Novo presidente da Corte Eleitoral inicia gestão cercado por expectativas de neutralidade, desconfiança bolsonarista e articulações com o Palácio do Planalto
O ministro Kassio Nunes Marques assume nesta terça-feira (12) a presidência do Tribunal Superior Eleitoral em um cenário marcado por forte tensão política, articulações de bastidores e expectativa sobre a condução das eleições presidenciais de 2026. Embora tenha sido indicado ao Supremo Tribunal Federal pelo ex-presidente Jair Bolsonaro, o magistrado chega ao comando da Justiça Eleitoral sob desconfiança de setores do PL, diante de recentes movimentos de aproximação com o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
Nos bastidores, dirigentes da legenda bolsonarista reconhecem o perfil conservador do ministro, mas avaliam que sua postura conciliadora pode limitar decisões alinhadas aos interesses da direita durante o processo eleitoral. Ainda assim, aliados do ex-presidente consideram que a relação entre o campo conservador e o TSE tende a ser menos conflituosa do que durante as gestões de Cármen Lúcia e Alexandre de Moraes.
Aproximação com o governo acendeu alerta no PL
Integrantes da oposição observam com cautela os recentes gestos de Kassio em direção ao Palácio do Planalto. Um dos episódios mais comentados foi o apoio do ministro ao nome do advogado-geral da União, Jorge Messias, para uma vaga aberta no STF — indicação que acabou barrada no Senado.
Além disso, interlocutores políticos destacam episódios que demonstraram uma relação mais próxima entre o magistrado e o governo federal. Em 2024, a Caixa Econômica Federal contratou como assessora a economista Maria Socorro Mendonça Carvalho Marques, ex-esposa do ministro. Já no ano passado, Lula indicou ao Superior Tribunal de Justiça o desembargador Carlos Pires Brandão, nome apoiado diretamente por Kassio.
Segundo relatos de aliados do presidente, Lula participará da cerimônia de posse do novo presidente do TSE como gesto político de aproximação institucional e tentativa de reduzir tensões entre o PT e a Corte Eleitoral às vésperas do próximo ciclo eleitoral.
Defesa das urnas eletrônicas distancia ministro do bolsonarismo radical
Outro fator que gerou desconforto entre aliados de Bolsonaro foi o posicionamento de Kassio em defesa das urnas eletrônicas e do combate à desinformação eleitoral. Embora tenha votado anteriormente pela absolvição do ex-presidente em ações envolvendo ataques ao sistema eleitoral, o ministro tem afirmado reservadamente que a proteção da credibilidade do processo eletrônico de votação será prioridade institucional durante sua gestão.
O tema permanece sensível para o bolsonarismo, especialmente após Bolsonaro ter sido declarado inelegível por decisões relacionadas aos ataques à confiabilidade das urnas e aos desdobramentos da investigação sobre a tentativa de ruptura institucional.
Kassio também tem manifestado preocupação com o avanço das ferramentas de inteligência artificial e seu potencial de disseminação de conteúdos falsos durante a campanha eleitoral de 2026.
Gestão promete menor interferência da Justiça Eleitoral
Em conversas com interlocutores políticos, o novo presidente do TSE indicou que pretende adotar uma postura menos intervencionista do que a observada nas últimas eleições presidenciais. A ideia, segundo relatos, é evitar que a Justiça Eleitoral ocupe o centro da disputa política.
O ministro defende que candidatos e eleitores sejam os protagonistas do processo eleitoral, reduzindo o protagonismo institucional do tribunal em conflitos entre campanhas.
Dentro dessa estratégia, Kassio sinalizou que pretende utilizar com mais cautela o chamado “poder de polícia” da Corte — mecanismo que permite ao presidente do TSE determinar medidas como retirada de propagandas irregulares, suspensão de conteúdos e bloqueio de impulsionamentos sem necessidade de decisão judicial prévia.
A ferramenta foi amplamente utilizada na gestão de Alexandre de Moraes durante as eleições de 2022, especialmente no enfrentamento à desinformação e ataques ao sistema eleitoral.
Nova composição do TSE reúne indicados de Lula, Bolsonaro e Dilma
A nova composição do Tribunal Superior Eleitoral reflete diferentes ciclos políticos recentes e reúne magistrados indicados por governos de distintas correntes ideológicas.
Composição do TSE
- Kassio Nunes Marques — indicado ao STF por Jair Bolsonaro
- André Mendonça — indicado ao STF por Jair Bolsonaro
- Dias Toffoli — indicado ao STF por Lula
- Antonio Carlos Ferreira — indicado ao STJ por Dilma Rousseff
- Ricardo Villas Bôas Cueva — indicado ao STJ por Dilma Rousseff
- Floriano Peixoto de Azevedo Marques Neto — nomeado por Lula
- Estela Aranha — nomeada por Lula




