Por Wilton Emiliano Pinto
Há noites em que o corpo se recolhe, mas algo em nós permanece desperto.
É quando os sonhos chegam, sem pedir licença, como visitas antigas que conhecem o caminho da casa.
E eu, que já atravessei mais de oito décadas, descubro algo curioso nessas viagens silenciosas. Nos meus sonhos, não carrego o peso dos anos.
Não há rugas, nem cansaço, nem a conta do tempo.
Sou sempre um homem de quarenta, firme, inteiro, caminhando com passos largos, como se a vida ainda estivesse começando.
É estranho acordar com oitenta e um e lembrar que, há poucos instantes, eu corria leve dentro de mim mesmo.
Mas a verdade é que, na maioria das noites, lembro de pouca coisa que sonhei.
O sonho vem e vai como água entre os dedos. A gente tenta segurar, mas ele escapa. Fica, quando muito, uma ponta de história. Um rosto sem nome.
Um lugar que não existe no mapa. Um sentimento que insiste, mesmo sem explicação.
E passamos o dia tentando reconstruir o que nunca chegou a ser completo.
Há quem diga que o sonho é reflexo do que vivemos.
Pode ser. Há lógica nisso.
Fragmentos do dia que se reorganizam na escuridão da noite.
Mas nem tudo obedece à lógica.
Porque, se obedecesse, bastaria desejar. Bastaria deitar pensando em algo bonito, em alguém querido, em uma lembrança boa e pronto, o sonho viria, obediente.
Mas não vem.
O sonho não aceita ordens.
Ele não se curva à vontade de quem dorme.
É livre, indomável, quase teimoso.
Escolhe seus próprios caminhos, suas próprias imagens, suas próprias histórias.
E talvez seja justamente isso que lhe dá esse ar de mistério.
Há sonhos que parecem não dizer nada.
Outros deixam marcas profundas, mesmo quando não sabemos explicá-las.
E há aqueles raros… que ficam.
Ficam como se tivessem sido vividos de verdade.
Como se não fossem apenas produto da mente, mas um encontro, desses que acontecem em algum lugar que não sabemos nomear.
Com o tempo, aprendi a não discutir com os sonhos.
Eles não precisam ser entendidos para terem valor.
Nem todo sonho é mensagem.
Nem todo sonho é aviso.
Mas todo sonho carrega alguma coisa nossa, ainda que seja apenas um eco distante do que sentimos, pensamos ou guardamos em silêncio.
O que mais me intriga, no entanto, não é o conteúdo do sonho.
É essa liberdade que ele tem.
Enquanto estamos acordados, tudo precisa de explicação, de ordem, de sentido.
A vida cobra coerência.
O sonho, não.
Ele mistura tempos, desmonta cenários, aproxima o que está distante, revive o que já acabou.
E faz tudo isso sem pedir autorização.
Talvez sonhar seja isso.
Um território onde não mandamos.
E, curiosamente, é nesse território sem controle que, muitas vezes, nos encontramos mais inteiros.
Porque ali, onde não existe idade, eu continuo sendo.
Onde não existe regra, eu continuo sentindo.
Onde não existe lógica, algo em mim continua vivo.
E quando acordo, já não me preocupo tanto em entender.
Aceito.
Porque, no fim das contas, o sonho não precisa fazer sentido para cumprir seu papel.
Ele apenas passa.
E, ao passar, deixa um rastro invisível, leve, silencioso,
mas profundamente humano.
A vida a gente tenta controlar.
O sonho nos ensina que nem tudo foi feito para caber nas nossas mãos.
E talvez seja esse o seu maior recado.
Há coisas que só existem plenamente quando são livres.
Inclusive nós.

Wilton sonha onde o tempo não entra e acorda trazendo pedaços do infinito.
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