Avanço de conteúdos sintéticos nas redes intensifica confrontos políticos e desafia capacidade de resposta da Justiça Eleitoral
Expansão de conteúdos artificiais redefine a disputa
A poucos meses do pleito de 2026, o ambiente digital tornou-se um dos principais palcos da disputa política no país, impulsionado pelo uso crescente de inteligência artificial generativa. Vídeos, imagens e personagens criados digitalmente passaram a ocupar espaço central nas estratégias de comunicação, tanto em iniciativas oficiais quanto em ações paralelas.
Entre os exemplos que circulam nas plataformas, destacam-se produções que simulam figuras públicas em situações fictícias ou utilizam avatares para emitir críticas contundentes. Em um dos casos, uma personagem idosa gerada por IA aparece em vídeos com ataques ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), utilizando linguagem agressiva. Em outro, montagens associam o senador Flávio Bolsonaro (PL) a figuras do setor financeiro em contextos fabricados.
Também entram nesse cenário conteúdos produzidos por pré-candidatos. O governador Romeu Zema (Novo), por exemplo, divulgou peças com representações artificiais de ministros do Supremo Tribunal Federal (STF), enquanto o pré-candidato Augusto Cury (Avante) explorou imagens simbólicas para criticar a polarização política.
Monitoramento aponta baixa transparência
Levantamento conduzido pelo Observatório IA nas Eleições — iniciativa do Aláfia Lab em parceria com a Data Privacy Brasil — identificou 137 conteúdos políticos produzidos com uso de inteligência artificial entre dezembro de 2025 e fevereiro de 2026.
O estudo revela um dado crítico: apenas 27% dessas publicações informaram explicitamente o uso da tecnologia, seja por meio de marca d’água, legenda ou indicação visual. A maioria dos materiais circulou sem qualquer sinalização, inclusive em postagens feitas por agentes políticos.
Segundo Matheus Soares, coordenador de conteúdos do Aláfia Lab, há uma mudança qualitativa nesse tipo de material. “A gente identificou um aumento do volume de conteúdos sintéticos e um uso generalizado pelos políticos e partidos. Além disso, os conteúdos estão muito mais realistas e esteticamente verossímeis”, afirmou.
Regras eleitorais tentam conter avanço
Diante desse cenário, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) estabeleceu, em março, novas diretrizes para o uso de inteligência artificial nas campanhas. Entre as medidas está a proibição da veiculação de conteúdos gerados por IA nas 72 horas que antecedem e nas 24 horas posteriores a cada turno eleitoral.
A Corte também reforçou a obrigatoriedade de identificação clara de conteúdos sintéticos, incluindo a indicação da tecnologia utilizada. Outro ponto central das normas é o veto a perfis falsos, anônimos ou automatizados quando houver risco ao processo eleitoral.
Apesar das regras, especialistas apontam dificuldades operacionais para aplicação das normas, sobretudo diante da linha tênue entre humor, crítica política e desinformação.
Judicialização cresce com casos de deepfake
Nos primeiros meses de 2026, o uso de inteligência artificial já resultou em uma série de disputas judiciais. Partidos e candidatos passaram a recorrer com frequência à Justiça Eleitoral para contestar conteúdos considerados enganosos ou ofensivos.
O PT ingressou com ações no TSE contra vídeos atribuídos a membros do PL, incluindo publicações que retratavam Lula em situações fictícias, com associações negativas. Em outra frente, o partido solicitou a suspensão de um perfil que divulga vídeos de uma personagem idosa gerada por IA, alegando disseminação de desinformação.
Essa página, conhecida como “Dona Maria”, alcançou alto nível de engajamento, acumulando milhões de visualizações. De acordo com reportagem da BBC Brasil, o perfil foi criado por um motorista de aplicativo do Rio de Janeiro, que afirma não possuir vínculo partidário.
Conteúdos inspiram replicações regionais
A produção de materiais sintéticos também tem sido replicada em diferentes estados. A série “Os Intocáveis”, divulgada por Romeu Zema, inspirou conteúdos semelhantes em contextos locais.
Em Pernambuco, um vereador publicou vídeo com estética de animação por IA para satirizar o ex-prefeito João Campos (PSB). Situação semelhante ocorreu em Mato Grosso do Sul, onde postagens utilizaram recursos artificiais para criticar o governador Eduardo Riedel (PP).
Na Bahia, onde a disputa política apresenta forte polarização, redes paralelas de conteúdo operam com uso intensivo de inteligência artificial, frequentemente sem ligação formal com campanhas oficiais. Decisões judiciais recentes determinaram remoção de conteúdos, suspensão de perfis e identificação de administradores anônimos.
Justiça intensifica intervenções
A atuação da Justiça Eleitoral tem se ampliado diante do avanço desses conteúdos. Em decisões recentes, magistrados ordenaram a retirada de páginas e perfis por violação às normas que proíbem anonimato e manipulação de informações no ambiente eleitoral.
Casos semelhantes foram registrados em diferentes estados. Em Alagoas, por exemplo, o Tribunal Regional Eleitoral determinou a suspensão de um perfil que utilizava deepfake para atribuir declarações falsas a adversários políticos.
Desafio central será a velocidade da resposta
Especialistas avaliam que a produção de conteúdos sintéticos tende a crescer de forma acelerada até o período eleitoral. A principal preocupação recai sobre a capacidade de resposta das instituições diante da velocidade de disseminação dessas informações.
Para Carla Rodrigues, da Data Privacy Brasil, o problema central está no descompasso entre produção e controle. “O grande desafio é entender esse compasso entre a velocidade de produção e disseminação de conteúdo sintético. E também verificar se as decisões liminares serão mais rápidas, principalmente quando há dano informacional em um período curto de dois meses, que é o período eleitoral”, afirmou.
Nesse contexto, a eleição de 2026 se desenha não apenas como uma disputa política tradicional, mas como um teste institucional diante das transformações tecnológicas que redefinem os limites entre realidade, manipulação e liberdade de expressão.
Continue Lendo

Shakira adia show em Copacabana após mal-estar de seu pai, William Mebarak, de 94 anos

Influenciadora Bianca Biancardi revela gravidez e emociona família; Neymar e irmã Bruna reagem com surpresa e alegria

Roberto Justus comemora 71 anos em reunião familiar: registro raro mostra empresário com todos os cinco filhos
O que você achou desta notícia?
Sua avaliação ajuda nossa redação a entregar o melhor conteúdo.

