Contexto histórico: a pandemia que mudou o Brasil
O Brasil registrou sua primeira morte por Covid-19 em 12 de março de 2020, quando o paciente era um homem de 62 anos residente em São Paulo. Na ocasião, o país ainda não havia implementado medidas restritivas significativas, enquanto outras nações, como Itália e Espanha, já vivenciavam lockdowns. No entanto, o governo federal, à época liderado pelo então presidente Jair Bolsonaro (PL), minimizou os riscos da doença, promovendo aglomerações, questionando a eficácia de máscaras e incentivando o uso de medicamentos sem comprovação científica, como a cloroquina. O resultado foi um dos piores índices globais de mortalidade: mais de 700 mil brasileiros perderam a vida para o vírus até dezembro de 2022, segundo dados do Ministério da Saúde.
Sanção presidencial e a simbolização da data
Na manhã desta segunda-feira (11.mai.2026), o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) sancionou o Projeto de Lei 2.120/2022, que institui o Dia Nacional em Memória das Vítimas da Covid-19. A escolha da data — 12 de março — não é aleatória: remete ao marco simbólico do início da crise sanitária no Brasil. Durante a cerimônia no Palácio do Planalto, Lula destacou a importância de manter viva a memória das vítimas e de avaliar os erros cometidos para evitar repetição de cenários semelhantes.
A lei foi proposta originalmente pelo deputado Pedro Uczai (PT-SC), líder do PT na Câmara, e relatada pelo senador Humberto Costa (PT-PE). Após aprovação unânime no Senado em 15 de abril de 2026, o texto seguiu para sanção presidencial, consolidando-se como uma das principais iniciativas legislativas voltadas para o resgate da história recente do país.
Discurso do ministro da Saúde: ciência versus negacionismo
O ministro da Saúde, Alexandre Padilha, participou do evento e proferiu duras críticas ao governo anterior, afirmando que “as mais de 700 mil mortes não teriam ocorrido se, à época, estivesse na Presidência da República um presidente que defendesse a vida e a ciência”. Padilha, que também atuou como ministro durante o governo Dilma Rousseff, reforçou a necessidade de políticas públicas baseadas em evidências, em contraste com a postura negacionista adotada entre 2020 e 2022.
“Este dia não é apenas para lamentar, mas para refletir sobre o que fizemos e o que deixamos de fazer”, declarou Padilha, que também mencionou a importância de preparar o sistema de saúde para futuras pandemias. Segundo ele, o Brasil precisa investir em vigilância epidemiológica, pesquisa científica e coordenação federativa para evitar novos colapsos hospitalares.
Depoimentos emocionais: perda e resistência
A primeira-dama, Janja da Silva, emocionou-se ao recordar a perda de sua mãe, Vani Terezinha Ferreira, vítima da Covid-19. Janja afirmou estar “preparada” para perder a mãe para o Alzheimer, mas não para que a doença a “arrancasse” de forma tão abrupta. “A Covid-19 não escolheu idade, classe social ou região. Ela veio como um furacão e levou pessoas que amávamos”, declarou.
O deputado Pedro Uczai, autor do projeto, também se pronunciou durante a cerimônia, definindo a data como “um anúncio de novos tempos”. “Que 12 de março seja uma denúncia, mas também um compromisso: de preservar a vida e de nunca mais vivermos o que vivemos”, afirmou. Uczai destacou ainda que a lei é um passo para garantir que as vítimas da pandemia não sejam esquecidas e que as políticas de saúde sejam revisadas com rigor.
Críticas ao governo Bolsonaro e ao caso Ypê
Durante seu discurso, Janja da Silva também rebateu acusações infundadas de apoiadores de Bolsonaro, que alegam perseguição ao grupo empresarial Ypê em razão de supostas irregularidades sanitárias. Sem apresentar provas, esses grupos disseminaram a falsa narrativa de que o governo estaria “perseguindo” os controladores da empresa.
“Até quando vamos ver gente bebendo detergente contaminado? É muita ignorância”, afirmou Janja, em referência a um episódio ocorrido em 2021, quando o então ministro da Saúde, Eduardo Pazuello, participou de um evento público ao lado de um frasco de detergente, sugerindo equivocadamente que o produto poderia prevenir a Covid-19. A fala da primeira-dama reforçou o compromisso do atual governo com a promoção da ciência e o combate à desinformação.
Impacto da lei e desdobramentos futuros
A instituição do Dia Nacional em Memória das Vítimas da Covid-19 abre espaço para uma série de iniciativas, como debates públicos, seminários e homenagens às vítimas. Além disso, o governo federal anunciou que utilizará a data para promover campanhas de conscientização sobre a importância da vacinação e das medidas de prevenção a doenças infecciosas.
Especialistas em saúde pública, como a epidemiologista Denise Garrett, avaliam que a medida é fundamental para o resgate da memória coletiva e para evitar que erros do passado se repitam. “Precisamos aprender com essa tragédia. A saúde não pode ser tratada como moeda política”, declarou Garrett.
Com a sanção da lei, o Brasil se junta a outros países que já estabeleceram datas similares, como os Estados Unidos (que celebram o “National COVID-19 Victims Remembrance Day” em março) e a Itália, que homenageia suas vítimas em 21 de novembro. A iniciativa reforça a necessidade de políticas públicas robustas e baseadas em ciência para enfrentar crises sanitárias futuras.




