ClickNews
Artigos

Recado de um velho servidor -Por Wilton Emiliano Pinto *

Jeverson
9 de maio de 2026 às 16:42
Compartilhar:
Recado de um velho servidor -Por   Wilton Emiliano Pinto *
Divulgação / ClickNews

Há lembranças que o tempo não apaga. Apenas assenta.

No DERGO, onde vivi 33 anos de trabalho, aprendi cedo que o serviço público não se resume a papéis, carimbos ou relatórios. Ele acontece, de verdade, nas relações. No trato diário. No modo como um homem olha para o outro.

Comecei simples, como datilógrafo. O barulho das teclas marcava o ritmo dos meus dias. Cada linha exigia atenção, cada erro pedia recomeço. Era um trabalho silencioso, mas já ali existia uma lição. Fazer bem feito, mesmo quando ninguém está olhando.

O tempo foi passando, e as responsabilidades vieram sem fazer alarde.

Fui chefe de escritório. Depois, contador. Em cada função, uma pequena equipe. Uma meia dúzia de companheiros dividindo o mesmo espaço, os mesmos prazos, as mesmas preocupações. E ali, no convívio miúdo, fui entendendo que liderar não era mandar. Era sustentar o ambiente.

Mais tarde, veio o serviço de transportes.

Quase cem motoristas sob minha responsabilidade, espalhados pelas estradas do estado. Homens de volante firme, vida dura e pouca conversa. Gente que saía de madrugada, enfrentava poeira, lama, distância e saudade.

E foi ali que o trabalho ganhou outro peso.

Eu não atendia o público. Atendia pessoas.

Cada dia trazia um problema diferente. Um desgaste da estrada. Um desentendimento. Uma preocupação de casa que atravessava o expediente. Um cansaço que já não cabia mais no corpo.

E não havia escolha elegante.

Ou eu ouvia, ou o serviço parava.

Foi assim que aprendi uma verdade simples. Quem não escuta, não comanda. Quem não compreende, não conduz. A máquina só anda quando o homem está inteiro.

A autoridade, com o tempo, perde o brilho. Fica leve. Ou pesada, dependendo de quem carrega.

Vi de perto como um chefe pode endurecer o ambiente. E vi também como uma palavra serena pode reorganizar um dia inteiro. Não é teoria. É prática. É cotidiano.

O cargo passa. A maneira fica.

E há uma justiça silenciosa nisso tudo.

Quem se levanta demais, um dia precisa descer. Quem pisa firme no chão, quase nunca se perde. Aprendi a preferir o caminho mais simples. Ele costuma ser o mais seguro.

Hoje, distante daquela rotina, não são os números que me visitam na memória. Nem os documentos. Nem os relatórios.

São as pessoas.

Os rostos cansados ao amanhecer. As conversas necessárias. Os problemas resolvidos no tempo certo. Os olhares que diziam mais que palavras.

É isso que permanece.

Se eu pudesse deixar um recado, seria curto. Quase um sussurro.

Respeite quem trabalha ao seu lado.

Não pelo cargo. Pela condição humana.

Porque, no fim das contas, o serviço não é feito de funções. É feito de gente.

E quando a gente entende isso, o trabalho deixa de ser obrigação.

Passa a ser consciência.

E consciência tranquila é o único salário

que o tempo não corrói.

Wilton recolhe o tempo e o devolve em forma de reflexão.

O que você achou desta notícia?

Sua avaliação ajuda nossa redação a entregar o melhor conteúdo.