Operação cumpre mandados em empresa responsável por longa-metragem sobre o ex-presidente, em órgão da Prefeitura e em instituto ligado à empresária investigada; apuração envolve suspeitas de superfaturamento e desvio de recursos públicos
A Polícia Civil de São Paulo deflagrou, nesta segunda-feira (1º), uma operação que tem como um dos principais alvos a Go UP Entertainment, produtora responsável pelo filme Dark Horse, obra que retrata a trajetória política do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL). As diligências também foram realizadas em imóveis ligados à empresária Karina Ferreira da Gama, na sede da Secretaria Municipal de Inovação e Tecnologia e no Instituto Conhecer Brasil (ICB), entidade presidida por ela.
A ação foi autorizada pela Vara de Garantias do Tribunal de Justiça de São Paulo (TJ-SP) e integra uma investigação que apura possíveis irregularidades em um contrato firmado entre o ICB e a Prefeitura de São Paulo para a oferta de internet gratuita à população por meio do programa WiFi Livre SP.
Investigação apura possível desvio de recursos
Segundo os investigadores, há suspeitas de superfaturamento na execução do contrato e de eventual transferência de recursos públicos para empresas vinculadas à empresária. Entre as linhas de apuração está a hipótese de que parte dos valores pagos pelo município tenha sido direcionada à produtora responsável pelo filme sobre Bolsonaro.
Equipes policiais estiveram na residência de Karina Ferreira da Gama, localizada no bairro Vila Brasilândia, na zona norte da capital paulista. Até o início da manhã, agentes permaneciam em um dos escritórios ligados à empresária.
A reportagem procurou Karina para comentar a operação, mas não havia obtido retorno até a publicação desta matéria.
Prefeitura afirma colaborar com autoridades
Em nota, a Prefeitura de São Paulo informou que está colaborando com as investigações e que já forneceu às autoridades todas as informações solicitadas.
“A Prefeitura colabora com investigações em andamento e segue à disposição das autoridades, tendo já prestado informações”, afirmou a administração municipal.
O município também destacou que a documentação relacionada ao contrato está disponível para consulta pública por meio dos mecanismos de prestação de contas.
A gestão do prefeito Ricardo Nunes (MDB) reiterou ainda que não identificou irregularidades na execução dos serviços contratados e ressaltou que, dos 3.200 pontos de acesso à internet previstos no programa, apenas 52 estavam temporariamente fora de operação nesta segunda-feira devido a serviços de manutenção.
Segundo a administração municipal, o processo de contratação do Instituto Conhecer Brasil observou critérios de legalidade, transparência e economicidade. A prefeitura acrescentou que, quando o chamamento público foi realizado, em 2024, “não havia sequer produção do filme mencionado”.
Quebra de sigilo financeiro foi solicitada
Na semana passada, veio a público a informação de que a Polícia Civil havia solicitado à Justiça acesso a dados financeiros da empresária e da Go UP Entertainment. O pedido faz parte do conjunto de medidas adotadas para rastrear a movimentação dos recursos investigados.
Na ocasião, a Prefeitura declarou que acompanhava o caso e que adotaria providências caso fossem constatadas irregularidades durante o andamento das apurações.
Karina Ferreira da Gama já havia negado qualquer relação financeira entre o contrato do WiFi Livre SP e a produção de Dark Horse. Segundo ela, o longa-metragem não recebeu recursos públicos nem privados de origem brasileira, e a contratação do instituto pela prefeitura ocorreu de forma regular e independente do projeto audiovisual.
Filme sobre Bolsonaro entra no foco das apurações
O filme Dark Horse aborda a trajetória política de Jair Bolsonaro, com destaque para o atentado a faca sofrido durante a campanha presidencial de 2018.
A produção ganhou repercussão após revelações de que o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) teria solicitado apoio financeiro ao banqueiro Daniel Vorcaro, controlador do Banco Master, para viabilizar o projeto. Vorcaro afirma que a solicitação ocorreu sem qualquer vínculo com recursos públicos.
Reportagem do portal The Intercept Brasil informou que aproximadamente R$ 61 milhões teriam sido destinados à produção cinematográfica. Paralelamente, a Polícia Federal apura se parte desses recursos foi utilizada para custear despesas do deputado federal licenciado Eduardo Bolsonaro (PL-SP) nos Estados Unidos.
Delegado aponta suspeitas de confusão patrimonial
Documentos encaminhados ao Tribunal de Justiça indicam que os investigadores trabalham com a hipótese de mistura patrimonial entre o Instituto Conhecer Brasil e a produtora audiovisual.
“Há consistentes suspeitas de confusão patrimonial [entre o instituto e a produtora] e de que os recursos públicos do programa ‘WiFi Livre SP’ tenham sido desviados para custear as atividades de produção do referido filme, utilizando as contas das empresas subcontratadas e das demais organizações sociais geridas pela investigada para a lavagem dos valores desviados do erário de São Paulo”, afirma trecho do ofício assinado pelo delegado responsável pelo caso.
O documento segue sob análise da Vara Regional de Garantias do TJ-SP, enquanto a investigação busca esclarecer o destino dos recursos públicos e eventuais conexões financeiras entre o contrato municipal e a produção cinematográfica.




