Origens ancestrais: celebrações da maternidade ao longo da história
Antes mesmo da institucionalização do Dia das Mães no século XX, diversas civilizações já homenageavam a figura materna em rituais e festividades. Na Grécia Antiga, o culto à deusa Cibele — considerada a grande mãe dos deuses — incluía cerimônias em sua homenagem, associando a maternidade à fertilidade e à proteção. Em Roma, o festival Hilaria, celebrado em março, era dedicado à deusa Ceres e incluía oferendas e festividades públicas em honra à maternidade e ao ciclo de renovação da vida. Já na Inglaterra medieval, a tradição do Mothering Sunday, que ocorria no quarto domingo da Quaresma, permitia que empregados domésticos retornassem às suas cidades natais para visitar suas mães e a igreja materna, consolidando uma prática que misturava devoção religiosa e laços familiares.
A gênese estadunidense: de Howe a Jarvis, a luta por uma data dedicada
Nos Estados Unidos, a primeira proposta formal para uma data de celebração materna surgiu em 1872, quando a escritora e ativista Julia Ward Howe propôs o Dia das Mães pela Paz, em 2 de junho, como resposta à violência da Guerra Civil Americana (1861-1865). O objetivo era promover a reconciliação nacional e os valores pacifistas. Embora a iniciativa tenha ecoado em cidades como Boston e Filadélfia, a data não se consolidou devido ao advento da Primeira Guerra Mundial, que redirecionou o foco da sociedade para os conflitos globais.
Em 1908, Anna Jarvis, filha da ativista Ann Reeves Jarvis — enfermeira voluntária durante a Guerra Civil que lutava por melhorias na saúde materna e infantil — organizou um memorial em homenagem à sua mãe na igreja metodista de Grafton, Virgínia Ocidental. O evento, que reuniu cerca de 15 mil pessoas, incluiu a distribuição de cravos brancos, símbolo da pureza e do sacrifício materno. A comoção gerada levou ao reconhecimento oficial da data em nível estadual em 1910, e, em 1914, o presidente Woodrow Wilson declarou o segundo domingo de maio como feriado nacional nos EUA, sob o nome de Mother’s Day.
Do ideal ao comercialismo: a metamorfose da data
Paradoxalmente, Anna Jarvis, que dedicou anos de sua vida à luta pela instituição do Dia das Mães, tornou-se crítica ferrenha da comercialização da data. Em seus últimos anos, ela denunciou a transformação do feriado em uma oportunidade de lucro para floriculturas, confeitarias e indústrias de presentes, chegando a processar empresas que exploravam o símbolo do cravo branco. Em 1948, dois anos antes de sua morte, Jarvis declarou em entrevista ao Associated Press: “Eu não criei o Dia das Mães para ser um dia de lucro, mas para celebrar o amor incondicional e o sacrifício das mães”.
Adaptação global: o Brasil e a disseminação cultural
No Brasil, a data foi introduzida em 1932, durante o governo de Getúlio Vargas, como parte de uma estratégia de promoção da moral familiar e da imagem da mulher como pilar do lar. A escolha do segundo domingo de maio alinhou-se à tendência norte-americana, embora a comemoração já existisse em algumas regiões desde 1918, quando a então primeira-dama do estado de São Paulo, Elzira Dutra, promoveu um evento em homenagem à mãe. Hoje, o Dia das Mães no Brasil movimenta bilhões de reais anualmente, com o comércio de presentes, flores e refeições em restaurantes sendo um dos principais vetores econômicos do mês de maio.
Impacto social e crítico: entre o afeto e a exploração comercial
Enquanto para muitos a data representa uma oportunidade de reafirmar laços afetivos, críticos apontam para a pressão social sobre as mães na sociedade contemporânea. O marketing voltado para a data frequentemente impõe padrões irreais de consumo e cuidado, associando o valor materno a presentes materiais. Além disso, a comemoração ignora estruturas familiares não convencionais, como mães solteiras, adotivas ou LGBTQI+, reforçando um modelo tradicional de família.
Segundo a socióloga Dra. Mariana Lima, da Universidade de São Paulo, “O Dia das Mães, em sua essência, deveria ser um momento de reflexão sobre o papel social da maternidade, que transcende a biologia e inclui figuras de cuidado em diversas formações familiares. No entanto, a data muitas vezes se reduz a uma celebração consumista, negligenciando as desigualdades de gênero e classe que permeiam a experiência materna”.
Perspectivas futuras: repensar ou abolir?
Diante das críticas, algumas vozes defendem a readequação ou mesmo a substituição do Dia das Mães por uma data mais inclusiva, como o Dia Internacional da Mulher, que abarca múltiplas dimensões da vida feminina. Outras propostas incluem a criação de um Dia da Família, que homenageie todos os cuidadores, independentemente do gênero. Contudo, a resistência cultural e a força do comércio tornam improvável uma mudança imediata no calendário brasileiro.
Curiosidades históricas e dados atuais
• O cravo branco, símbolo do Dia das Mães nos EUA e em vários países, foi escolhido por Anna Jarvis em homenagem à sua mãe, que costumava usar a flor em seus trabalhos de caridade.
• Em 2023, o Brasil movimentou cerca de R$ 4,5 bilhões com a data, segundo a Confederação Nacional do Comércio (CNC).
• Na Suécia, o Mors Dag é celebrado no último domingo de maio e inclui a entrega de cartões feitos à mão pelas crianças.
• A Coreia do Sul comemora o Día dos Pais e o Dia das Mães no mesmo dia, em 8 de maio, em um único feriado chamado Parents’ Day.




