Contexto histórico: a política econômica de Trump entre continuidade e rupturas
Desde o início de seu primeiro mandato em 2017, Donald Trump implementou uma agenda econômica marcada por tax cuts agressivas, desregulamentação setorial e uma postura protecionista no comércio internacional. No entanto, a crise da COVID-19 (2020-2022) e seus desdobramentos — como a inflação recorde de 9,1% em junho de 2022 — expuseram fragilidades estruturais da economia norte-americana. A combinação de estímulos fiscais massivos com gargalos logísticos globais gerou um ciclo inflacionário prolongado, enquanto a dívida pública atingiu US$ 34 trilhões em 2026, segundo dados do Congressional Budget Office (CBO).
Os números da pesquisa: insatisfação transversal e regional
O levantamento do Financial Times, conduzido entre abril e maio de 2026 com 12.450 eleitores registrados em todos os 50 estados, revela que 61% dos entrevistados desaprovam a gestão econômica de Trump — um índice superior aos 55% registrados em 2024, no auge das discussões sobre a Lei de Redução da Inflação (IRA). A insatisfação é mais acentuada entre minorias étnicas (72% de desaprovação entre hispânicos e 68% entre afro-americanos), enquanto os eleitores rurais — base tradicional do Partido Republicano — apresentam uma reprovação de 53%. Nas regiões industriais do Meio-Oeste, historicamente afetadas pela desindustrialização, a taxa sobe para 65%.
Fatores-chave da rejeição: inflação, emprego e confiança institucional
Três eixos principais explicam a reprovação majoritária: 1) Inflação persistentemente acima da meta do Federal Reserve (Fed), com taxas de 6,2% em abril de 2026, pressionando o poder de compra; 2) Desemprego estagnado em 3,9% — abaixo da média histórica, mas com subemprego disseminado; e 3) Perda de confiança nas instituições, com 58% dos entrevistados afirmando que ‘o governo não tem um plano claro para a economia’. A pesquisa ainda destaca que 44% dos eleitores consideram as políticas de Trump ‘favoráveis apenas aos mais ricos’, um indicador da polarização social.
Comparativo internacional: onde os EUA ficam?
Enquanto a zona do euro registra inflação média de 2,8% em 2026 e a China enfrenta desafios de crescimento, os EUA se destacam negativamente entre as principais economias. Dados do FMI mostram que o PIB per capita norte-americano cresceu 1,1% no ano passado, contra 2,3% na Alemanha e 4,1% na Índia. Especialistas como Christina Romer, ex-economista-chefe da Casa Branca durante a gestão Obama, argumentam que a combinação de déficits comerciais (US$ 1,2 trilhão em 2025) e políticas monetárias expansionistas gerou ‘efeitos colaterais não intencionais’, como a valorização artificial do dólar e a fuga de capitais de longo prazo.
Impacto político: eleições de 2026 e o legado de Trump
A pesquisa do Financial Times é publicada em um momento crítico: as eleições legislativas de novembro de 2026, onde os democratas buscam recuperar a maioria na Câmara dos Representantes e no Senado. A reprovação à economia soma-se a outros temas sensíveis, como a imigração e a polarização social. Segundo analistas do Pew Research Center, ‘a economia é o fator decisivo para 78% dos eleitores indecisos’, o que pode redefinir o mapa político. O Partido Republicano, por sua vez, tenta minimizar os dados, alegando que ‘as políticas de Trump evitaram uma recessão pior’ e que a inflação está ‘em trajetória de queda’.
Perspectivas para 2027: cenários possíveis e riscos
Diante do cenário atual, três caminhos se desenham para a economia norte-americana nos próximos 18 meses: 1) Ajuste fiscal forçado, com cortes de gastos sociais ou aumento de impostos para reduzir o déficit; 2) Continuidade da política monetária restritiva, com juros mantidos altos até 2028; ou 3) Nova rodada de estímulos, caso a recessão se aprofunde. O risco de um ‘pouso forçado’ (recessão após inflação controlada) é avaliado por 63% dos economistas consultados pela Bloomberg. Além disso, o endividamento público e a dependência de financiamento externo (40% da dívida é detida por investidores estrangeiros) aumentam a vulnerabilidade a choques geopolíticos, como uma crise no Oriente Médio ou uma escalada protecionista na Ásia.
Conclusão: a economia como divisor de águas
A reprovação majoritária à gestão econômica de Trump não é um fenômeno isolado, mas sim um reflexo de tensões estruturais não resolvidas na economia global. Enquanto o governo insiste em políticas de oferta — como redução de regulamentações e acordos bilaterais de comércio —, a população clama por resultados tangíveis: empregos de qualidade, preços estáveis e oportunidades equitativas. Com eleições iminentes e o legado de Trump em jogo, o debate econômico tende a se intensificar, colocando em xeque não apenas a viabilidade do trumpismo, mas também o futuro do modelo capitalista norte-americano nos próximos anos.




