Encontro entre os presidentes ocorre em meio a tensões eleitorais, disputas comerciais e negociações estratégicas envolvendo segurança, minerais críticos e tecnologia
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva terá, na próxima quinta-feira (7), um dos encontros diplomáticos mais delicados de seu atual mandato ao se reunir, em Washington, com o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. Diferentemente da recepção protocolar e simbólica oferecida por Joe Biden em 2023, a expectativa agora é de uma reunião pragmática, sem solenidades e marcada por interesses divergentes entre os dois governos.
Há três anos, quando Lula esteve na Casa Branca durante a gestão democrata, o encontro foi tratado como um gesto de reinserção do Brasil no cenário internacional, com discursos convergentes sobre democracia, preservação ambiental e cooperação multilateral. Desta vez, porém, o objetivo central é mais restrito: reduzir desgastes e reconstruir pontes diplomáticas entre Brasília e Washington.
Apesar de recentes sinais de distensão por parte de Trump — após meses de tensão alimentada por aliados do bolsonarismo nos EUA —, os temas que estarão sobre a mesa permanecem sensíveis e estratégicos para ambos os países.
Segurança pública, tarifas e tecnologia devem dominar a pauta
Entre os assuntos previstos para o encontro estão disputas comerciais, barreiras tarifárias, acesso americano às reservas brasileiras de minerais críticos e cooperação no combate ao crime organizado transnacional.
Em entrevista à Globonews nesta terça-feira (5), o vice-presidente Geraldo Alckmin confirmou que a conversa também envolverá debates sobre o sistema brasileiro de pagamentos instantâneos, o Pix, além de temas ligados à atuação das big techs e ao setor de data centers.
“Lula tem colocado que não tem tema proibido. Vamos conversar. Big techs, terras raras, data centers, política tarifária”, afirmou Alckmin. Segundo ele, o governo brasileiro pretende reforçar junto aos americanos a ideia de que o Brasil “não é uma ameaça aos EUA”.
Viagem ocorre sob impacto do cenário eleitoral brasileiro
Nos bastidores do Palácio do Planalto, a avaliação é de que a visita precisa transcorrer sem atritos públicos, sobretudo diante do ambiente pré-eleitoral brasileiro. A oficialização tardia da agenda foi interpretada por analistas como um indicativo de cautela do governo brasileiro diante da possibilidade de mudanças de última hora.
No início do ano, Lula chegou a anunciar uma viagem aos Estados Unidos prevista para março, posteriormente cancelada em razão do agravamento da guerra envolvendo o Irã.
O contexto político interno também amplia a sensibilidade do encontro. A aproximação de Trump com setores ligados ao bolsonarismo preocupa integrantes do governo federal, especialmente diante das movimentações internacionais do senador Flávio Bolsonaro e do deputado federal Eduardo Bolsonaro.
Eduardo criticou a visita presidencial nas redes sociais. “E a narrativa de Lula defender a soberania nacional? A verdade é que Lula, malandro que é, fez um discurso para a militância e outro para as elites. Entre um e outro existe um abismo!”, escreveu no X.
Já Alckmin adotou tom conciliador ao comentar a expectativa para a reunião. “Eu torço para que essa boa química que ocorreu entre o presidente Lula e o presidente Trump possa fortalecer ainda mais a relação em benefício dos dois grandes países, duas grandes democracias do Ocidente”, declarou.
Planalto tenta reduzir desgaste após derrotas políticas
A visita aos Estados Unidos também ocorre em um momento politicamente delicado para o governo brasileiro. Nos últimos dias, o Palácio do Planalto acumulou derrotas importantes no Congresso e no Judiciário, incluindo a rejeição do nome de Jorge Messias para o Supremo Tribunal Federal e a derrubada do veto presidencial relacionado ao projeto que reduz penas de condenados pelos atos de 8 de janeiro.
Para o professor de Relações Internacionais Roberto Uebel, da ESPM e da UniCesumar, a agenda internacional pode funcionar como instrumento de reposicionamento político para Lula.
