Uma jornada contra o descaso
O rio Amazonas, pulso vital de uma das regiões mais biodiversas do planeta, enfrenta uma crise silenciosa: a poluição por plásticos e detritos industriais. Neste cenário, a chegada do triatleta colombiano Diego Francisco, conhecido como ‘Homem-Peixe’, a Manaus nesta semana simboliza mais do que uma conquista esportiva — representa um grito de alerta ambiental. Sua expedição, que começou em outubro de 2023 no Peru e deve se encerrar em Belém (PA) em junho de 2024, percorreu mais de 6 mil km ao longo de 11 estados brasileiros, colombianos e peruanos, testemunhando in loco os danos causados pela má gestão de resíduos nos ecossistemas fluviais.
Da paixão pelo esporte à missão ambiental
Diego Francisco, 34 anos, não é apenas um atleta de endurance. Formado em Biologia Marinha, ele transformou sua paixão pelo triatlo em uma ferramenta de advocacy ambiental. ‘Comecei a nadar nos rios da Colômbia para entender melhor os ecossistemas aquáticos. Com o tempo, percebi que a poluição não era apenas um problema local, mas uma crise regional’, explica. Em 2022, ele já havia chamado atenção ao percorrer 2,5 mil km pelo rio Magdalena, na Colômbia, coletando dados sobre microplásticos. Agora, no Amazonas, seu objetivo é mapear pontos críticos de despejo de lixo, como o encontro das águas do Negro e Solimões, onde o lixo flutuante se acumula em proporções alarmantes.
Os dados que assustam: uma bacia hidrográfica em colapso
Segundo relatórios do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA), a bacia amazônica recebe cerca de 5 milhões de toneladas de plástico por ano, com o Brasil sendo responsável por 3,2 milhões. Em Manaus, um estudo da Universidade Federal do Amazonas (UFAM) identificou que 70% do lixo encontrado nas margens dos rios é composto por embalagens descartáveis, seguidas por resíduos hospitalares e industriais. ‘O descarte irregular é um problema cultural. As pessoas jogam lixo nos rios como se fossem ralos a céu aberto, sem entender que esses ecossistemas são interconectados’, alerta o biólogo Ronaldo Evangelista, coordenador do Instituto de Proteção Ambiental do Amazonas (IPAAM).
Manaus como epicentro da crise
A capital amazonense, com seus 2,2 milhões de habitantes, enfrenta um duplo desafio: a urbanização acelerada e a falta de infraestrutura para gerir resíduos. Apenas 45% do lixo produzido na cidade é destinado corretamente, segundo dados da Secretaria Municipal de Limpeza Pública (Selimp). O restante acaba nos igarapés ou é queimado, liberando gases tóxicos. ‘Manaus é um espelho da negligência. Temos aterros sanitários superlotados e uma população que ainda não assimila a reciclagem como hábito’, comenta a engenheira ambiental Cláudia Mendes, pesquisadora da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Amazonas (Fapeam).
Durante sua passagem pela cidade, ‘Homem-Peixe’ participou de uma série de palestras em universidades e escolas, além de um mutirão de limpeza na Reserva de Desenvolvimento Sustentável do Tupé, onde coletou mais de 300 kg de resíduos em apenas três horas. ‘A missão maior não é só mostrar o problema, mas fazer com que as pessoas parem de jogar lixo. É um trabalho de formiguinha, mas necessário’, afirmou Francisco.
O papel das políticas públicas e o ativismo cidadão
A expedição de Diego Francisco ganha relevância em um momento em que governos locais e federais discutem o Plano Nacional de Resíduos Sólidos, que prevê metas para reduzir em 50% o descarte de plásticos até 2030. No entanto, especialistas criticam a falta de fiscalização e investimento em educação ambiental. ‘Políticas públicas existem, mas são implementadas de forma fragmentada. Falta integração entre estados e cooperação internacional’, pontua o sociólogo Eduardo Silva, da Universidade de Brasília (UnB).
Enquanto isso, iniciativas como a do ‘Homem-Peixe’ ganham protagonismo. Em 2023, a expedição já havia mobilizado mais de 500 voluntários em 12 municípios, recolhendo 2 toneladas de lixo. ‘Não adianta apenas denunciar. É preciso agir’, defende Francisco. Sua próxima parada é Belém, onde planeja um encontro com comunidades ribeirinhas para discutir soluções locais, como a criação de cooperativas de reciclagem.
Perspectivas: um futuro sem lixo nos rios?
Para especialistas, a mudança depende de três frentes: 1) fiscalização rigorosa contra empresas e indivíduos que despejam resíduos irregularmente; 2) investimento em educação ambiental, especialmente em escolas; e 3) tecnologias de coleta e reciclagem adaptadas à realidade amazônica. ‘A Amazônia não pode esperar. Cada dia de atraso significa mais mortes de peixes, mais doenças nas populações ribeirinhas e mais danos irreversíveis à biodiversidade’, alerta a bióloga Luciana Costa, do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa).
A expedição de Diego Francisco termina em junho, mas seu legado pode ser duradouro. ‘Se conseguirmos fazer com que pelo menos 1% das pessoas pare de jogar lixo nos rios, já será uma vitória’, conclui o ativista. Enquanto os governos debatem, a água continua correndo — carregando consigo não apenas a vida, mas também a responsabilidade de 7 milhões de km² de território que precisam urgentemente de proteção.




