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Delação à Vista: Ex-presidente do BRB aciona STF e busca deixar a Papuda para negociar acordo

Jeverson
23/04/2026, 06:45
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Delação à Vista: Ex-presidente do BRB aciona STF e busca deixar a Papuda para negociar acordo
O ex-dirigente do BRB, Paulo Henrique Costa, é alvo de investigação por corrupção e lavagem de dinheiro — Foto: Paulo H. Carvalho/Agência Brasília

Ex-dirigente do banco estatal tenta transferência para a Polícia Federal em Brasília e reorganiza defesa para viabilizar colaboração premiada no caso Banco Master

Estratégia jurídica mira colaboração premiada e mudança de custódia

Preso desde o último dia 16 na quarta fase da Operação Compliance Zero, o ex-presidente do Banco de Brasília (BRB), Paulo Henrique Costa, prepara um movimento decisivo junto ao Supremo Tribunal Federal (STF). A defesa pretende solicitar ao ministro André Mendonça, relator das investigações envolvendo o Banco Master, sua transferência do Complexo Penitenciário da Papuda para a Superintendência da Polícia Federal em Brasília.

O argumento central será a disposição do ex-dirigente em firmar um acordo de colaboração premiada, o que, segundo seus advogados, exige condições adequadas para negociação — inexistentes no atual local de custódia. A iniciativa ocorre após Costa substituir seu antigo defensor, Cléber Lopes, pelos criminalistas Eugênio Aragão e Davi Tangerino, com foco explícito na construção de uma estratégia de delação. Aragão, ex-ministro da Justiça no governo Dilma Rousseff, deverá liderar a condução do caso.

Precedente no caso Vorcaro reforça pedido

A movimentação segue uma linha já adotada pelo ex-CEO do Banco Master, Daniel Vorcaro. Detido anteriormente na Penitenciária Federal de Brasília, ele obteve autorização de Mendonça para ser transferido às instalações da Polícia Federal após sinalizar interesse em colaborar com as investigações. Vorcaro também reformulou sua equipe jurídica, contratando o advogado José Luiz Oliveira Lima, especializado em acordos de delação.

Com base nesse precedente, a defesa de Costa sustentará que a negociação de eventual colaboração exige condições similares às concedidas ao banqueiro.

Fator político e conflito de interesses entram no cálculo

Além das condições logísticas, a defesa aponta um elemento sensível: a administração da Papuda pelo Governo do Distrito Federal. Nos bastidores de Brasília, há expectativa de que o ex-governador Ibaneis Rocha (MDB) seja citado em eventual delação de Costa, o que, na avaliação dos advogados, poderia comprometer a imparcialidade do ambiente carcerário.

Esse fator também pesou na substituição da defesa anterior, já que Cléber Lopes mantém atuação profissional junto ao ex-governador. Ibaneis, figura influente no cenário político e jurídico da capital, deixou o cargo no fim de março para disputar uma vaga no Senado. Sua vice, Celina Leão (PP), assumiu o comando do Executivo local e tem buscado se dissociar do escândalo.

Corrida contra o tempo para garantir protagonismo na investigação

Fontes próximas à apuração indicam que há uma disputa implícita entre os investigados pela primazia na celebração de acordos de colaboração. Paulo Henrique Costa busca se antecipar a Vorcaro, ciente de que, caso o empresário feche um acordo primeiro, poderá reduzir significativamente o valor das informações que ainda pode oferecer às autoridades.

A atuação do ex-governador do Distrito Federal no caso é considerada um dos pontos centrais da investigação conduzida pela Polícia Federal, especialmente no que se refere a operações financeiras envolvendo seu escritório de advocacia e fundos ligados ao ecossistema do Banco Master. Ibaneis nega qualquer irregularidade.

Operação bilionária e suspeitas de fraude

As possíveis delações de Costa e Vorcaro podem lançar luz sobre a operação que envolveu a aquisição, pelo BRB, de R$ 12,2 bilhões em carteiras de crédito consideradas fraudulentas, no contexto das negociações para compra do Banco Master.

À época, o então governador Ibaneis Rocha defendeu publicamente o negócio. “O BRB passará a estar, a partir desta fusão, entre os grandes bancos do país”, declarou em agosto de 2025, ao sancionar a autorização legislativa para a operação. Segundo ele, tratava-se de uma “oportunidade”, e não de um risco.

Acusações, propinas e imóveis de luxo

De acordo com a Polícia Federal, Paulo Henrique Costa é investigado por corrupção passiva e lavagem de dinheiro. Os investigadores apontam que ele teria recebido vantagens indevidas do Banco Master em troca da aprovação das operações, incluindo seis imóveis de alto padrão — quatro em São Paulo e dois em Brasília — avaliados em R$ 146 milhões.

Desse montante, R$ 74,6 milhões teriam sido efetivamente pagos. O restante não teria sido quitado após Daniel Vorcaro tomar conhecimento de uma investigação sigilosa conduzida pelo Ministério Público Federal.

Na decisão que autorizou a prisão, o ministro André Mendonça afirmou que o ex-presidente do BRB “atuava como um verdadeiro mandatário” de Vorcaro dentro da instituição financeira estatal.

Detalhes da operação e atuação direta do ex-dirigente

As apurações indicam que os imóveis eram selecionados com base em interesses pessoais e familiares de Costa, que participava ativamente das negociações. Segundo o ministro, ele “visitava ou validava os imóveis selecionados”, acompanhava o andamento das aquisições e chegou a “demonstrar preocupação com a falta de documentação formal do arranjo”.

A decisão judicial, com 32 páginas, também determinou a prisão do advogado Daniel Monteiro, apontado como participante nas tratativas.

Com a reorganização da defesa e a tentativa de transferência, Paulo Henrique Costa entra agora em uma fase decisiva, na qual a colaboração com as autoridades pode redefinir os rumos de uma das investigações mais sensíveis envolvendo o sistema financeiro público do país.

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