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Morre Francisco Lopes, arquiteto da estabilização monetária brasileira e criador do Copom

Redação
8 de maio de 2026 às 15:05
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Morre Francisco Lopes, arquiteto da estabilização monetária brasileira e criador do Copom

Foto: PODER360

Trajetória profissional e legado econômico

O economista Francisco Lopes, conhecido como Chico Lopes, faleceu nesta sexta-feira (8/5/2026), aos 80 anos, no Rio de Janeiro. Sua morte foi confirmada pelo Banco Central do Brasil (BC), instituição da qual ocupou cargos-chave entre 1995 e 1999, incluindo a presidência interina. Formado pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), com mestrado pela Fundação Getulio Vargas (FGV) e doutorado pela Universidade Harvard, Lopes deixou um legado indelével na formulação da política monetária brasileira, especialmente durante o período de hiperinflação nos anos 1980 e 1990.

A hiperinflação e a gênese do Copom

No cenário de inflação galopante que assolava o Brasil, Lopes emergiu como uma das figuras centrais na concepção de mecanismos para estabilizar a economia. Sua principal contribuição ao Banco Central foi a criação e institucionalização do Comitê de Política Monetária (Copom) em 1996, um órgão colegiado responsável por definir a taxa básica de juros (Selic) do país. O Copom tornou-se, desde então, um pilar da governança monetária brasileira, garantindo transparência e previsibilidade nas decisões de política econômica. Em nota oficial, o BC destacou que Lopes dedicou “décadas de sua vida intelectual ao enfrentamento do maior desafio macroeconômico de seu tempo: a inflação crônica brasileira dos anos 1980 e 1990”.

Contribuições ao Plano Real e à estabilização monetária

Antes de sua atuação no BC, Lopes participou ativamente dos debates que antecederam o Plano Real (1994), coordenado por seu colega e amigo Gustavo Franco. Sua expertise em teoria monetária e política cambial foi crucial para a transição do regime de indexação inflacionária para um sistema de moeda estável. Economistas contemporâneos, como o professor Edmar Bacha, enfatizam que Lopes representou a corrente teórica que defendia a ancoragem cambial como estratégia de combate à inflação, em contraste com abordagens alternativas da época. “Sua visão técnica e pragmática foi determinante para a implementação de políticas que, embora controversas, pavimentaram o caminho para a estabilidade macroeconômica”, afirmou Bacha.

Trajetória acadêmica e influência internacional

Formado em Economia pela UFRJ em 1968, Lopes realizou seu mestrado na FGV (1971) e doutorou-se em Harvard em 1974, sob orientação de economistas do porte de Richard Musgrave. Sua formação internacional, aliada ao conhecimento profundo das idiossincrasias da economia brasileira, permitiu que transitasse com autoridade entre o meio acadêmico e a formulação de políticas públicas. Além do BC, atuou como consultor do Fundo Monetário Internacional (FMI) e do Banco Mundial, colaborando em projetos de estabilização em países em desenvolvimento. Nos anos 1980, integrou a equipe do então ministro da Fazenda, Dílson Funaro, no governo Sarney, onde contribuiu para os primeiros esboços de reformas monetárias.

Reações e homenagens no meio econômico

O anúncio de sua morte gerou repercussão imediata entre economistas e ex-colegas de trabalho. O atual presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, declarou que Lopes foi “um dos grandes construtores da política monetária brasileira moderna”. O economista Persio Arida, outro nome histórico no combate à inflação, destacou que Lopes representava “a fusão perfeita entre teoria e prática, sem a qual o Brasil não teria superado a crise dos anos 1990”. A Fundação Getulio Vargas, onde lecionou, anunciou que realizará um seminário em sua homenagem nos próximos meses, revisitando suas contribuições teóricas.

Causa da morte e repercussão familiar

A causa do óbito não foi divulgada pelo Banco Central, mas fontes próximas à família confirmaram que Lopes vinha tratando de problemas de saúde nos últimos anos. Casado com a economista Maria da Conceição Tavares, uma das maiores referências em economia brasileira, e pai de três filhos — entre eles o também economista e professor da PUC-Rio, Francisco Lopes Jr. —, o legado de Chico Lopes transcende os domínios acadêmicos e políticos. “Ele foi um mestre para várias gerações de economistas brasileiros, sempre exigente, mas generoso em compartilhar seu conhecimento”, relatou um ex-aluno que preferiu não ser identificado.

Impacto duradouro na política monetária brasileira

O Copom, criado sob sua liderança, tornou-se um modelo de governança monetária, inspirando outras instituições pelo mundo. Sua estrutura colegiada e a transparência nas decisões de juros foram fundamentais para ancorar as expectativas inflacionárias e reduzir a incerteza econômica. Economistas como Affonso Celso Pastore, ex-presidente do Banco Central, argumentam que “sem o Copom e a estabilidade proporcionada por Lopes e sua equipe, o Brasil não teria condições de implementar reformas estruturais nos anos 1990 e 2000”.

Considerações finais: um marco na história econômica brasileira

Francisco Lopes encerra uma trajetória que se confunde com a própria história da estabilização monetária no Brasil. Seu nome estará para sempre associado à superação da hiperinflação e à construção de uma política monetária baseada em regras claras e instituições sólidas. Em um país onde a memória econômica muitas vezes é seletiva, o legado de Lopes serve como lembrete da importância da técnica, da ética e do compromisso com o desenvolvimento nacional. O Banco Central, em seu comunicado oficial, resumiu com precisão: “Sua obra está gravada nos alicerces da estabilidade que hoje desfrutamos”.

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