Contexto histórico e padrões climáticos
O fenômeno de ressaca registrado em Laguna, no Litoral Sul de Santa Catarina, não é um evento isolado, mas sim parte de um padrão climático recorrente associado à interação entre ventos de quadrante sul e correntes marítimas. Segundo registros da Epagri/Ciram, eventos similares ocorreram em 2016 e 2019, quando ondas superiores a 3,5 metros causaram prejuízos estimados em R$ 50 milhões na região. A corrente do Brasil, corrente marítima quente que flui ao longo da costa, quando confrontada com ventos intensos do sul, gera um fenômeno conhecido como ‘mar de vento’, caracterizado por ondas curtas e agressivas capazes de sobrepujar estruturas costeiras. O aumento da frequência desses eventos nas últimas décadas está diretamente relacionado ao fenômeno El Niño, que altera a dinâmica atmosférica sobre o Atlântico Sul, intensificando os ventos meridionais.
Dinâmica meteorológica atual
A Defesa Civil do Estado de Santa Catarina emitiu alerta amarelo na sexta-feira (15), quando os ventos de sul começaram a intensificar-se. Segundo o meteorologista-chefe do órgão, a pressão atmosférica na região de Laguna registrava valores de 1008 hPa, cerca de 4 hPa abaixo da média para a época, o que contribui para a formação de ondas de até 4 metros. O boletim da Marinha do Brasil, por sua vez, indicava que a agitação marítima se estenderia até domingo (17), com mar grosso e ventos de até 40 nós na costa. Imagens de satélite do CPTEC/INPE confirmam a persistência de uma massa de ar frio sobre o oceano, mantendo o quadrante sul como dominante.
Impactos na infraestrutura pesqueira e urbana
Os danos em Laguna concentram-se principalmente nos ranchos de pesca localizados na Praia da Galheta e no Porto de Laguna. Vídeos compartilhados nas redes sociais mostram ondas invadindo áreas normalmente secas, com altura suficiente para submergir veículos estacionados próximo à orla. Segundo relatos de pescadores, os danos materiais incluem embarcações danificadas, redes de pesca destruídas e estruturas de concreto rachadas. A Secretaria Municipal de Infraestrutura informou que três pontos da orla apresentam erosão acelerada, com perda de cerca de 2 metros de faixa de areia em algumas áreas. A Defesa Civil contabiliza 12 ocorrências até o momento, incluindo quedas de postes e danos em calçadas.
Resposta das autoridades e medidas de contenção
A prefeitura de Laguna ativou o Plano de Contingência para Desastres Naturais, com equipes da Guarda Municipal e do Corpo de Bombeiros monitorando áreas de risco. O secretário municipal de Meio Ambiente, Dr. Antônio Carlos da Silva, afirmou que a administração local está avaliando a necessidade de interditra partes da orla até a normalização das condições. A Defesa Civil estadual, por sua vez, mantém plantão de 24 horas com equipes treinadas para resgates em áreas costeiras. O governo do Estado anunciou a liberação de R$ 2 milhões para reparos emergenciais, enquanto a Marinha monitora a aproximação de embarcações de pequeno porte das áreas afetadas.
Perspectivas e projeções para os próximos dias
De acordo com o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), a tendência é de melhora gradual a partir de segunda-feira (18), com a dissipação da massa de ar frio e redução dos ventos para patamares abaixo de 20 nós. No entanto, a Marinha do Brasil emitiu boletim alertando para a possibilidade de novos episódios de agitação marítima até o final da semana, em decorrência da formação de um ciclone extratropical na costa do Rio Grande do Sul. Especialistas do ClickNews consultados para esta reportagem destacam que, embora eventos como este sejam cíclicos, a intensificação de fenômenos extremos está alinhada com projeções do IPCC para o aumento do nível do mar e a maior frequência de eventos climáticos severos na região sul do Brasil.
Testemunhos e impactos socioeconômicos
O pescador artesanal João Silva, 58 anos, que atua na região há quatro décadas, relatou ao ClickNews que nunca havia presenciado uma ressaca tão agressiva. ‘As ondas vieram como um paredão’, afirmou Silva, enquanto mostrava danos em seu rancho, avaliados em R$ 80 mil. A colônia de pescadores Z-13, que representa cerca de 1.200 profissionais em Laguna, estima prejuízos superiores a R$ 1 milhão em equipamentos e estruturas. O presidente da colônia, Paulo Roberto Mendes, solicitou à prefeitura a implantação de barreiras artificiais para proteção da orla, projeto orçado em R$ 500 mil. A pesca artesanal, responsável por 60% da produção local de frutos do mar, enfrenta paralisação parcial devido à impossibilidade de lançar embarcações.
Análise técnica e recomendações
O engenheiro civil Dr. Marcos Oliveira, especialista em engenharia costeira da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), analisou os vídeos e imagens do evento para o ClickNews. Segundo Oliveira, a altura das ondas e a extensão da invasão sobre a orla sugerem que as estruturas de contenção existentes (molhes e quebra-mares) foram projetadas para eventos de menor magnitude. ‘A engenharia costeira precisa revisar seus parâmetros, considerando não apenas a média histórica, mas também cenários de extremos climáticos’, afirmou o especialista. O engenheiro recomenda a implementação de sistemas de drenagem pluvial nas áreas baixas da orla e a restauração de dunas naturais como medidas de baixo custo e alta efetividade. A Defesa Civil estadual anunciou a formação de um grupo de trabalho para avaliar a infraestrutura costeira do Estado.




