Estruturação inédita: modelo descentralizado busca evitar erros do passado
A pré-campanha do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) à Presidência da República ingressou em uma fase de formalização estrutural, marcada pela divisão clara de responsabilidades em quatro eixos estratégicos: programa de governo, área jurídica, infraestrutura e comunicação. A iniciativa, articulada sob a liderança do senador Rogério Marinho (PL-RN), representa uma ruptura com o modelo centralizador adotado durante a campanha de 2018, quando o então candidato Jair Bolsonaro (PL) delegou amplos poderes ao ex-ministro Paulo Guedes — apelidado pejorativamente de “posto Ipiranga” pela concentração de decisões econômicas.
Diferentemente daquele cenário, a atual gestão optou por uma abordagem descentralizada, na qual cada área conta com um responsável específico e perfil técnico distinto. Essa configuração visa não apenas otimizar a eficiência operacional, mas também mitigar riscos de conflitos internos ou sobreposição de funções, conforme avaliação de analistas políticos ouvidos pela ClickNews. Especialistas destacam que a medida reflete uma aprendizagem institucional do PL, partido que, após as eleições de 2022, passou a priorizar estruturas mais profissionalizadas para enfrentar um cenário eleitoral cada vez mais complexo.
Rogério Marinho assume o comando político com foco em articulação federativa
Como coordenador geral da pré-campanha, Rogério Marinho atua como elo entre a equipe técnica e os diversos segmentos de interesse estratégico para a candidatura. Seu trabalho tem se concentrado na interlocução com o Congresso Nacional, o empresariado e o funcionalismo público, áreas críticas para a viabilização de uma plataforma governamental competitiva em 2026. Em entrevista exclusiva à ClickNews, Marinho afirmou que a prioridade atual é ‘construir uma base de governabilidade sólida, não apenas um discurso de oposição’.
Nos últimos seis meses, o senador tem se dedicado à estruturação de palanques estaduais em estados-chave, como São Paulo, Minas Gerais e Paraná, onde o PL busca ampliar sua representatividade. Essa estratégia reflete uma mudança tática em relação ao ciclo anterior, quando a campanha de 2022 concentrou esforços no Nordeste e em regiões com maior adesão ao bolsonarismo. A diversificação geográfica busca neutralizar o desgaste causado pela polarização e atrair eleitores moderados, segundo fontes internas do partido.
Programa de governo: Eduardo Cury lidera articulação técnica com 80 reuniões realizadas
Eduardo Cury, ex-deputado federal e responsável pelo núcleo de programa de governo, tem conduzido cerca de 80 reuniões desde setembro de 2023. Participam do processo especialistas de mercado, acadêmicos e representantes de partidos aliados, incluindo figuras de centro-direita e direita liberal. O conteúdo das discussões, mantido sob sigilo, abrange temas como reforma tributária, desburocratização administrativa e políticas de infraestrutura.
Fontes próximas à campanha revelaram à ClickNews que o programa deve incorporar propostas de descentralização fiscal e incentivos à inovação tecnológica, alinhadas às demandas do setor produtivo. Cury, conhecido por seu perfil negociador, tem sido descrito como ‘um tradutor entre a política e o mundo corporativo’ por interlocutores que participaram das tratativas. A estratégia busca evitar que a campanha seja reduzida a um discurso polarizado, optando por um texto propositivo que dialogue com diferentes segmentos econômicos.
Jurídico: Maria Claudia Bucchianeri reforça blindagem legal contra adversários
A área jurídica da pré-campanha, comandada pela advogada Maria Claudia Bucchianeri, ex-integrante do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), tem como missão blindar a campanha contra possíveis ações judiciais e irregularidades processuais. Com ampla rede de contatos em cortes superiores, como o Supremo Tribunal Federal (STF) e o Superior Tribunal de Justiça (STJ), Bucchianeri é reconhecida por sua atuação em casos de alta complexidade, incluindo disputas eleitorais anteriores.
