Expansão territorial e capilarização do crime organizado
O Brasil enfrenta uma nova fase na atuação do crime organizado, marcada pela interiorização e difusão territorial de facções como o Comando Vermelho e o Primeiro Comando da Capital (PCC). Segundo o relatório “Medo do crime e eleições 2026: os gatilhos da insegurança”, divulgado pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública, 41,2% dos brasileiros com 16 anos ou mais afirmam conviver com grupos criminosos em seus bairros, o que representa aproximadamente 68,7 milhões de pessoas.
A pesquisa, encomendada ao Instituto Datafolha e realizada entre 9 e 10 de março de 2026 em 137 municípios, revela que o fenômeno não se restringe mais às grandes metrópoles. As facções expandiram sua atuação para cidades médias e pequenas, utilizando estratégias como alianças com grupos locais, controle de rotas logísticas e inserção em mercados lícitos e ilícitos. “Essa capilarização reflete uma adaptação do crime organizado a novas realidades socioeconômicas”, destacou o estudo.
Impacto na rotina e autonomia dos cidadãos
O medo da violência tem alterado profundamente a vida cotidiana dos brasileiros. Segundo o relatório, 57% dos entrevistados relataram mudanças significativas em seus hábitos nos últimos 12 meses. Entre as principais alterações, destacam-se: 36,5% passaram a evitar trajetos habituais, 35,6% deixaram de circular à noite e 33,5% passaram a evitar sair de casa com o celular por medo de assaltos.
Esses números evidenciam um cenário de “duopólio de violência”, no qual o Estado e o crime organizado coexistem na regulação da vida social. “A presença do crime não se limita ao risco de vitimização, mas se traduz em restrição de circulação, medo e autocensura”, afirmou a pesquisa. Para 61,4% dos entrevistados (42,2 milhões de pessoas), o crime organizado influencia moderada ou significativamente as regras de convivência em seus bairros.
Do controle territorial à regulação social
O estudo aprofunda a análise sobre como o crime organizado exerce poder territorial, não apenas por meio de extorsão ou violência direta, mas através de mecanismos de controle social. “Os grupos criminosos não apenas oferecem proteção, mas impõem normas comportamentais, delimitam espaços e restringem a autonomia dos moradores”, explicou o documento.
Essa dinâmica é mais evidente em territórios onde o Estado apresenta fragilidades institucionais. A ausência de políticas públicas efetivas e a precariedade dos serviços de segurança pública criam lacunas que são preenchidas pelo crime organizado, que passa a atuar como uma espécie de “autoridade paralela”.
Expansão além das capitais: o novo mapa do crime organizado
O relatório mapeia a interiorização do crime organizado em todas as regiões do país. No Nordeste, facções como o CV expandiram sua atuação para estados como Ceará e Rio Grande do Norte, enquanto no Sul, o PCC consolidou sua presença em municípios do Paraná e de Santa Catarina. No Centro-Oeste, grupos como o Terceiro Comando Puro (TCP) ganharam força em cidades como Goiânia e Brasília.
“A interiorização não é um fenômeno isolado, mas parte de uma estratégia de longo prazo das facções para diversificar suas fontes de renda e reduzir riscos de repressão”, afirmou um especialista ouvido pela equipe do ClickNews. A capilarização também reflete a capacidade de recrutamento em cidades menores, onde a vulnerabilidade social e a falta de oportunidades econômicas facilitam a adesão a grupos criminosos.
Desafios para o Estado e perspectivas futuras
O avanço do crime organizado representa um dos maiores desafios para as políticas de segurança pública no Brasil. Segundo o estudo, 72% dos entrevistados consideram que a presença do crime organizado aumentou nos últimos cinco anos, enquanto apenas 8% acreditam que houve redução.
Para superar esse cenário, especialistas apontam a necessidade de uma abordagem multidimensional, que combine repressão seletiva, políticas sociais e fortalecimento das instituições locais. “Não adianta combater o crime organizado apenas com ações militares. É preciso investir em educação, geração de emprego e fortalecimento do sistema judiciário”, defendeu um analista criminal entrevistado.
O relatório será apresentado oficialmente durante o 16º Fórum Brasileiro de Segurança Pública, que ocorrerá em setembro de 2026. Os dados completos estão disponíveis para download em formato PDF, com acesso gratuito ao público.
Enquanto isso, milhões de brasileiros seguem convivendo diariamente com a presença do crime organizado, moldando suas vidas em torno de limites impostos por facções e milícias. A pergunta que permanece é: quando o Estado retomará o controle desses territórios?




