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O Mandiocal e o Fusquinha – Por Wilton Emiliano Pinto

Jeverson
30 de maio de 2026 às 12:30
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O Mandiocal e o Fusquinha – Por Wilton Emiliano Pinto
Divulgação / ClickNews

Há certas lembranças que não chegam fazendo barulho.
Elas vêm devagar, como o entardecer no campo, quando a luz vai se despedindo sem pressa, mas deixando tudo dourado por um instante.

Quando penso em meu pai, é assim que ele me aparece.
Não como um retrato rígido do passado, mas como uma presença mansa, dessas que a gente sente mais do que vê.

Homem de luta.
De uma geração que quase não tinha espaço para escolhas. Fazia-se o que era preciso, não o que se queria.

Trabalhou no que apareceu, como tantos outros e, em certo tempo, entre idas e vindas da vida, vendeu bilhetes de loteria, anotou apostas, lidou com esse curioso comércio de sonhos que é o jogo.

Não era ilusão desmedida.
Era sobrevivência com um toque de esperança.

Lembro bem.
Aos 70 anos, veio a aposentadoria compulsória. Naquele tempo era assim.

A vida inteira de trabalho cabia dentro de um número, e, ao atingir esse limite, encerrava-se um ciclo por decreto.

Mas quem viveu trabalhando não se aposenta por dentro. O corpo até desacelera, mas a alma continua procurando ocupação.

Foi então que ele se reinventou, à sua maneira.
Tornou-se cambista, vendedor de bilhetes de loteria.

E a sorte, essa visitante imprevisível, um dia resolveu parar à sua porta.
Ganhou no chamado jogo do bicho.

Não recordo o valor exato, mas recordo perfeitamente o destino daquele dinheiro: um fusquinha usado.
Ah, aquele carro…

Não era apenas um meio de transporte.

Era conquista.

Era a prova concreta de que, às vezes, a vida também sorri para quem já se acostumou a enfrentar dias difíceis.

Foi com esse carro que ele, saindo de sua casa próxima à Matriz de Campinas, seguia até o Setor Garavelo.

Ali possuía um lote onde, com esmero, cuidava de um mandiocal.

Estava bonito. Bem cuidado. Daqueles que enchem os olhos de quem planta e acompanha, dia após dia, o crescimento silencioso da plantação.

Mas a vida, às vezes, também sabe ser silenciosamente cruel.
Quase no tempo da colheita, encontrou tudo no chão. Tinham colhido antes dele.

Nunca esqueci aquele episódio.
Não apenas pela perda material, mas pela expressão resignada de quem já aprendera, havia muito tempo, que nem sempre o esforço garante a recompensa.

Depois disso, vendeu o lote e foi encerrando, aos poucos, seu ritmo de trabalho braçal.

O carro permaneceu.

E aquele fusquinha parecia representar mais do que um prêmio.

Era uma pequena vitória pessoal sobre tantas dificuldades enfrentadas ao longo da vida.

Um prêmio simples, é verdade, mas suficiente para lhe dar o gosto íntimo de ter, enfim, sido alcançado pela sorte.

Foi o último carro que teve.
E, curiosamente, não ficou na memória como um prêmio de jogo, mas como um símbolo de dignidade.

Como quem diz, em silêncio:

não foi fácil, mas valeu a pena.

Anos antes, em 1965, eu já trabalhava na cooperativa do DERGO.
Ali também vi como essa chama da esperança habitava outros corações.

Havia um homem, Major Eliseu, assim o chamávamos, que jogava todos os dias.

Religiosamente.

Como se aquilo fosse mais do que um hábito, fosse um ritual íntimo com o destino.

Até que um dia acertou a milhar.
Se a memória ainda me serve bem, era o número 1242.

Lembro da movimentação, dos comentários, daquela agitação que percorre um ambiente quando alguém é escolhido pela sorte.

Por alguns instantes, parecia que todos nós estávamos mais próximos de ganhar também.

Mas o tempo, esse velho mestre, me ensinou que não era exatamente sobre ganhar.
Nem para ele.
Nem para meu pai.
Nem para mim.

Hoje, aos 81 anos, olho para trás com mais calma.
E percebo que esses jogos nunca foram apenas jogos.

Eram formas simples de conversar com a vida.
Pequenas tentativas de diálogo com o invisível.

Gestos silenciosos de quem, mesmo conhecendo as durezas do mundo, ainda guardava um pequeno espaço para o improvável.

Talvez seja por isso que, pensando no meu pai e no Major Eliseu, eu ainda continue, despretensiosamente, fazendo minha fezinha, principalmente naqueles sorteios que prometem muito e fazem os olhos do povo brilharem um pouco mais.

Não é por ambição.
É por algo que aprendi com eles, sem que nunca tivessem me ensinado diretamente.
A vontade de ajudar o outro também mora aí.

Quem sabe, um dia, o acaso resolva parar por aqui também.
Quem sabe ele chegue até mim, como chegou para meu pai e para o Major Eliseu.

Mas, se não chegar, está tudo bem.
Porque meu pai nunca foi homem de ilusões. Mas também nunca deixou de acreditar que a vida podia, vez ou outra, surpreender.

E surpreendeu.

Não apenas no prêmio que lhe deu um fusquinha, mas na maneira como viveu.
Com firmeza.
Com simplicidade.
Com uma fé discreta, dessas que não se anunciam, mas sustentam uma existência inteira.

Hoje, quando vejo alguém dizer que jogar é perda de tempo, eu compreendo.
Mas também sei que há algo ali que vai além do dinheiro.

Uma aposta pequena, quando leve, não é um erro.
É quase um gesto de esperança.

Eu, modestamente, jogo sim.
Mas não jogo para fugir da vida.

Jogo apenas para, de vez em quando, dar um pequeno toque de sonho aos meus dias e, quem sabe, aos dias de outros também.

Porque, no fundo, cada número escolhido carrega mais do que uma chance.
Carrega lembranças.

E entre um jogo e outro, o que permanece não é o prêmio que veio ou deixou de vir.
É a figura do meu pai.
Inteira. Viva.

Como se ainda estivesse ali, entre números rabiscados e sonhos modestos, conduzindo a vida com a mesma dignidade de sempre.

E então compreendo, com uma certa paz:

A verdadeira sorte nunca esteve nos números sorteados.
Esteve, e sempre estará, nas histórias que eles ajudaram a construir.

Parte inferior do formulário

 Entre sonhos e realidade, Wilton escreve para lembrar que a verdadeira sorte mora dentro de nós.

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