Em declaração à ClickNews, a jurista afirmou que o foco está em ‘antecipar riscos e garantir que a campanha transcorra dentro da legalidade’. Entre os temas monitorados estão as regras de propaganda, financiamento de campanha e possíveis questionamentos sobre a elegibilidade de Flávio Bolsonaro, alvo de investigações no âmbito das operações da Polícia Federal. A presença de um nome com expertise em direito eleitoral é interpretada como um sinal de que a campanha busca evitar erros cometidos em 2022, quando acusações de caixa dois e irregularidades na prestação de contas prejudicaram a imagem do candidato.
Infraestrutura: Vicente Santini desenha propostas para logística e concessões
Vicente Santini, responsável pela frente de infraestrutura, acumula experiência em cargos estratégicos da administração federal, incluindo atuações no Ministério da Infraestrutura e na Empresa de Planejamento e Logística (EPL). Sua missão é elaborar um plano de expansão da malha logística brasileira, com ênfase em concessões de rodovias, ferrovias e portos, além de políticas de desestatização em setores críticos.
Santini tem mantido interlocução com operadores do mercado, como a Confederação Nacional do Transporte (CNT) e a Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (FIESP), visando construir consensos em torno de um modelo que concilie investimento privado e interesse público. Em nota enviada à ClickNews, o estrategista afirmou que ‘a infraestrutura é a espinha dorsal de qualquer projeto de desenvolvimento, e 2026 deve ser o ano de virar a página das incertezas’. A equipe estuda incluir no programa de governo metas como a duplicação de 15 mil quilômetros de rodovias até 2030 e a modernização de 20 portos até 2028.
Comunicação: Marcello Lopes atua como elo entre Flávio e a mídia
A área de comunicação, ainda em fase de definição formal, tem como nome central Marcello Lopes, conhecido no meio político como ‘Marcelão’. Amigo próximo de Flávio Bolsonaro desde a juventude, Lopes atua como homem de confiança na interface entre a campanha, a imprensa e as redes sociais. Embora a coordenação oficial da pasta ainda não tenha sido oficialmente anunciada, fontes internas do PL indicam que a estratégia passará por uma reformulação, com foco em conteúdos digitais e combate à desinformação.
Especialistas em comunicação política avaliam que a presença de Lopes sinaliza uma tentativa de humanizar a imagem de Flávio, que enfrenta baixo índice de aprovação entre eleitores de centro e moderados. A estratégia inclui a produção de vídeos curtos para plataformas como TikTok e Instagram, além de uma maior presença em programas de televisão aberta. Contudo, analistas ponderam que o desafio será equilibrar o tom combativo, tradicionalmente associado ao bolsonarismo, com uma linguagem mais propositiva, capaz de atrair novos públicos.
Contexto histórico e desdobramentos para 2026
A estruturação atual da pré-campanha de Flávio Bolsonaro remonta a um processo de reorganização interna do PL, partido que, após a derrota nas eleições de 2022, passou a investir em profissionalização de sua máquina eleitoral. Diferentemente de 2018, quando a campanha foi marcada por improvisações e dependência de figuras carismáticas, o atual ciclo busca incorporar quadros técnicos e evitar a concentração de poder em um único nome.
Analistas políticos destacam que a estratégia reflete uma tentativa de se distanciar do legado de Jair Bolsonaro, cujo governo foi marcado por conflitos institucionais e baixa capacidade de articulação com o Congresso. A opção por uma estrutura descentralizada, com áreas especializadas, é interpretada como um sinal de maturidade do partido, embora ainda reste verificar se a equipe conseguirá traduzir as propostas em um discurso unificado e atraente para o eleitorado.
Com a campanha ainda em fase prévia, os próximos meses serão decisivos para avaliar se a estruturação anunciada se traduzirá em ganhos concretos de competitividade. Enquanto isso, o PL segue apostando em uma narrativa que combine crítica ao governo Lula com um pacote de reformas, buscando ocupar o espaço político deixado pela fragmentação da direita tradicional.
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