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Estudo revela que ao menos uma em cada dez brasileiras é vítima de violência por parceiro íntimo

João
5 de maio de 2026 às 15:58
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Estudo revela que ao menos uma em cada dez brasileiras é vítima de violência por parceiro íntimo

“Imagem ilustrativa gerada por IA”.

Pesquisa internacional mostra que até 14% das mulheres no Brasil sofreram violência em 2023; impacto é estrutural e mais intenso entre mulheres negras

Dimensão do problema

 

Um levantamento publicado na revista científica The Lancet, por meio do projeto Global Burden of Disease, revelou que cerca de 11 milhões de mulheres brasileiras foram vítimas de violência de parceiro íntimo em 2023. O índice corresponde a entre 10% e 14% das mulheres com 15 anos ou mais.

Em escala mundial, os números são ainda mais alarmantes: 608 milhões de mulheres já sofreram violência de parceiro íntimo, enquanto 1,01 bilhão de pessoas relataram violência sexual na infância.

Consequências para a saúde

O estudo aponta que os efeitos da violência não se limitam ao momento da agressão. Em 2023, os episódios de violência por parceiro íntimo resultaram em 18,5 milhões de anos de vida perdidos por doenças ou morte precoce entre mulheres. Já a violência sexual na infância somou 32,2 milhões de anos de vida perdidos, colocando o problema entre os principais fatores de risco à saúde de mulheres de 15 a 49 anos.

Segundo o psiquiatra João Maurício Castaldelli-Maia, da Faculdade de Medicina da USP, os dados revelam uma “epidemia silenciosa”. “Mesmo para quem trabalha com o tema, ver mais de 600 milhões de mulheres expostas à violência por parceiro e mais de 1 bilhão de pessoas com história de violência sexual na infância mostra a dimensão populacional do problema”, afirmou.

Impacto na infância

Quando ocorre na infância, os efeitos tendem a ser mais profundos, alterando trajetórias emocionais e sociais. “Esse tipo de violência acontece em um período crítico do desenvolvimento cerebral e pode afetar vínculos, autoestima e resposta ao estresse, aumentando o risco de sofrimento mental e de novas situações de violência ao longo da vida”, explicou Castaldelli-Maia.

Estrutura social e desigualdade racial

A pesquisadora Juliana Brandão, do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, destacou que a violência é estrutural e persistente. “O que aparece é uma violência que se mantém, que não desaparece com o tempo. Isso mostra que estamos diante de um fenômeno estrutural, que exige respostas também estruturais”, disse.

No Brasil, o problema apresenta recortes específicos: 64,2% das vítimas são mulheres negras, evidenciando desigualdades raciais na exposição ao risco.

Subnotificação e feminicídio

O estudo também aponta para a subnotificação dos casos, já que muitas vítimas não denunciam por medo, culpa ou dependência econômica. “Na maior parte das vezes, o agressor está no círculo íntimo. Denunciar envolve medo, culpa e, muitas vezes, dependência econômica”, explicou Brandão.

Apesar da redução de alguns indicadores gerais de criminalidade, os casos de feminicídio seguem em crescimento no Brasil, reforçando a necessidade de políticas públicas específicas.

Caminhos para enfrentamento

Especialistas defendem que o enfrentamento da violência exige medidas estruturais, que combinem prevenção, proteção e autonomia para as mulheres. Sem políticas que garantam condições reais para romper o ciclo da violência, o padrão tende a se repetir.

(Fonte: Folhapress)

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