Documentos e transferências bancárias colocam estrategista da pré-campanha presidencial do senador no centro do chamado “Projeto DV”, estrutura investigada por disseminar ofensivas contra dirigentes do BC
As investigações envolvendo o Banco Master e o empresário Daniel Vorcaro avançaram nesta terça-feira (12) com o surgimento de novos elementos que aproximam integrantes do núcleo político bolsonarista do chamado “Projeto DV”, operação apontada como responsável por articular ataques sistemáticos ao Banco Central e a servidores da instituição.
Documentos sigilosos e comprovantes bancários obtidos pela Folha de S.Paulo indicam que o publicitário Marcello Lopes — conhecido nos bastidores políticos como “Marcelão” e responsável pela estratégia de comunicação da pré-candidatura presidencial do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) — aparece diretamente vinculado à estrutura investigada pela Polícia Federal.
Segundo os registros analisados, Lopes recebeu uma transferência via Pix de R$ 650 mil em 13 de dezembro do ano passado, período em que, de acordo com os investigadores, eram estruturadas ações coordenadas para pressionar e desgastar a cúpula do Banco Central após decisões que afetaram interesses ligados ao Banco Master.
Estrutura investigada previa ofensiva coordenada
O chamado “Projeto DV”, referência às iniciais de Daniel Vorcaro, teria sido concebido como uma operação de influência digital e pressão política avaliada em aproximadamente R$ 8 milhões.
De acordo com as apurações, o objetivo seria descredibilizar integrantes do Banco Central depois de medidas adotadas pela autarquia relacionadas ao Banco Master, incluindo entraves à operação envolvendo o BRB e decisões que culminaram na liquidação da instituição financeira.
O nome de Marcello Lopes aparece em documentos do projeto como integrante de uma “equipe de estrategistas”, ao lado do empresário Thiago Miranda, ligado à agência Mithi, e de Anderson Nunes, associado à Unltd Network.
A Polícia Federal investiga se a estrutura utilizou dezenas de perfis de influenciadores digitais para impulsionar conteúdos coordenados contra dirigentes do BC, especialmente o ex-diretor de Organização do Sistema Financeiro, Renato Gomes.
Versões divergentes ampliam suspeitas
Após serem confrontados com os documentos, os envolvidos apresentaram explicações distintas sobre a transferência milionária, aumentando as dúvidas em torno da real finalidade do pagamento.
Marcello Lopes afirmou ter recebido a inclusão de seu nome no projeto com “surpresa e indignação”. Segundo ele, os R$ 650 mil corresponderiam a “pagamentos de serviços e consultorias profissionais anteriores”, sem relação com qualquer ofensiva contra o Banco Central.
O marqueteiro, no entanto, disse não poder detalhar os serviços prestados nem apresentar contratos, alegando cláusulas de confidencialidade.
Já Thiago Miranda apresentou outra versão aos investigadores. Em depoimento prestado nesta terça-feira (12), ele declarou que o pagamento teria sido realizado para garantir a participação de Lopes no projeto, argumentando que a presença do estrategista político agregaria “peso e robustez” à operação idealizada por Vorcaro.
Miranda também afirmou que o publicitário teria devolvido os valores posteriormente, após deixar o grupo em razão de um suposto “conflito de interesses”. Questionado sobre provas da devolução, porém, respondeu que não poderia apresentar os documentos porque sua equipe financeira estaria “de férias”.
As contradições entre os depoimentos elevaram a tensão entre os envolvidos. Em resposta às declarações de Miranda, Marcello Lopes afirmou que o empresário estaria “desorientado e passando por um momento difícil”.
Escândalo amplia pressão sobre entorno bolsonarista
A entrada do estrategista de Flávio Bolsonaro na investigação reforça a pressão sobre integrantes próximos ao núcleo político da família Bolsonaro, já atingido por desdobramentos do caso Banco Master.
Entre os nomes citados nas apurações está o senador Ciro Nogueira (PP-PI), ex-ministro da Casa Civil do governo Jair Bolsonaro, apontado como participante de articulações relacionadas a Vorcaro. O presidente nacional do União Brasil, Antônio Rueda, também aparece mencionado em contratos sob análise das autoridades.
As investigações ainda analisam repasses financeiros ligados à campanha presidencial de 2022. Segundo os investigadores, Jair Bolsonaro teria recebido R$ 3 milhões por intermédio de Fabiano Zettel, apontado como operador ligado ao empresário Daniel Vorcaro. O governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, também é citado em movimentações financeiras que agora estão sob apuração.
PF aprofunda análise de material apreendido
A Polícia Federal segue examinando celulares, notebooks e documentos recolhidos durante as operações relacionadas ao caso.
Nos bastidores de Brasília, o avanço das investigações ampliou o impacto político sobre a pré-campanha presidencial de Flávio Bolsonaro, especialmente após o surgimento de indícios que aproximam integrantes de sua equipe de comunicação de uma estrutura suspeita de promover ataques contra instituições de Estado.
O rastreamento das movimentações financeiras e das conexões entre operadores políticos, empresários e estrategistas digitais passou a ser considerado peça central para esclarecer a extensão do esquema investigado e seu possível alcance sobre o cenário eleitoral de 2026.




