A usina nuclear de Barakah, joia estratégica dos Emirados Árabes Unidos, tornou-se alvo de um ataque com drone na manhã deste domingo (17), gerando um incêndio no perímetro da instalação sem, contudo, comprometer sua operação ou a segurança nuclear
O ataque em números: danos limitados, mas mensagem política explosiva
Segundo comunicado oficial do Ministério da Energia dos EAU, o fogo foi controlado em menos de duas horas, enquanto os quatro reatores da usina — responsáveis por 25% da energia elétrica do país — permaneciam estáveis e sem vazamento de material radioativo. A AIEA (Agência Internacional de Energia Atômica) detalhou que o artefato atingiu um gerador elétrico externo, acionando os sistemas de emergência movidos a diesel da usina, construída em parceria com a Coreia do Sul ao custo de US$ 20 bilhões. A instalação, única usina nuclear do mundo árabe e inaugurada em 2020, nunca havia sido alvo de um ataque militar em seus seis anos de operação. A precisão do drone, que sobrevoou 225 km até atingir a estrutura, sugere um planejamento minucioso — ou, ao menos, acesso a informações sensíveis sobre a localização do alvo.
A reação regional: EAU acusam violação do direito internacional, Israel se prepara para o pior
Em comunicado veemente, o Ministério dos Negócios Estrangeiros dos EAU classificou o ataque como uma “violação flagrante” da Resolução 2817 do Conselho de Segurança da ONU, da Carta das Nações Unidas e dos princípios de soberania territorial, exigindo uma resposta internacional coordenada. A declaração, apesar de não mencionar diretamente o Irã, ecoa meses de tensão no Estreito de Ormuz, onde ataques com drones e mísseis têm se tornado rotineiros desde o colapso parcial do cessar-fogo entre Washington e Teerã.
Enquanto isso, o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, declarou ao seu gabinete que o país está em “prontidão máxima” para cenários adversos, anunciando uma reunião emergencial com o ex-presidente norte-americano Donald Trump para discutir a escalada regional. “A segurança de Israel e de nossos aliados não será negociada”, afirmou Netanyahu, em tom que reforça a hipótese de uma resposta militar israelense caso a autoria do ataque seja atribuída ao Irã ou a seus aliados.
AIEA em alerta: segurança nuclear sob ameaça crescente
O diretor-geral da AIEA, Rafael Mariano Grossi, classificou o incidente como “inaceitável” e alertou para o risco de que “atividades militares coloquem em xeque a segurança de instalações nucleares civis”. Grossi lembrou que, diferentemente do programa iraniano — constantemente monitorado por sanções internacionais —, a usina de Barakah opera sob um acordo de não-proliferação com os EUA, que proíbe o enriquecimento doméstico de urânio. “Este ataque não apenas fere a soberania dos EAU, como mina a confiança global na proteção de infraestruturas críticas”, declarou o diplomata.
Contexto explosivo: o tabuleiro geopolítico por trás do drone
O timing do ataque não é mera coincidência. Desde janeiro de 2026, as hostilidades entre EUA e Irã intensificaram-se após a retomada de ataques aéreos mútuos no Golfo Pérsico, incluindo a destruição de plataformas petrolíferas iranianas e bases militares americanas no Iraque. O Estreito de Ormuz, por onde transitam 20% do petróleo global, tornou-se um barril de pólvora: o Irã já ameaçou fechar a rota em resposta a sanções, enquanto navios-tanque estadunidenses navegam escoltados por porta-aviões.
Neste cenário, a usina de Barakah — localizada a menos de 300 km do Irã — representa um alvo simbólico. Embora não haja provas concretas de envolvimento iraniano no ataque, a ausência de reivindicação sugere uma estratégia de “negabilidade plausível”, típica de operações encobertas. Especialistas ouvidos pela ClickNews destacam que o drone poderia ter origem em grupos aliados ao Irã, como os Houthis do Iêmen ou milícias iraquianas, que já realizaram ataques similares contra alvos nos EAU nos últimos anos.
O que vem pela frente: riscos e possíveis desdobramentos
O incidente em Barakah levanta três cenários principais para os próximos dias:
- Escalada militar limitada: Retaliações diretas entre EAU/Israel e Irã, possivelmente por meio de ataques a instalações de drones ou bases no Iêmen. Os EAU já aumentaram a segurança em suas fronteiras com o Omã e a Arábia Saudita;
- Pressão diplomática: A AIEA ou o Conselho de Segurança da ONU podem aprovar sanções contra o Irã ou grupos não-estatais, embora a eficácia dessas medidas seja questionável;
- Reavaliação da segurança nuclear: A vulnerabilidade de Barakah pode levar outros países a reexaminar a proteção de suas usinas, especialmente na Arábia Saudita e Turquia, que também investem em energia nuclear.
Enquanto a autoria do ataque permanece um mistério, uma coisa é certa: a paz frágil no Golfo Pérsico acaba de sofrer um novo abalo. E, desta vez, a mira não foi um navio ou uma base militar — mas o coração da matriz energética de um dos países mais ricos do mundo árabe.




