode gerar desgaste político para o PL, especialmente se a opinião pública perceber a manobra como uma tentativa de blindar aliados políticos.
Para analistas, a situação atual reflete uma crise institucional mais profunda, onde cada Poder busca ampliar sua esfera de influência. Enquanto o STF reforça sua autoridade para fiscalizar leis, o Congresso tenta reafirmar sua prerrogativa legislativa, mesmo que isso implique em medidas polêmicas, como a anistia para condenados por crimes contra a democracia.
Nota oficial do STF
A assessoria de imprensa do STF emitiu comunicado reiterando que as decisões judiciais são fundamentadas no ordenamento jurídico brasileiro e visam garantir a supremacia da Constituição. “A suspensão da aplicação da Lei da Dosimetria pelo ministro Alexandre de Moraes decorre de análise técnica e constitucional, não configurando ingerência indevida”, afirmou a nota.




