O nascimento de uma tendência climática no turismo
O conceito de coolcation — combinação das palavras inglesas cool (fresco) e vacation (férias) — emergiu como resposta aos verões brasileiros cada vez mais agressivos, marcados por ondas de calor históricas e índices de umidade que ultrapassam os 80%. Segundo o Instituto Nacional de Meteorologia (INMET), entre 2018 e 2024, as temperaturas médias no Centro-Oeste e Sudeste do país subiram 1,8°C, enquanto registros de sensação térmica superior a 40°C se tornaram recorrentes. Nesse cenário, destinos tradicionalmente visitados no inverno — como a Serra Gaúcha ou a Mantiqueira — passaram a ser enxergados como opções viáveis para todas as estações, inclusive no verão.
A virada de chave foi acelerada pela pandemia. Com viagens internacionais restritas e a busca por experiências ao ar livre, muitos brasileiros redescobriram o potencial de suas próprias montanhas. Plataformas como Booking.com e Airbnb registraram, nos últimos 12 meses, um crescimento de 67% nas buscas por acomodações em cidades com clima temperado, como São Francisco de Paula (RS) e Teresópolis (RJ). Especialistas como a doutora em turismo ambiental Maria Fernanda Lima, da Universidade de São Paulo (USP), destacam que essa migração não é passageira: “Trata-se de uma mudança estrutural no comportamento do consumidor, impulsionada por fatores climáticos, econômicos e até mesmo psicológicos”.
Economia regional e o paradoxo do turismo frio
A valorização dos destinos frios tem gerado um paradoxo econômico: enquanto algumas cidades, como Gramado (RS), já estruturam seus calendários turísticos para abrigar eventos durante todo o ano, outras ainda lutam para se adaptar. Segundo a Confederação Nacional do Comércio (CNC), o turismo serrano movimentou R$ 12,4 bilhões em 2023, um aumento de 38% em relação a 2019. No entanto, a infraestrutura local nem sempre acompanha a demanda. “Muitas pousadas e hotéis não estão preparados para receber hóspedes no verão, quando a capacidade de hospedagem pode cair pela metade devido à sazonalidade mal gerenciada”, alerta o economista turístico Carlos Eduardo Reis, da Fundação Getúlio Vargas (FGV).
O caso de Campos do Jordão (SP) ilustra essa transição. Tradicionalmente associada ao inverno, a cidade viu suas taxas de ocupação em janeiro saltarem de 45% para 78% entre 2020 e 2024. O fenômeno levou a prefeitura a investir R$ 8 milhões em obras de escoamento de água e arborização urbana, visando mitigar o impacto do turismo massivo. “Não adianta apenas vender o frio; precisamos oferecer experiências que justifiquem a escolha do destino em qualquer época”, explica a secretária de Turismo local, Ana Paula Santos.
Impacto ambiental e a responsabilidade das operadoras
A crescente popularidade do coolcation também levanta questões ambientais. Embora destinos serranos sejam naturalmente mais frescos, o aumento do fluxo turístico pode agravar problemas como a erosão do solo e a poluição dos rios. Um estudo da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) identificou que, em Gramado, a emissão de CO₂ por turista aumentou 22% desde 2020, devido ao uso intensivo de veículos e aquecedores residenciais. Para conter esse impacto, operadoras como a CVC e a Decolar passaram a incluir em seus pacotes a compensação de carbono, além de promover roteiros de baixo impacto, como trilhas guiadas e hospedagens em eco-lodges.
“O turismo de massa precisa ser repensado”, afirma o biólogo tropical Ricardo Mendes, coordenador do projeto Destinos Sustentáveis. “A solução não é frear o crescimento, mas sim planejar o desenvolvimento com base em critérios de sustentabilidade. Isso inclui desde a gestão de resíduos até a capacitação de guias locais para atuarem como educadores ambientais”.
Diversificação de experiências e o futuro do setor
A tendência do coolcation não se limita a destinos frios tradicionais. Cidades como Poços de Caldas (MG) e Araxá (MG), conhecidas por suas águas termais, passaram a ser vendidas como “refúgios de temperatura equilibrada”, combinando banhos quentes com passeios em áreas verdes. Já na região Sul, o turismo rural tem ganhado espaço, com fazendas oferecendo atividades como ordenha de vacas e degustação de queijos artesanais em ambientes climatizados naturalmente.
Segundo a Associação de Hotéis e Resorts do Brasil (ABIH), 63% dos empreendimentos serranos já adaptaram seus cardápios para incluir pratos típicos de inverno — como fondue e chocolate quente — mesmo em meses quentes. “Isso não é apenas uma estratégia comercial; é uma forma de criar uma identidade única para esses destinos”, avalia o chef e consultor gastronômico Thiago Oliveira. A diversificação de experiências, aliás, é apontada como a chave para fidelizar turistas que buscam mais do que apenas aliviar o calor: querem imersão cultural e contato com a natureza.
Desafios e oportunidades para 2026
Apesar do otimismo, o setor enfrenta desafios como a sazonalidade mal distribuída e a falta de mão de obra qualificada. “Falta de treinamento para atendentes de pousadas e guias turísticos é um gargalo que precisa ser resolvido urgentemente”, diz a coordenadora do curso de Turismo da Universidade de Caxias do Sul (UCS), professora Clarice Bohn. A profissionalização do setor é vista como essencial para garantir que a alta demanda não se transforme em um problema de qualidade.
Por outro lado, a chegada do coolcation representa uma oportunidade para municípios menores, que antes dependiam exclusivamente do turismo de praia. “Cidades como São José dos Ausentes (RS) e Visconde de Mauá (RJ) estão descobrindo que têm atrativos únicos, como cachoeiras e mirantes com temperaturas até 10°C mais baixas que as capitais”, comenta o diretor da Associação de Municípios Turísticos do Brasil (AMTur), Luiz Fernando Costa. Para 2026, a expectativa é que o mercado de turismo frio cresça pelo menos 20%, com investimentos em infraestrutura e marketing colaborativo entre regiões.
Conclusão: Uma revolução silenciosa no turismo brasileiro
O fenômeno do coolcation é mais do que uma moda passageira: é uma resposta adaptativa a um novo cenário climático e social. Com verões cada vez mais hostis e a busca por experiências autênticas, os brasileiros estão reescrevendo os roteiros de viagem, priorizando destinos que oferecem não apenas beleza cênica, mas também conforto térmico e bem-estar. Para o setor, isso significa repensar estratégias, investir em sustentabilidade e, acima de tudo, ouvir o consumidor — que, agora, tem voz ativa na definição dos destinos do futuro.
“O turismo não é mais apenas sobre sol e praia; é sobre qualidade de vida”, resume a doutora Maria Fernanda Lima. “E, nesse novo paradigma, os destinos frios finalmente encontraram seu lugar ao sol.”