“A visita do presidente Lula a Washington vai tirar certamente o foco destas derrotas políticas que vão influenciar o cenário eleitoral aqui no Brasil”, afirmou.
Segundo o especialista, o governo brasileiro busca demonstrar alinhamento institucional com Washington e, ao mesmo tempo, reduzir a influência do bolsonarismo sobre Trump. “Pelo menos no âmbito de política externa, desvia o foco das derrotas políticas da semana passada e seria um certo respaldo do governo Trump para o processo eleitoral aqui no Brasil”, avaliou.
Pressão americana sobre facções preocupa Brasília
Embora o discurso diplomático tenha ganhado contornos mais moderados nos últimos meses, episódios recentes continuam gerando desconforto entre os dois governos.
Em abril, os Estados Unidos expulsaram um delegado da Polícia Federal brasileira ligado à prisão do deputado federal Alexandre Ramagem, sob acusação de desrespeito a procedimentos formais de extradição. Em resposta, o Brasil revogou as credenciais de um agente americano que atuava em território nacional.
Outro tema sensível será a insistência da Casa Branca para que facções brasileiras, como o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV), sejam classificadas pelos EUA como organizações terroristas.
A medida ampliaria o alcance jurídico das investigações americanas sobre atividades criminosas ligadas ao Brasil e permitiria operações mais agressivas de cooperação internacional. O governo brasileiro, porém, resiste à proposta por considerar que há mecanismos mais adequados para enfrentar o crime organizado sem abrir espaço para possíveis intervenções externas.
“Em relação ao crime organizado, o presidente vai levar novamente ao presidente Trump um acordo para o combate a organizações criminosas transnacionais. Nós podemos fazer muita parceria nessa área, controle de fluxo financeiro, investigação”, declarou Alckmin.
Minerais estratégicos se tornam peça central da negociação
As reservas brasileiras de minerais críticos — especialmente cobre, níquel, nióbio e lítio — devem ocupar posição central na conversa entre os presidentes.
Desde o início dos atritos diplomáticos com o governo Lula, Trump vem demonstrando interesse crescente nas chamadas “terras raras”, consideradas estratégicas para a indústria tecnológica e para a disputa geopolítica global com a China.
Nos bastidores, integrantes do governo americano enxergam o acesso a esses recursos como questão de segurança nacional. Em negociações anteriores, o tema chegou a ser citado como possível contrapartida para flexibilização de tarifas comerciais impostas aos produtos brasileiros.
Em abril, uma empresa americana firmou um acordo bilionário para aquisição de uma mina de minerais críticos em Goiás, movimento interpretado por setores do governo brasileiro como tentativa de ampliar influência econômica sem interlocução direta com Brasília.
Na mesma época, Lula esteve na Alemanha e firmou acordos ligados à exploração mineral, defendendo abertura comercial sem preferência exclusiva a parceiros estratégicos — posição que contraria os interesses americanos.
Para Roberto Uebel, os minerais críticos representam atualmente o principal ativo brasileiro na relação bilateral. “Eu vejo este como talvez o único elemento de barganha possível que o Brasil pode apresentar à mesa, até porque o Brasil não quer depender única e exclusivamente da China”, afirmou.
“Se oferece essa possibilidade de os Estados Unidos explorarem terras raras e minerais críticos aqui com mão de obra brasileira, com transferência de tecnologia e em troca os Estados Unidos tirariam tarifas e criariam uma relação estratégica com o governo brasileiro”, completou.
Temas antes prioritários perdem espaço
Assuntos que dominaram encontros anteriores entre Lula e Trump passaram a ocupar posição secundária na agenda bilateral. Entre eles estão os embates envolvendo a regulação das big techs no Brasil e a abertura do mercado brasileiro de etanol aos produtores americanos.
Já temas ligados à crise venezuelana, antes recorrentes nas conversas diplomáticas entre os dois países, perderam intensidade e são considerados excessivamente delicados para serem aprofundados em pleno ambiente eleitoral.
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