Uma economia em forma de K: quando os ricos ficam mais ricos e os demais, estagnados
Em 31 de maio de 2026, a economia norte-americana continua a operar sob uma lógica perversa: enquanto os 10% mais abastados detêm 68% da riqueza nacional — um recorde desde que o Federal Reserve iniciou suas medições em 1989 — os demais 90% da população dividem os 32% restantes. Essa disparidade não é apenas um dado frio, mas uma tendência estrutural que se intensificou nos últimos três anos, desde o surto inflacionário de 2023.
O fenômeno, alcunhado de “economia em forma de K”, descreve um movimento assimétrico: de um lado, os ativos dos mais ricos crescem exponencialmente; de outro, a classe média e os mais pobres mal conseguem repor perdas. Entre 2023 e 2026, o patrimônio líquido do 1% mais rico aumentou 30%, enquanto o dos 40% da classe média cresceu menos de 10%, segundo dados do Federal Reserve.
Habitação, ações e inflação: os motores da desigualdade
Três fatores explicam esse fosso cada vez maior: habitação, ações e inflação. Os imóveis, principal ativo da maioria dos americanos, se valorizaram drasticamente desde a pandemia, beneficiando sobretudo quem já possuía patrimônio. Enquanto isso, os mercados acionários — concentrados nas mãos dos mais ricos — renderam retornos expressivos, ampliando a disparidade.
A inflação, por sua vez, atuou como um multiplicador de desigualdade. Os mais pobres, que gastam a maior parte de sua renda em itens básicos como alimentação e energia, sofreram com o encarecimento desses produtos, enquanto os ricos, detentores de ativos financeiros e imobiliários, conseguiram se proteger — e até mesmo lucrar — com a alta dos preços.
O que o futuro reserva: um ciclo difícil de ser quebrado?
As perspectivas para os próximos anos não são animadoras. Especialistas ouvidos pela ClickNews alertam que, sem reformas estruturais — como tributação progressiva sobre grandes fortunas ou políticas habitacionais mais inclusivas — a tendência é de aprofundamento da desigualdade. “Os mecanismos que geram essa concentração de riqueza são cada vez mais automatizados e menos dependentes de esforço individual”, avalia o economista Thomas Piketty, autor de O Capital no Século XXI. “É um sistema que se retroalimenta.”
Para a população em geral, resta a pergunta: até quando esse modelo será sustentável? Nos EUA, onde a mobilidade social já foi um símbolo de progresso, a realidade atual aponta para um futuro onde a riqueza se torna cada vez mais hereditária — e a pobreza, cada vez mais permanente.




