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Rússia corre para criar sua própria Starlink e nova arma tecnológica acende alerta na Ucrânia

Jeverson
25 de setembro de 2026 às 12:05
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Rússia corre para criar sua própria Starlink e nova arma tecnológica acende alerta na Ucrânia

Rússia avança na implantação do Rassvet, sistema de internet via satélite que preocupa autoridades ucranianas — Foto: Adam88/Pond5 Images/IMAGO

Moscou acelera a implantação do Rassvet, sistema próprio de internet via satélite desenvolvido para reduzir a dependência de tecnologias estrangeiras. Ainda distante da capacidade da Starlink, a rede já é tratada por Kiev como uma potencial ferramenta para drones, ataques de precisão e comunicações militares.

A Rússia intensificou os esforços para colocar em operação uma rede própria de internet via satélite depois de perder, no início deste ano, o acesso não autorizado à Starlink utilizado por suas tropas na guerra contra a Ucrânia.

A mudança expôs uma vulnerabilidade importante das forças russas em um conflito no qual comunicação de alta velocidade, transmissão de imagens e troca de dados em tempo real se tornaram componentes essenciais das operações militares.

Desenvolvida pela SpaceX, empresa do bilionário Elon Musk, a Starlink criou uma infraestrutura capaz de fornecer conexão rápida mesmo em regiões onde redes terrestres foram destruídas ou não existem. Na Ucrânia, o sistema passou a ter papel estratégico desde os primeiros meses da guerra, sustentando comunicações militares, operações com drones e outras atividades de combate.

No campo de batalha moderno, alguns segundos sem conexão podem comprometer desde o controle de uma aeronave não tripulada até a transmissão das coordenadas de um alvo.

“A Starlink era tão importante que os russos tentaram durante muito tempo usá-la para seus próprios propósitos militares”, afirma à DW Clayton Swope, diretor de defesa e segurança do Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais (CSIS). “A Rússia não tinha nada que pudesse competir com isso.”

É nesse cenário que Moscou aposta no Rassvet — palavra russa que pode ser traduzida como “aurora” — como alternativa tecnológica e estratégica.

O projeto é desenvolvido pela empresa aeroespacial russa Bureau 1440 e pretende construir uma constelação de satélites em órbita baixa capaz de fornecer conexão de alta velocidade. A iniciativa já é acompanhada de perto pelos serviços de inteligência ucranianos.

Guerra transformou internet por satélite em infraestrutura militar

Ao contrário dos sistemas tradicionais de comunicação espacial, normalmente apoiados em um número menor de satélites posicionados em órbitas mais altas, a Starlink utiliza milhares de equipamentos em órbita terrestre baixa.

Terminais instalados no solo estabelecem contato com os satélites que passam sobre determinada região. Isso mantém a conexão mesmo quando torres de telefonia são destruídas, redes de fibra óptica são interrompidas ou tropas precisam operar longe da infraestrutura convencional.

Essa arquitetura foi particularmente importante para a Ucrânia no início da invasão russa.

Segundo Swope, Kiev conquistou vantagem operacional porque suas forças tinham acesso à Starlink enquanto os russos não dispunham de uma infraestrutura equivalente.

O problema para Moscou se tornou ainda mais evidente quando o acesso não autorizado das forças russas aos equipamentos da rede foi bloqueado no começo de 2026. O episódio aumentou a pressão sobre o Kremlin para desenvolver uma solução independente.

Rassvet avança, mas ainda está muito atrás da Starlink

O salto mais significativo do programa ocorreu em março, quando o Bureau 1440 colocou em órbita 16 satélites de comunicação destinados à futura constelação.

Novos equipamentos foram lançados posteriormente, ampliando a presença russa no espaço. O plano divulgado por autoridades e fontes ligadas ao programa prevê chegar a 292 satélites até 2027 e ampliar significativamente a rede nos anos seguintes.

O Bureau 1440 afirma que pretende criar uma constelação formada por centenas de equipamentos, com lançamento comercial previsto para 2027.

Em capacidade, porém, a distância em relação à SpaceX permanece expressiva.

Os satélites russos foram projetados para oferecer conexão de até 1 gigabit por segundo. Equipamentos mais avançados da Starlink trabalham com uma capacidade total de transmissão muito maior.

O astrofísico e historiador espacial Jonathan McDowell destaca essa diferença.

“A atual geração da Starlink tem cerca de 100 gigabits por segundo. A próxima geração terá dez vezes mais do que isso. Até mesmo o sistema OneWeb, disponível na Europa, tem cerca de 10 gigabits por segundo. Portanto, o Rassvet está na extremidade inferior da capacidade desses sistemas de megaconstelações de internet por satélite”, explica.

Segundo lançamento expôs dificuldades técnicas de Moscou

Além da diferença de capacidade, o programa russo enfrenta obstáculos para posicionar e operar seus satélites nas condições previstas.

Dados analisados pelo Institute for the Study of War indicaram que os equipamentos do segundo lote, lançado em julho, não alcançaram as altitudes operacionais projetadas. Muitos permaneceram entre 300 e 400 quilômetros, e alguns apresentaram perda gradual de altitude.

