Contexto histórico e expectativas iniciais
A Copa do Mundo de 2026, co-organizada por três países (Estados Unidos, Canadá e México), foi apresentada como um marco sem precedentes na história do futebol. Com 48 seleções participantes e 104 partidas distribuídas por 16 cidades-sede, o torneio prometia não apenas um espetáculo esportivo, mas também um boom econômico para os países anfitriões. Em março de 2025, a Organização Mundial do Comércio (OMC) e a Fifa divulgaram um estudo conjunto prevendo um impacto bruto de US$ 80,1 bilhões, com os Estados Unidos captando US$ 30,5 bilhões desse montante. A Associação de Viagens dos EUA estimava que cada visitante gastaria, em média, US$ 5.000 — valor 1,7 vez superior ao de uma viagem internacional típica ao país.
Sinais de alerta: queda nas reservas e preços em queda livre
A apenas um mês do início do torneio, os dados revelam um cenário diametralmente oposto às projeções. Segundo a Newsweek, os ingressos para partidas menos atrativas, como a entre Arábia Saudita e Cabo Verde, agora custam US$ 160 — uma queda de 73% em relação aos US$ 600 praticados em dezembro de 2025. Em Nova York, epicentro das expectativas turísticas, a ocupação hoteleira mal atingiu os 10% esperados, com uma perda projetada de mais de US$ 100 milhões em receitas de hospedagem. Vijay Dandapani, CEO da Associação de Hotéis da cidade, afirmou à revista que as reservas internacionais aumentaram no máximo 10% em relação ao ano anterior, muito aquém dos 1,2 milhão de visitantes adicionais previstos.
Fatores estruturais: imigração, custos e desinteresse global
O afastamento do público internacional pode ser atribuído a múltiplos fatores. As políticas de imigração dos EUA, vistas como restritivas por muitos governos e torcedores, desencorajaram potenciais visitantes. Além disso, os preços dos ingressos, mesmo após cortes drásticos, ainda são considerados proíbitivos para a classe média global. Outro agravante é a falta de atratividade de algumas partidas. Com a presença de seleções como a Arábia Saudita e Cabo Verde em grupos já eliminados, a demanda por ingressos minguou. A queda nas reservas aéreas reforça esse diagnóstico: segundo dados da Cirium, as viagens europeias para os EUA em julho caíram 14% em relação a 2025, enquanto as reservas para junho recuaram 5% na Europa e 3,6% na Ásia.
A resposta da Fifa e a crise de credibilidade
Em defesa do evento, o presidente da Fifa, Gianni Infantino, classificou a Copa do Mundo de 2026 como uma “oportunidade crucial” para o futebol e os EUA, destacando que o país sediará 78 das 104 partidas, incluindo a final no MetLife Stadium em 19 de julho. No entanto, a narrativa otimista contrasta com a realidade operacional. A Fifa não apenas superestimou o interesse global, como também não conseguiu implementar estratégias eficazes para mitigar os riscos. A ausência de um marketing agressivo em mercados emergentes, como África e Ásia, onde o futebol tem crescido exponencialmente, agravou a situação.
Impacto econômico: um legado duvidoso
O fracasso na atração de turistas internacionais não apenas compromete os ganhos diretos com ingressos e hospedagem, mas também afeta indiretamente setores como transporte, alimentação e comércio. A cidade de Nova York, por exemplo, já projetava um déficit de US$ 100 milhões em receitas hoteleiras, mas o prejuízo pode se estender a outros setores. Em Los Angeles, Dallas e Atlanta — outras cidades-sede —, a ocupação hoteleira também está abaixo do esperado, com empresas do setor já anunciando demissões temporárias. A Fifa, que arrecadou US$ 7,5 bilhões em direitos de transmissão, enfrenta agora o desafio de justificar o retorno sobre o investimento para seus parceiros comerciais.
Lições para futuros megaeventos
A Copa do Mundo de 2026 pode se tornar um estudo de caso sobre os riscos de superestimar a demanda em megaeventos esportivos. Diferentemente de edições anteriores, como a do Catar em 2022 — onde a baixa demanda foi compensada por estratégias de mercado agressivas —, a Fifa parece ter subestimado a resistência do público global a viagens de longo alcance em um contexto pós-pandemia e de inflação global. Além disso, a falta de um plano B para atrair torcedores locais (como pacotes promocionais ou parcerias com times da NFL ou NBA) revelou-se um erro estratégico.
Perspectivas e próximos passos
Com a abertura do torneio em menos de um mês, a Fifa e as comissões organizadoras locais enfrentam um cenário de emergência. A agência de viagens Expedia já relatou um aumento de 300% nas buscas por pacotes de última hora para as cidades-sede, sugerindo que o público doméstico (americanos e canadenses) pode ser a tábua de salvação. No entanto, a dependência excessiva desse segmento não garante o sucesso econômico esperado. A Fifa ainda tem a opção de vender ingressos restantes em lote a preços simbólicos ou até mesmo estender campanhas de marketing digital para mercados não explorados. Contudo, o tempo é escasso, e as margens para erros são mínimas.
Conclusão: uma Copa do Mundo entre o sucesso esportivo e o fracasso econômico?
Embora a qualidade técnica dos jogos e a organização operacional possam ser bem avaliadas, o legado econômico da Copa do Mundo de 2026 já está em xeque. A Fifa, acostumada a vender sonhos, enfrenta agora a dura realidade de um torneio que pode entrar para a história não pelo futebol, mas pela incapacidade de mobilizar o mundo. Se o evento não conseguir reverter o atual quadro, o prejuízo financeiro e a perda de credibilidade podem reverberar por anos, servindo como um alerta para futuras sedes — sejam elas países ricos ou emergentes.




