A ciência por trás do ‘hangry’: mais do que fome, uma questão de percepção
Um estudo recente publicado na revista The Lancet eBioMedicine lança luz sobre um fenômeno cotidiano e profundamente humano: a irritabilidade que surge quando o estômago ronca. Conhecido popularmente pela expressão inglesa hanger —junção de hungry (faminto) e angry (bravo)—, o estado emocional negativo associado à fome revelou-se mais complexo do que a simples queda de glicose no sangue. Segundo os pesquisadores, a resposta biológica depende, sobretudo, da percepção consciente da privação alimentar, e não unicamente de fatores metabólicos.
A investigação, conduzida por uma equipe liderada pelo neurocientista Nils Kroemer, da Universidade de Tübingen (Alemanha), analisou a relação entre níveis de glicose e oscilações de humor em adultos saudáveis. Os resultados demonstraram que a queda na glicemia só afeta o humor quando o indivíduo percebe ativamente que está com fome. Em outras palavras, sem a consciência desse estado, o organismo não desencadeia reações emocionais significativas. “A irritabilidade associada à fome é melhor explicada pela percepção consciente do corpo, não pela glicose em si”, afirma Kroemer à Agência Einstein.
A interocepção como chave para o controle emocional
O estudo introduz um conceito fundamental para a saúde mental: a interocepção, capacidade do sistema nervoso de detectar e interpretar sinais internos do organismo. Segundo os pesquisadores, pessoas com maior precisão interoceptiva —ou seja, aquelas que “ouvem melhor” as próprias sensações corporais— apresentam menor vulnerabilidade ao hanger. Essa habilidade atua como um mecanismo de regulação emocional, permitindo que o indivíduo identifique e responda a necessidades fisiológicas antes que a irritabilidade se instale.
“A interocepção é treinável”, explica a endocrinologista Cynthia Valerio, diretora da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (Sbem). “Desde a infância, aprendemos a atribuir significados a sinais corporais, como a fome. Em crianças pequenas, que ainda não desenvolveram essa consciência plena, crises de irritabilidade são mais frequentes quando a fome surge. Já em adultos, a capacidade de associar a irritabilidade a um sinal metabólico é uma ferramenta valiosa para a regulação emocional.”
Limitações e próximos passos da pesquisa
Embora os achados sejam promissores, os autores do estudo destacam que as conclusões são baseadas em um desenho observacional com adultos saudáveis. Para validar os resultados em populações mais amplas —como pacientes com obesidade, diabetes ou transtornos alimentares—, são necessários novos estudos com amostras maiores e desenhos experimentais mais robustos. “Esta é uma prova de conceito interessante, mas ainda precisa ser replicada em grupos com condições metabólicas específicas”, ressalta Valerio.
A pesquisadora também enfatiza que, embora a interocepção seja uma habilidade aprendida, ela pode ser aprimorada por meio de práticas como mindfulness e exercícios de atenção plena. “A capacidade de escutar o corpo é como um músculo: quanto mais treinamos, mais precisos nos tornamos em identificar e responder às nossas necessidades.”
Estratégias práticas para driblar o ‘hanger’
Diante dos achados, especialistas sugerem algumas abordagens para minimizar os efeitos da irritabilidade associada à fome:
- Rotina alimentar estruturada: Estabelecer horários regulares para refeições ajuda o corpo a antecipar a chegada de nutrientes, reduzindo picos de fome e irritabilidade.
- Snacks nutritivos: Optar por alimentos ricos em fibras, proteínas e gorduras saudáveis, como nozes, frutas ou iogurte, pode estabilizar os níveis de glicose e prolongar a sensação de saciedade.
- Treinamento interoceptivo: Práticas como yoga, meditação ou até mesmo pausas para checar o próprio estado corporal ao longo do dia podem aumentar a conscientização sobre sinais de fome.
- Hidratação: Às vezes, a sede é confundida com fome. Manter-se hidratado evita confusões entre os sinais do corpo.
- Planejamento emocional: Anotar momentos de irritabilidade e verificar se há relação com a fome pode ajudar a identificar padrões e antecipar crises.
Implicações para saúde mental e bem-estar
A descoberta de que a irritabilidade associada à fome é mediada pela percepção —e não apenas por fatores bioquímicos— abre novas perspectivas para o tratamento de condições como transtorno disfórico pré-menstrual (TDPM) e depressão, nas quais a regulação emocional é central. Segundo Kroemer, “entender como o corpo e a mente interagem pode ser a chave para intervenções mais eficazes em saúde mental”.
Além disso, os achados reforçam a importância de políticas públicas que promovam educação alimentar e emocional, especialmente em ambientes escolares e de trabalho. “Se crianças e adultos aprendem desde cedo a reconhecer e responder adequadamente aos sinais do corpo, podemos reduzir não só a irritabilidade, mas também problemas mais graves, como transtornos alimentares”, conclui Valerio.
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