O pacto entre o crime organizado brasileiro e a máfia italiana
Um acordo estratégico entre o Primeiro Comando da Capital (PCC) e a ‘Ndrangheta, a poderosa máfia calabresa, possibilitou que a facção brasileira financiasse até 50% da cocaína enviada à Europa por meio de uma rede logística de alto nível. As revelações surgiram em depoimento de Vincenzo Pasquino, ex-membro do grupo de Turim, durante processo de delação premiada. Preso em 2021 em João Pessoa (PB) e extraditado para a Itália em março de 2024, Pasquino detalhou como a parceria funcionava: o PCC fornecia a droga em consignação, enquanto as famílias mafiosas italianas se encarregavam da distribuição e venda no continente europeu.
Da prisão ao depoimento: A trajetória de Pasquino e o rompimento com o código de silêncio
Pasquino, filiado à ‘Ndrangheta desde 2011, começou a colaborar com a Justiça italiana em novembro de 2023, após ser abandonado por seus aliados. Em maio de 2024, durante seu depoimento, ele revelou os bastidores de um esquema que movimentou milhões de euros anualmente. Condenado a 10 anos de prisão, Pasquino afirmou ter optado pela delação por considerar que “as pessoas nas quais confiava me abandonaram”. Sua prisão no Brasil, em 2021, ocorreu durante uma operação conjunta entre a Polícia Federal brasileira e autoridades italianas, que investigavam o tráfico transatlântico de drogas.
A ‘Ndrangheta e o PCC: Uma aliança de poder e logística
A ‘Ndrangheta, reconhecida como a máfia mais poderosa do mundo, atuou como intermediária entre o PCC e as demais famílias criminosas italianas. Segundo Pasquino, as negociações começaram em 2018, quando líderes mafiosos viajaram ao Brasil para se encontrar com integrantes do PCC em São Paulo. O objetivo era estabelecer uma rota segura para o envio de cocaína, com o PCC cobrindo metade dos custos de aquisição e logística. A droga, produzida no Paraguai e transportada até os portos brasileiros, chegava à Itália principalmente por meio do porto de Gioia Tauro, na Calábria, um dos principais hubs do tráfico internacional.
O esquema incluía a participação de grupos colombianos, responsáveis por esconder a cocaína sob as quilhas de navios que partiam de Santos (SP) com destino à Europa. Pasquino foi pioneiro na técnica de transporte, utilizando mergulhadores colombianos para ocultar a droga atrás das grades das entradas d’água dos navios. “Fui o primeiro a usar essa técnica”, declarou em depoimento, revelando que três mergulhadores colombianos foram trazidos ao Brasil exclusivamente para esse fim.
Divisão de lucros e preços: Como o PCC e a máfia dividiam os ganhos
O modelo de negócios entre as duas organizações criminosas previa uma divisão clara de responsabilidades e lucros. O PCC vendia a cocaína à ‘Ndrangheta por cerca de 5.000 euros o quilo, valor que subia para 7.500 euros após os custos de transporte e armazenamento nos portos italianos. Na venda final ao consumidor, o preço chegava a 23.000 ou 25.000 euros por quilo, dependendo da região da Itália. Pasquino afirmou que o PCC recebia um valor mínimo acordado, enquanto a máfia italiana ficava com a maior parte dos lucros, provenientes da distribuição em territórios como a Sicília e o norte da Itália.
Especialistas em segurança pública avaliam que essa parceria representou uma evolução no crime organizado transnacional, com o PCC assumindo um papel inédito no financiamento de operações logísticas em escala global. “O PCC não apenas fornecia a droga, mas também investia na infraestrutura necessária para o tráfico, o que demonstra um avanço em sua capacidade operacional”, afirmou o delegado federal responsável pela investigação, que preferiu não ser identificado.
Impacto das revelações: Operações policiais e desdobramentos judiciais
As delações de Pasquino e de outros colaboradores já resultaram nas prisões de dezenas de membros da ‘Ndrangheta e do PCC, além da apreensão de toneladas de cocaína e valores milionários. A Polícia Federal brasileira, em parceria com a Europol e a Guarda di Finanza italiana, intensificou operações para desmantelar as rotas e identificar os responsáveis pelo financiamento e logística. A extradição de Pasquino para a Itália, em março de 2024, foi um marco na cooperação internacional contra o crime organizado.
Ainda em 2024, novas investigações apontam que a aliança entre o PCC e a ‘Ndrangheta pode ter se estendido a outros países europeus, como Espanha e Portugal, onde a máfia italiana mantém operações paralelas. Autoridades alertam para o risco de uma expansão ainda maior do tráfico, com o PCC consolidando sua presença no mercado europeu.
O futuro do tráfico transnacional: O que esperar após as delações?
Com a colaboração de Pasquino e outros mafiosos, as autoridades acreditam ter desvendado apenas uma parte de uma rede complexa que envolve desde produtores sul-americanos até distribuidores europeus. A prisão de líderes do PCC e da ‘Ndrangheta, entretanto, não deve cessar o tráfico, mas sim forçar uma reestruturação das organizações criminosas. Especialistas em segurança defendem a necessidade de um maior intercâmbio de informações entre os países e o fortalecimento de leis contra a lavagem de dinheiro, principal ferramenta utilizada pelo crime organizado para legitimizar seus lucros.
Enquanto as investigações prosseguem, uma coisa é certa: a aliança entre o PCC e a ‘Ndrangheta deixou um legado de métodos inovadores e prejuízos incalculáveis, redefinindo as fronteiras do tráfico internacional de drogas. A sociedade, por sua vez, segue à espera de respostas sobre como prevenir que novas parcerias criminosas floresçam no futuro.




