O Democracia Cristã (DC), legenda com atuação restrita ao cenário político nacional e sem tempo de televisão ou assento nos debates eleitorais, aposta em um nome de peso para tentar romper a barreira da irrelevância em 2026: o ex-ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Joaquim Barbosa
Barbosa como trunfo: a herança do Mensalão e a reinvenção no DC
Aos 71 anos, o ex-relator do processo do Mensalão — que condenou figuras centrais do PT nos governos Lula e Dilma — filiou-se ao DC em abril deste ano, após décadas de militância em partidos como o PSB. A estratégia do partido, segundo informações obtidas pela Folha de S. Paulo, é substituir o atual pré-candidato, Aldo Rebelo, cujo desempenho nas pesquisas não tem empolgado sequer os próprios correligionários.
Barbosa, que foi o primeiro ministro negro do STF e indicado por Lula em 2003, já havia esboçado uma candidatura em 2018, mas desistiu. Agora, o DC vê nele a possibilidade de emplacar uma campanha pautada por dois pilares: ética na política e reforma do Poder Judiciário, temas que podem ressoar em um eleitorado desiludido com escândalos de corrupção.
Do STF ao Planalto: o desafio de Barbosa em um partido sem musculatura política
O projeto, no entanto, enfrenta obstáculos estruturais. O DC é um partido minúsculo, sem representação no Congresso e com apenas 4 deputados federais. Na eleição de 2026, a legenda não terá direito a tempo de TV nem participação nos debates oficiais — privilégios reservados a partidos com maior bancada ou desempenho eleitoral.
A aposta em Barbosa, portanto, depende não apenas de seu carisma, mas de um desempenho excepcional nas pesquisas para atrair alianças e viabilizar a campanha. Segundo dados do Poder360, o partido precisará superar a barreira do 1% de intenção de voto para garantir recursos do Fundo Especial de Financiamento de Campanha (FEFC) e, possivelmente, negociar coligações.
O legado de Barbosa e os limites de uma candidatura simbólica
Joaquim Barbosa encerrou sua carreira no STF em 2014, aos 59 anos, após uma trajetória marcada por decisões polêmicas, como a que manteve a prisão do ex-presidente Lula em 2018. Sua imagem, construída como símbolo de combate à corrupção, é seu maior ativo em uma campanha presidencial. Contudo, o desafio será transformar essa narrativa em votos, especialmente em um cenário polarizado onde pautas como a reforma da Previdência ou a redução da criminalidade têm mais apelo eleitoral.
O DC, que já buscou aliar-se a figuras como o ex-ministro da Justiça José Eduardo Cardozo em outras eleições, agora aposta em Barbosa como um cavalo de Tróia: um nome que pode atrair eleitores descontentes com a política tradicional, mesmo sem a estrutura de um partido tradicional.
Resta saber se, em um ano eleitoral, o ex-ministro conseguirá transcender a condição de eventual candidato de um partido nanico e emplacar uma campanha que, no mínimo, force os grandes nomes da disputa a responder sobre ética e Justiça.