O problema não é apenas técnico.

A altitude influencia diretamente o tempo de operação, a área alcançada pelos satélites e a estabilidade da rede. Em uma constelação de órbita baixa, cada equipamento permanece por um período relativamente curto sobre uma determinada região.

Para oferecer internet continuamente, portanto, é necessário manter um grande número de satélites distribuídos de maneira coordenada ao redor do planeta.

A Rússia ainda está distante desse patamar.

Swope vê com cautela o cronograma anunciado por Moscou.

“A grande questão é se isso acontecerá. Nem sequer é quando”, afirma.

Segundo ele, alguns equipamentos apresentaram “falhas completas” e não estão “nas órbitas corretas esperadas”.

“Neste momento, a utilidade de um sistema como esse é muito pequena, oferecendo uma janela muito curta de cobertura apenas algumas vezes por dia sobre a Ucrânia”, diz.

Relatórios divulgados em agosto indicavam que parte dos primeiros satélites já proporcionava períodos limitados de conectividade sobre território ucraniano, mas ainda muito longe de uma cobertura permanente.

Outro desafio está em terra.

Para transformar a constelação em uma rede militar realmente funcional, Moscou precisará produzir terminais de comunicação em larga escala, distribuí-los às unidades russas e criar centros de controle capazes de continuar operando mesmo sob ataques da Ucrânia.

Mesmo incompleto, sistema já preocupa Kiev

As dificuldades não significam que o Rassvet seja irrelevante do ponto de vista militar.

McDowell avalia que a Rússia não precisa necessariamente construir uma cópia da Starlink com a mesma escala ou capacidade para obter vantagens no campo de batalha.

Uma rede mais limitada já poderia atender operações específicas, principalmente comunicações entre tropas, coordenação de drones e transmissão de dados durante determinadas janelas de conectividade.

Essa possibilidade preocupa a inteligência militar ucraniana.

O vice-chefe do serviço de inteligência militar da Ucrânia, Vadym Skibitsky, afirmou que Moscou acelerou o cronograma de lançamentos.

“Eles já começaram os lançamentos muito mais rapidamente do que o planejado originalmente. Por enquanto, o sistema só pode operar de forma intermitente, quando um satélite passa sobre nosso território. Quando a Rússia implantar uma constelação completa de satélites, o sistema funcionará como a Starlink. Já há discussões sobre como neutralizá-lo”, afirmou.

Segundo Skibitsky, o planejamento russo prevê uma constelação de 292 satélites até o final de 2027 e uma expansão posterior para mais de 900 equipamentos.

O ISW também avalia que mesmo uma constelação parcialmente operacional pode ampliar a capacidade das forças russas de comandar sistemas não tripulados e executar ataques mais precisos durante períodos em que houver conexão disponível.

Ucrânia inaugura corrida por redes soberanas no espaço

O papel assumido pela Starlink na guerra da Ucrânia produziu um efeito que ultrapassa o conflito.

Governos passaram a encarar redes de internet via satélite não apenas como infraestrutura comercial, mas como ativos estratégicos ligados à defesa, inteligência, segurança nacional e soberania tecnológica.

A guerra também evidenciou os riscos de depender de uma única companhia privada para manter comunicações consideradas essenciais durante uma crise militar.

A China avança na construção de suas próprias megaconstelações e há anos estuda as possibilidades militares abertas pelo modelo criado pela SpaceX.

A União Europeia investe bilhões de euros no Iris², projeto destinado a criar uma infraestrutura europeia soberana de comunicação por satélite.

Nos Estados Unidos, a Amazon desenvolve uma constelação própria, concebida para disputar o mercado global de banda larga espacial dominado pela Starlink.

Para Swope, entretanto, a vantagem construída pela SpaceX ainda é difícil de superar.

“Existe hoje uma dependência global da SpaceX para lançamentos espaciais e para conectividade, como a Starlink. Há essencialmente apenas um concorrente neste momento. É uma empresa europeia, a OneWeb, que não tem nem de longe a capacidade da Starlink”, afirma.

Nova corrida espacial tem internet e poder militar no centro da disputa

O avanço simultâneo de projetos na Rússia, China, União Europeia e Estados Unidos indica que uma nova corrida espacial começa a ganhar forma.

Desta vez, porém, o objetivo central não está em levar astronautas mais longe nem em conquistar simbolicamente outros corpos celestes.

A disputa envolve quem será capaz de manter redes próprias de comunicação em qualquer região do planeta, independentemente da infraestrutura existente em terra.

Na Ucrânia, essa transformação já pode ser observada no campo de batalha.

Se Moscou conseguir ampliar o Rassvet e superar as dificuldades técnicas atuais, a Rússia poderá reduzir uma das vantagens de comunicação construídas por Kiev durante a guerra.

Por enquanto, o projeto russo permanece muito abaixo da escala da Starlink. Mas o simples fato de a Ucrânia já estudar formas de neutralizá-lo mostra que a disputa pela conectividade deixou definitivamente de ser apenas comercial e passou a integrar o cálculo militar das grandes potências.

( Com DW )

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