Contexto histórico: o bonde como símbolo de uma geração
O bonde número 101, fabricado em 1958 pela empresa japonesa Kinki Sharyo, não é apenas um meio de transporte, mas um testemunho de uma era em que as linhas de bonde de Nagasaki conectavam não apenas bairros, mas vidas. Na década de 1980, quando Terumi e Ayumi se conheceram, esses veículos eram o principal meio de deslocamento na cidade, especialmente em trajetos como o que ligava o porto à zona residencial de Urakami. O acidente ocorrido em 1985, quando o bonde 101 descarrilou após uma tempestade, feriu gravemente Ayumi e a levou ao hospital, onde Terumi, então estudante de enfermagem, trabalhava como voluntário. A partir daquele momento, o veículo se tornou parte de uma narrativa pessoal que transcendeu o âmbito público.
Do Japão ao Brasil: a trajetória de um objeto carregado de memórias
Adoado pela prefeitura de Nagasaki em 2023 como parte de um acordo de cooperação cultural com Santos, o bonde 101 foi restaurado e transportado por via marítima, chegando ao Porto de Santos em março de 2024. A doação não foi apenas um gesto simbólico, mas uma estratégia para estreitar laços entre as duas cidades, que compartilham uma história de migração japonesa significativa. Segundo registros da Associação de Imigrantes Japoneses em Santos, mais de 180 mil japoneses desembarcaram no Porto de Santos entre 1908 e 1941, estabelecendo uma comunidade que hoje representa mais de 1,5 milhão de descendentes no Brasil. O bonde, ao ser integrado ao patrimônio local, reforça essa conexão transpacífica.
O reencontro: emoção e narrativa pessoal
No último sábado, Terumi, 62 anos, e Ayumi, 60, desembarcaram em Santos acompanhados do filho, Tsuyoshi Yamaguchi (Guti), de 38 anos, que nasceu no Japão mas migrou para o Brasil ainda criança. Em entrevista exclusiva à ClickNews, Guti descreveu o momento como “uma ponte entre duas culturas”: “Meu pai sempre contou essa história como se fosse um conto de fadas moderno. Ver os dois revivendo aquele dia, agora com a perspectiva de quatro décadas, foi como fechar um ciclo”. Os cônjuges, visivelmente emocionados, percorreram os 12 metros do bonde, tocando nas poltronas originais e no sistema de tração, enquanto relembravam detalhes como a cor das cortinas na época e o cheiro de óleo que impregnava o veículo.
Impacto cultural e preservação do patrimônio
A recuperação do bonde 101 contou com o apoio de engenheiros da Companhia Paulista de Trens Metropolitanos (CPTM), que utilizaram técnicas de restauração similares às empregadas em vagões históricos do metrô de São Paulo. O projeto, orçado em R$ 2,3 milhões, incluiu a substituição de 60% das peças metálicas e a recuperação do sistema elétrico original, mantendo 85% da estrutura original intacta. Segundo o historiador da Fundação Arquivo e Memória de Santos, Dr. Ricardo Oliveira, “objetos como este não apenas contam histórias individuais, mas oferecem um retrato da engenharia e da vida cotidiana de uma época. Santos, como porta de entrada dos imigrantes, tem a responsabilidade de preservar essa memória”.
Legado e desdobramentos
A presença do bonde em Santos também abriu discussões sobre a preservação de patrimônios móveis no Brasil, um tema ainda incipiente no país. Enquanto países como Japão e Alemanha possuem museus dedicados a bondes históricos, o Brasil conta com apenas três unidades preservadas: duas no Rio de Janeiro e uma em Campinas. A curadora do Museu do Bonde de Santos, Dra. Helena Souza, destacou que “a chegada do 101 pode inspirar outras cidades a investirem em projetos semelhantes, especialmente aquelas com trajetória migratória forte”.
Para Terumi e Ayumi, o reencontro transcendeu a nostalgia. Em um gesto simbólico, eles doaram à prefeitura de Santos uma réplica em miniatura do bonde, fabricada artesanalmente por um ourives de Nagasaki, que será exposta permanentemente no Memorial do Imigrante. “Isso não é apenas sobre nós dois”, afirmou Ayumi durante a cerimônia. “É sobre todas as pessoas que cruzaram oceanos em busca de uma vida melhor e deixaram suas marcas aqui. Este bonde é parte dessa história”.
Perspectivas futuras: da memória à educação
A integração do bonde 101 ao roteiro turístico de Santos está prevista para novembro de 2024, quando a cidade sediará o Festival do Imigrante. O veículo será utilizado em passeios temáticos que abordarão a história da imigração japonesa, com narração ao vivo e exposição de documentos originais do Arquivo Histórico de Nagasaki. Além disso, a prefeitura estuda a criação de um aplicativo de realidade aumentada que permitirá aos visitantes “viajar no tempo” e visualizar como era Nagasaki na década de 1980.
Enquanto isso, Terumi e Ayumi já planejam uma segunda viagem ao Brasil no próximo ano, desta vez para visitar a cidade de Registro, no interior de São Paulo, onde uma colônia japonesa mantém viva a tradição do bon odori. “Não é um adeus”, garantiu Terumi. “É apenas o começo de uma nova história”.




