Datafolha aponta 48% de evangélicas com Flávio Bolsonaro e 26% com Lula
Jovem eleitora relata influência da religião na primeira escolha de voto
Kawanny Almeida do Nascimento, 17 anos, de Itumbiara (GO), decidiu tirar título de eleitor mesmo sem obrigatoriedade após conversas na escola e com familiares. “Fui entendendo a importância do voto, que molda muitas partes da sociedade e poderia influenciar também no meu futuro”, diz. Criada em família evangélica, ainda indecisa sobre seu voto, afirma: “O que é importante na política é escolher alguém que esteja de acordo com os meus princípios”.
Série da Folha acompanha participação feminina no pleito
A trajetória de Kawanny integra a série Voto das Mulheres, produzida pela Folha de S.Paulo para acompanhar eleitoras em diferentes cidades do país, com perfis variados de trajetória social e posicionamento político, retratados em fotografias com técnica de múltipla exposição e inteligência artificial.
Religião não garante voto uniforme entre fiéis
A mineira Carliane Avellar Gandra, de direita, e a pernambucana Rayane Barros, de esquerda, ilustram como a fé pode levar a conclusões políticas opostas. Rayane relata que sua aproximação com o candomblé mudou sua trajetória, antes voltada à carreira policial. “Quando chegou no quarto período, conheci a religião que eu professo, e meu orixá, justamente o senhor da justiça, disse que o que eu tinha que fazer era a justiça do povo e não a da farda”, diz. Filha de mãe solo, hoje atua em organização social e vê o voto em Lula como defesa de sua própria existência como mulher negra, de religião afro-brasileira e LGBTQIA+.
Evangélica de BH associa fé a liberdade econômica
Carliane, moradora de Belo Horizonte e frequentadora da Igreja Batista da Lagoinha, afirma que suas escolhas políticas nascem de “valores e princípios” cristãos e conservadores. Pretende votar em Romeu Zema (Novo), unindo “liberdade econômica e conservadorismo”, e apoiaria Flávio Bolsonaro num eventual segundo turno sem Zema, desde que contra Lula.
Pesquisa confirma vantagem de Flávio entre evangélicos
Levantamento Datafolha de setembro de 2026 mostra Flávio Bolsonaro à frente de Lula entre evangélicos no primeiro turno: 48% a 26%, com margem de erro de dois pontos. Entre mulheres, porém, a indecisão é maior: 26% não indicaram candidato na pesquisa espontânea, ante 14% dos homens.
Aborto é tema decisivo para parte das evangélicas
Para Carliane, o aborto é o fator de maior peso em sua decisão: “Sou uma pessoa 100% contra o aborto, isso é o mais importante para mim”. Segundo pesquisas do Iser, valores cristãos orientam decisões políticas de evangélicas, e candidatos contrários ao aborto, às drogas e à homossexualidade tendem a ser mais bem avaliados nesse grupo — embora a aceitação do feminismo entre evangélicas tenha crescido, chegando a 63% em 2025.
Especialista destaca alinhamento moral com a direita
A coordenadora do Iser, Lívia Reis, afirma que a religião é um marcador relevante, mas deve ser cruzada com renda, raça e escolaridade. Segundo ela, há um “alinhamento moral” entre parte das evangélicas e o discurso bolsonarista.
“Tem essa ideia de proteção da família, da infância, que privatiza de volta para a família o cuidado, em contrapartida ao discurso governamental de esquerda”, diz. “São 15 anos de ataques à suposta ideologia de gênero, ‘mamadeira de piroca’, e, com o tempo, isso vai se naturalizando.”
Reis também observa que o discurso sobre aborto entre essas mulheres raramente é tratado como questão de saúde pública, aproximando-se antes da retórica de “bem e mal”: “São discursos incorporados na gramática do embate entre bem e mal. E a lógica de guerra neopentecostal tem inimigos que têm nomes. São feministas, abortistas, esquerdistas, esses estereótipos”.
Historiadora traça três ciclos de mobilização conservadora
A historiadora Heloisa Starling identifica três momentos de mobilização de mulheres conservadoras no Brasil: as “blusas verdes” integralistas dos anos 1930, a mobilização em torno do golpe de 1964 e as células de oração do projeto Alicerça Brasil, ligado a Michelle Bolsonaro. “Não é uma iniciativa de partido. Aproveita-se essa estrutura da igreja evangélica, de grupos de oração em casa, e criam-se células políticas dentro da casa das pessoas”, explica.




