Contexto: Tensão nuclear e busca por legitimidade internacional
O anúncio do embaixador iraniano Abdolreza Rahman Fazli, publicado no domingo (10), insere-se em um cenário de décadas de negociações tensas entre Teerã e Washington, marcado por sanções internacionais, ataques cibernéticos e sabotagens seletivas — como o assassinato do cientista nuclear Mohsen Fakhrizadeh em 2020. Embora o Plano de Ação Integral Conjunto (JCPOA), assinado em 2015 durante o governo Obama, tenha oferecido um breve período de alívio, a retirada unilateral dos EUA em 2018 sob Donald Trump reacendeu a crise. Desde então, o Irã expandiu seu programa nuclear além dos limites do acordo, enquanto a China emergiu como um ator-chave na região, não apenas como maior importador de petróleo iraniano, mas também como mediadora em disputas regionais.
Proposta iraniana: legitimidade via Conselho de Segurança da ONU
A sugestão de Fazli de que qualquer acordo potencial seja chancelado pelo Conselho de Segurança da ONU não é casual. Historicamente, tratados multilaterais — como o JCPOA — dependem de aprovações formais para evitar retaliações unilaterais. A menção à China como garantidora, entretanto, sinaliza uma estratégia de diversificação de aliados: enquanto a Rússia mantém assento permanente no Conselho de Segurança, Pequim oferece uma via alternativa, menos polarizada com Washington. A proposta também reflete a crescente influência chinesa no Golfo Pérsico, onde Pequim mantém acordos de cooperação estratégica com Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos.
Antecedentes diplomáticos: o papel do Paquistão e da Rússia
Em abril deste ano, o ministro das Relações Exteriores do Paquistão, Ishaq Dar, visitou Pequim em uma missão não divulgada oficialmente, mas com fortes indícios de discussões sobre mediação. Fontes da CNN relataram que Dar teria explorado o papel da China como garantidora em um eventual acordo EUA-Irã, aproveitando a posição paquistanesa como membro não permanente do Conselho de Segurança da ONU (2021-2022) e sua histórica relação com ambas as nações. Paralelamente, Moscou já havia sido sondada em 2021 para atuar como fiadora em negociações indiretas, mas a proposta iraniana atual prioriza a China, possivelmente devido à sua capacidade econômica de impor sanções alternativas em caso de descumprimento.
China como fiadora: interesses estratégicos em jogo
A China, maior parceiro comercial do Irã, tem interesses diretos na estabilidade da região. Em 2021, Pequim e Teerã assinaram um acordo de cooperação de 25 anos, avaliado em US$ 400 bilhões, que inclui investimentos em energia, infraestrutura e tecnologia. Além disso, a China busca consolidar sua presença no Oriente Médio como contraponto à influência dos EUA, especialmente após a normalização das relações entre Riad e Washington. Um acordo EUA-Irã mediado pela China poderia, portanto, alinhar-se aos objetivos de Pequim de reduzir a dependência do dólar em transações comerciais e fortalecer o uso do yuan em acordos regionais.
Desafios: desconfiança mútua e riscos geopolíticos
Apesar do otimismo expresso pelo Irã, especialistas alertam para obstáculos significativos. A desconfiança entre Washington e Teerã persiste, especialmente após anos de retórica belicosa e ações militares pontuais, como o ataque a instalações nucleares iranianas atribuído a Israel. Além disso, a proposta de submeter o acordo ao Conselho de Segurança da ONU exige consenso entre os cinco membros permanentes — EUA, Rússia, China, França e Reino Unido — o que pode ser vetado por qualquer um deles. A China, embora interessada, pode hesitar em assumir um papel de garantidora formal, dado o risco de alienar aliados como Israel ou os EUA.
Perspectivas: o que esperar nos próximos meses
A próxima rodada de negociações EUA-Irã, prevista para junho em Viena, será um teste crucial para a viabilidade da proposta iraniana. Se a China efetivamente se dispuser a atuar como fiadora, poderá pressionar por concessões de ambas as partes, especialmente no que tange ao programa nuclear iraniano e às sanções econômicas. Paralelamente, a Rússia, que também mantém assento no Conselho de Segurança, pode buscar um papel complementar, criando um cenário de mediação conjunta. Para o Irã, a estratégia de envolver múltiplas potências almeja não apenas um acordo, mas uma garantia de longo prazo contra ações unilaterais — um objetivo que, se concretizado, poderia redefinir o equilíbrio de poder no Golfo Pérsico.
Conclusão: uma jogada de xadrez com múltiplos tabuleiros
A proposta iraniana de envolver a China como garantidora de um acordo com os EUA representa uma manobra diplomática sofisticada, que transcende a mera busca por segurança nuclear. Trata-se de uma estratégia para inserir Pequim no tabuleiro geopolítico do Oriente Médio, reduzir a dependência de aliados históricos como a Rússia e, acima de tudo, conferir legitimidade internacional a um pacto que há anos enfrenta resistência nos EUA. Se bem-sucedida, a iniciativa poderia pavimentar o caminho para uma nova era de cooperação multilateral — ou, se malograr, aprofundar ainda mais as divisões entre as grandes potências e os países da região.




