Contexto histórico e evolução do conflito
O início das tratativas entre a Zeentech e seus funcionários remonta a maio de 2023, quando a categoria protocolou uma pauta de reivindicações com foco em três eixos principais: reajuste salarial acima da inflação, redução da jornada de trabalho sem corte de salário e garantia de estabilidade em um cenário de demissões técnicas. Desde então, a empresa, sediada em Taubaté e integrante do setor metalúrgico, resistiu às negociações extrajudiciais, levando os trabalhadores a buscar mediação judicial no início de 2024.
Detonantes da greve e impasse no TRT
A assembleia desta quarta-feira (13) consolidou a paralisação iniciada na segunda-feira (11), após a oitava rodada de negociações no Tribunal Regional do Trabalho (TRT) de São Paulo não produzir resultados concretos. Segundo o Sindicato dos Metalúrgicos de Taubaté e Região (Sindmetau), a Zeentech manteve posição intransigente quanto ao reajuste salarial, oferecendo 4,5% de aumento — valor inferior ao índice de inflação acumulado no período (IPCA de 6,8% em 2023) e ao reajuste concedido a funcionários de outras empresas do ramo na região. Além disso, a empresa recusou-se a negociar a redução da jornada de 44 para 40 horas semanais, alegando impactos operacionais.
Decisão em assembleia e estratégias do sindicato
Em reunião convocada para as 8h na sede do Sindmetau, cerca de 80% dos 1.200 trabalhadores da unidade de Taubaté compareceram, conforme informou o presidente da entidade, José Carlos Oliveira. A votação, realizada por maioria esmagadora, determinou a manutenção da greve até que a empresa apresente contrapropostas consideradas satisfatórias. Oliveira destacou que, além das reivindicações econômicas, os funcionários exigem a regularização de horas extras não pagas e a implementação de um programa de saúde mental, dado o aumento de casos de estresse e depressão relatados nos últimos meses.
Impactos econômicos e operacionais
A paralisação afeta diretamente a produção de componentes para a indústria automotiva e aeroespacial, setores aos quais a Zeentech fornece peças críticas. Fontes do mercado estimam prejuízos de R$ 5 milhões por dia para a empresa, considerando a interrupção de três linhas de montagem. Já os trabalhadores, que não recebem salário durante a greve, acumulam perdas financeiras significativas, agravadas pelo alto custo de vida na região do Vale do Paraíba. O Sindmetau informou que negociará com o banco Bradesco a liberação de empréstimos emergenciais para os grevistas, mediante parceria com a Caixa Econômica Federal.
Posicionamento da empresa e cenário jurídico
Em comunicado oficial, a Zeentech afirmou que ‘busca sempre o diálogo’ e que a oferta de 4,5% de reajuste está alinhada às ‘condições financeiras do setor’. A empresa, que registrou lucro líquido de R$ 180 milhões em 2023, não detalhou como essa margem justificaria a recusa em negociar a jornada de trabalho. Por outro lado, o TRT deve analisar, em até 15 dias, um pedido de mediação compulsória apresentado pelo sindicato, que inclui a nomeação de um perito para avaliar a saúde financeira da Zeentech e a viabilidade de suas contrapropostas.
Histórico de conflitos trabalhistas na região
Taubaté e seu entorno abrigam um dos maiores polos metalúrgicos do estado de São Paulo, com mais de 30 mil trabalhadores na categoria. Nos últimos cinco anos, o Vale do Paraíba registrou 23 greves em empresas do setor, sendo 12 delas em 2023 — um recorde desde 2018. Especialistas atribuem a escalada dos conflitos à política de contenção de custos adotada por muitas indústrias, em resposta à queda na demanda por veículos e à concorrência com importados. O Sindmetau, por sua vez, tem adotado uma postura mais combativa, com greves de 72 horas e ações de ocupação simbólica em unidades fabris.
Perspectivas e possíveis desdobramentos
Com a greve mantida, a expectativa é de que as negociações sejam retomadas em até dez dias, quando o TRT deve emitir um parecer sobre a mediação compulsória. Caso não haja avanço, o sindicato não descarta a ampliação das paralisações para outras unidades da Zeentech no estado de São Paulo, bem como a adesão a uma greve nacional do setor metalúrgico, prevista para o mês de julho. Enquanto isso, a população de Taubaté começa a sentir os reflexos indiretos da paralisação, com a redução no movimento de shoppings centers e restaurantes próximos à zona industrial da cidade.




