A República Democrática do Congo declarou estado de emergência sanitária após confirmar um novo surto de Ebola na província de Ituri, no leste do país
Dados da Organização Mundial da Saúde (OMS) revelam que, até o momento, 80 mortes comunitárias foram associadas à cepa Bundibugyo do vírus — uma variante rara, identificada pela primeira vez em Uganda há 17 anos. As amostras analisadas pelo Instituto Nacional de Pesquisa Biomédica de Kinshasa confirmaram a presença do patógeno em 8 dos 13 casos suspeitos, todos registrados nas zonas de saúde de Mongbwalu e Rwampara.
O desafio da cepa Bundibugyo: Por que ela muda a estratégia de combate ao Ebola
A cepa Bundibugyo, detectada em 2007 no distrito de mesmo nome em Uganda, possui características distintas que preocupam epidemiologistas. Diferentemente da cepa Zaire — responsável pela maioria dos surtos no Congo e alvo das vacinas e tratamentos atuais —, a Bundibugyo apresenta uma letalidade documentada de 32% em registros históricos, com 131 casos e 42 mortes no episódio inicial. Segundo o virologista congolês Jean-Jacques Muyembe, um dos pioneiros no estudo do Ebola, a ausência de protocolos específicos para esta variante pode comprometer a eficácia das respostas rápidas.
“A Bundibugyo não é a Zaire. Isso significa que os testes diagnósticos, as terapias e até mesmo as estratégias de contenção precisam ser reavaliados”, afirmou Muyembe à Reuters. A OMS, que já enviou 5 toneladas de insumos para Bunia — incluindo equipamentos de biossegurança, tendas de isolamento e suprimentos laboratoriais —, admitiu que a adaptação dos protocolos será um processo crítico para evitar uma crise semelhante à do surto de 2014-2016, quando a cepa Zaire ceifou mais de 11 mil vidas na África Ocidental.
Ituri: Um barril de pólvora epidemiológico
A província de Ituri, epicentro do atual surto, é uma região de alta vulnerabilidade. Caracterizada por intensa circulação de pessoas — impulsionada por atividades de mineração artesanal e deslocamentos forçados devido a conflitos internos —, a área se tornou um vetor potencial para a disseminação do vírus. A OMS destacou que a mobilidade populacional, somada à fragilidade da infraestrutura de saúde local, eleva o risco de transmissão intercomunitária e até mesmo internacional.
Este cenário agrava-se pelo histórico recente do Congo: trata-se do 17º surto de Ebola no país desde 1976, quando o vírus foi identificado pela primeira vez em Yambuku. O último ciclo epidêmico havia sido declarado encerrado em dezembro de 2025, após meses de contenção. Agora, a emergência da Bundibugyo reacende temores de uma nova onda de proporções desconhecidas.
Uganda na mira: Caso importado expõe fragilidades na fronteira
O alarme sanitário transcendeu as fronteiras congolesas. Na capital ugandense, Kampala, um homem congolês faleceu após contrair o Ebola Bundibugyo, segundo informações do Ministério da Saúde local. Autoridades ugandenses confirmaram tratar-se de um caso importado — o paciente havia contraído a doença no Congo antes de viajar para Uganda. Até o momento, não há registros de transmissão local, mas o episódio serve como um alerta para a Organização Mundial da Saúde (OMS) sobre a necessidade de fortalecer o monitoramento nas regiões fronteiriças.
“A mobilidade entre os dois países, especialmente em áreas de mineração e comércio informal, representa um risco constante”, declarou um porta-voz da OMS. A organização já ampliou sua presença em Ituri, com equipes técnicas trabalhando em conjunto com as autoridades congolesas para rastrear contatos e implementar medidas de barreira.
O que esperar nos próximos dias?
Com a confirmação do surto e a identificação da cepa Bundibugyo, a prioridade das autoridades é conter a transmissão antes que o número de casos se multiplique. A OMS já iniciou a distribuição de kits de proteção individual (EPIs), treinamento de profissionais de saúde e campanhas de conscientização comunitária. No entanto, especialistas alertam que a resposta será mais complexa do que em surtos anteriores.
“A Bundibugyo pode não se espalhar tão rapidamente quanto a Zaire, mas sua letalidade e a falta de imunidade populacional são fatores de risco inegáveis”, avaliou a epidemiologista Dra. Amina Sow, consultora da OMS para doenças emergentes. Enquanto isso, governos regionais e organizações internacionais preparam-se para um possível cenário de crise, com o medo de que o surto se agrave antes que as medidas preventivas surtam efeito.




