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Guerra no Golfo redesenha mapa da energia e intensifica disputa estratégica entre EUA e China

Jeverson
22/04/2026, 15:53
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Guerra no Golfo redesenha mapa da energia e intensifica disputa estratégica entre EUA e China
Cenário energético no Texas reúne turbinas e poços de petróleo, simbolizando caminhos opostos na corrida global por energia. Foto: Pat Benic/UPI Photo/picture alliance

Conflito no Irã e bloqueio no Estreito de Ormuz aprofundam crise global e expõem modelos opostos de poder energético entre as duas maiores economias do mundo

Crise no Golfo eleva tensão e prolonga instabilidade nos mercados

O atual conflito no Golfo Pérsico, agravado pelo bloqueio do Estreito de Ormuz, desencadeou uma das mais severas perturbações recentes no sistema energético global e ampliou a rivalidade entre Estados Unidos e China pelo controle das bases energéticas do futuro. Nos bastidores da escalada militar, as duas potências intensificam uma disputa que ultrapassa o campo geopolítico imediato e alcança a definição da arquitetura energética mundial nas próximas décadas.

Independentemente do desfecho do confronto, a recomposição dos mercados tende a ser lenta. A Agência Internacional de Energia (AIE) classificou o episódio como a crise mais grave já registrada no setor. Especialistas apontam que a volatilidade dos preços reacende preocupações estruturais sobre a dependência global de combustíveis fósseis, ao mesmo tempo em que pode acelerar investimentos em fontes renováveis.

Estratégias divergentes: fósseis versus eletrificação

No centro dessa disputa estão modelos energéticos distintos. Sob a liderança de Donald Trump, os Estados Unidos reforçam uma política de expansão da produção de petróleo e gás, buscando prolongar a centralidade dos combustíveis fósseis como instrumento de influência internacional.

A China, por sua vez, direciona esforços para consolidar sua posição na transição energética, ampliando investimentos em eletrificação, energias renováveis, armazenamento e mobilidade elétrica.

“Nos Estados Unidos, é clara a agenda de dominância energética, fortemente baseada nos mercados de energia fóssil, que busca usar a riqueza do país em petróleo e gás como instrumento de política externa. Isso chega ao ponto de tentar controlar outros países ricos em recursos, como a Venezuela”, afirmou o especialista em energia Andreas Goldthau.

“Do outro lado, temos a China, que aposta fortemente na descarbonização, no setor de tecnologias limpas e na redução das importações de petróleo e gás. Isso não é apenas uma questão de política climática, mas de segurança econômica”, acrescentou.

China amplia domínio nas cadeias globais de energia limpa

A estratégia chinesa se sustenta em forte expansão industrial e tecnológica. O país consolidou posição de liderança em setores-chave da transição energética, incluindo energia solar, eólica, baterias e hidrogênio verde.

Segundo Goldthau, Pequim avançou de forma deliberada para reduzir vulnerabilidades externas. “A China é hoje a principal investidora em energias renováveis e tecnologias limpas, liderando componentes essenciais para a transição energética”, destacou.

Dados de organismos internacionais indicam que entre 60% e 70% dos veículos elétricos do mundo são produzidos no país. Além disso, a China controla cerca de 80% da cadeia global de suprimentos da energia fotovoltaica, chegando a mais de 95% em segmentos críticos, como wafers de silício.

O domínio também se estende à energia eólica, com cerca de 72% das novas turbinas instaladas globalmente em 2025 sob controle de fabricantes chineses. Empresas como Goldwind e Envision figuram entre as maiores do mundo. No mesmo período, as exportações chinesas de tecnologias verdes cresceram exponencialmente, respondendo por parcela significativa da expansão econômica nacional.

Política americana reforça “dominância energética”

Na direção oposta, Washington intensifica sua política de “dominância energética”, baseada na ampliação da produção interna e no aumento das exportações de petróleo e gás. O slogan “Drill, baby, drill” sintetiza a estratégia defendida pela atual administração.

“Não é segredo que os EUA seguem uma política explícita de dominância energética”, afirmou Henning Gloystein, especialista da consultoria Eurasia Group. “Esse objetivo é alcançado por meio da expansão da produção doméstica e da busca por influência sobre ativos energéticos no exterior.”

A chamada revolução do xisto transformou o país em protagonista global. Em cerca de duas décadas, os Estados Unidos passaram de grandes importadores a líderes na exportação de gás natural e importantes exportadores de petróleo, impulsionados pelo uso combinado de fraturamento hidráulico e perfuração horizontal.

Energia como instrumento geopolítico

A estratégia americana também se manifesta nas relações comerciais. Segundo analistas, Washington tem condicionado acordos tarifários à ampliação da compra de combustíveis fósseis por parceiros estratégicos, como países europeus e asiáticos.

Além disso, diante da crise no Estreito de Ormuz, autoridades americanas sugeriram que nações afetadas recorram ao fornecimento energético dos EUA, frequentemente estruturado em contratos de longo prazo, que podem consolidar dependências por décadas.

Transição energética define disputa de longo prazo

Para Fatih Birol, diretor da AIE, o conceito de segurança energética evoluiu. “Segurança energética no século 21 não significa apenas disponibilidade de petróleo e gás, mas também diversificação das cadeias de suprimento de tecnologias limpas”, afirmou.

Nesse cenário, a vantagem chinesa na produção de tecnologias verdes contrasta com a força americana na oferta de combustíveis fósseis. Enquanto os EUA ampliam sua capacidade de exportação, a China busca consolidar um modelo baseado em eletrificação e autossuficiência tecnológica.

Apesar dos avanços, o desafio permanece significativo para Pequim, onde o carvão ainda responde por parcela relevante do consumo energético. Ainda assim, especialistas apontam que a tendência global favorece a expansão das energias renováveis.

“Se fosse necessário apostar neste momento, eu apostaria no ‘Estado eletrificado’, que combina produção doméstica, fontes renováveis e domínio tecnológico”, concluiu Goldthau.

A disputa, no entanto, permanece em aberto — e será moldada tanto pela evolução do conflito no Golfo quanto pela capacidade de cada potência em transformar estratégia energética em influência global duradoura.

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