Contexto histórico e motivações do protesto
Desde a quinta-feira (07/05/2026), a reitoria da Universidade de São Paulo (USP) permanece ocupada por estudantes que exigem melhorias nas políticas de permanência estudantil. As reivindicações incluem moradia universitária, auxílio-alimentação e ampliação de bolsas, pautas recorrentes em mobilizações estudantis ao longo das últimas décadas — sobretudo após cortes orçamentários na educação superior nos governos estaduais e federais. A ocupação, organizada pelo Diretório Central dos Estudantes (DCE) Livre da USP, seguiu métodos semelhantes a outras ações do movimento estudantil brasileiro, que historicamente utiliza ocupações como forma de pressão política para demandas não atendidas pelo poder público.
Operação policial e versões conflitantes
A Polícia Militar de São Paulo (PM-SP) realizou, na madrugada do domingo (10/05), a desocupação da reitoria da USP. Segundo a corporação, cerca de 50 policiais foram mobilizados, resultando na detenção de quatro estudantes, que prestaram depoimento no 7º Distrito Policial antes de serem liberados. A PM afirmou agir em cumprimento a uma decisão judicial, embora o DCE Livre da USP tenha contestado a legalidade da operação, alegando ausência de mandado judicial de reintegração de posse.
A entidade estudantil relatou o uso de bombas de efeito moral, gás lacrimogêneo e cassetetes durante a ação, além de ferimentos em manifestantes. Em nota, o DCE declarou: “A polícia invadiu a ocupação sem qualquer aviso prévio, desrespeitando o direito constitucional de protesto e ferindo estudantes em um ambiente que deveria ser de diálogo”. A reitoria da USP, por sua vez, afirmou não ter sido previamente informada sobre a operação, embora deputadas do Psol tenham apresentado “evidências” — ainda não detalhadas publicamente — de suposta articulação entre a universidade e a PM desde sexta-feira (09/05), incluindo cortes nos serviços de água e energia elétrica da ocupação.
Denúncias de Erika Hilton e Sâmia Bomfim
A deputada federal Erika Hilton (Psol-SP) classificou o protesto estudantil como “legítimo” e criticou a recusa do poder público em negociar antes da intervenção policial. Em postagem no X (antigo Twitter), Hilton afirmou: “É um absurdo que o poder público se recuse a negociar, parta para a violência e que quatro estudantes tenham sido detidos por exercerem seu direito constitucional ao protesto”. Ela também questionou a versão da reitoria sobre a falta de aviso prévio, acusando-a de “cumplicidade” com a PM: “Há evidências de articulação entre a universidade e a polícia desde sexta-feira, incluindo o corte de serviços básicos”.
A deputada Sâmia Bomfim (Psol-SP) anunciou que acionará a Corregedoria da Polícia Militar e o Ministério Público para apurar a “conduta ilegal e truculenta” da operação. “Estou acionando as instâncias competentes para investigar não apenas a truculência policial, mas também a omissão da reitoria da USP, que falhou em mediar o conflito”, declarou. Ambas as parlamentares devem protocolar representações na Procuradoria-Geral de Justiça de São Paulo contra o governador Tarcísio de Freitas (Republicanos), a PM e a reitoria da universidade.
Repercussão política e cobranças por transparência
O governador Tarcísio de Freitas, do Republicanos, não se manifestou publicamente sobre o caso até o fechamento desta edição. A Secretaria de Segurança Pública de São Paulo, entretanto, emitiu nota defendendo a legalidade da operação: “A PM atuou dentro da lei, em cumprimento a decisão judicial, para garantir a reintegração de posse e a ordem pública”. A USP, por meio de sua assessoria, reiterou que “não havia sido informada previamente sobre a ação” e que “o diálogo com os estudantes continuará”.
Juristas e defensores dos direitos humanos, ouvidos pela imprensa, divergem sobre a legalidade da operação. O constitucionalista Luís Roberto Barroso, professor da USP, afirmou que “qualquer ação policial em campus universitário deve ser precedida de diálogo exaustivo e, em caso de necessidade, de decisão judicial clara”. Já o ex-secretário de Segurança Pública de São Paulo, Alexandre de Moraes, destacou que “a ocupação de prédios públicos configura crime de invasão, passível de reintegração de posse, desde que judicializada”.
Desdobramentos e próximos passos
As deputadas Erika Hilton e Sâmia Bomfim devem protocolar, ainda nesta semana, as representações contra as autoridades envolvidas. A Corregedoria da PM e o Ministério Público já se manifestaram, em comunicados preliminares, sobre a abertura de inquéritos para apurar possíveis irregularidades. O DCE Livre da USP anunciou que manterá as reivindicações e convocou assembleias para definir novos atos de protesto nas próximas semanas.
O caso reacende debates sobre a militarização da segurança pública em universidades e o uso de força policial em conflitos sociais. Em 2016, a desocupação da reitoria da USP — também ocupada por estudantes — resultou em denúncias semelhantes de truculência, que foram arquivadas após investigações. À época, o então governador Geraldo Alckmin (PSDB) foi criticado por setores progressistas, que viam na ação um endurecimento contra o movimento estudantil. Agora, com Tarcísio de Freitas no comando, a tensão entre governo, polícia e universidades volta a ser tema central na agenda política paulista.
Análise: Um padrão de repressão ou legítima defesa da ordem?
O confronto na USP expõe uma clivagem ideológica entre aqueles que defendem o direito à ocupação como ferramenta de protesto e aqueles que enxergam na ação policial uma necessidade de manutenção da ordem pública. Para os estudantes e suas representações políticas, a ocupação foi uma resposta legítima a anos de negligência governamental nas políticas estudantis. Para o governo e a PM, trata-se da aplicação da lei em um espaço público invadido.
A ausência de uma narrativa convergente entre as partes — com versões conflitantes sobre a articulação prévia entre reitoria e PM — sugere que a verdade ainda está em disputa. O que se sabe, até o momento, é que a operação policial deixou feridos, detidos e uma crise institucional que pode se estender além dos muros da universidade. Independentemente dos desdobramentos jurídicos, o episódio reforça a necessidade de políticas públicas efetivas para evitar que conflitos como este se tornem recorrentes.




