Pesquisa mostra forte diferença entre eleitores de Lula e Flávio Bolsonaro e mede percepção sobre condutas de ministros e criação de código de ética
A avaliação negativa do Supremo Tribunal Federal (STF) alcançou 47% dos eleitores brasileiros, segundo novo levantamento do Datafolha. O índice representa o maior nível registrado desde o início da série histórica, em 2019, e supera os 40% verificados em maio deste ano. A pesquisa foi divulgada neste sábado (26).
O levantamento mostra que 18% dos entrevistados classificam como ótimo ou bom o desempenho dos ministros do STF. O percentual repete o resultado de dezembro de 2019, quando havia sido registrado o menor índice de avaliação positiva da série até então. Outros 31% consideram a atuação da Corte regular, enquanto 4% não responderam.
A percepção sobre o Supremo varia de maneira significativa conforme a preferência eleitoral declarada. Entre os eleitores de Lula (PT), 32% avaliam como ótimo ou bom o trabalho dos ministros. No grupo que declara voto em Flávio Bolsonaro (PL), o índice é de 6%.
Na avaliação negativa, a diferença se amplia. Entre os eleitores de Flávio, 69% classificam o desempenho dos ministros como ruim ou péssimo, enquanto o percentual é de 24% entre os eleitores de Lula.
Pesquisa foi realizada em setembro
O levantamento foi contratado pela Folha de S.Paulo e pela TV Globo e ouviu 2.002 eleitores entre terça-feira (22) e quinta-feira (24). As entrevistas foram realizadas presencialmente em pontos de fluxo populacional.
A margem de erro máxima é de dois pontos percentuais para mais ou para menos, considerando nível de confiança de 95%. A pesquisa está registrada no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) sob o número BR-00304/2026.
Eleitores avaliam condutas de ministros
O Datafolha também apresentou aos entrevistados seis situações envolvendo possíveis condutas de ministros do STF e perguntou se cada uma delas seria aceitável ou inaceitável durante o exercício do cargo.
A situação que recebeu maior rejeição foi a possibilidade de um ministro julgar um processo envolvendo uma pessoa cujo advogado seja seu parente. Para 88% dos entrevistados, essa prática é inaceitável.
Também houve índices elevados de rejeição a outras situações. Para 85%, é inaceitável que um ministro aceite convites para eventos pagos por empresas que tenham ações em tramitação no tribunal. Já 82% consideram inaceitável que um integrante da Corte tome decisões que beneficiem ou prejudiquem candidatos à Presidência durante o período eleitoral.
As outras três situações apresentaram índices menores de rejeição, embora ainda tenham sido consideradas inaceitáveis pela maioria. São elas: um ministro ser sócio de uma empresa privada durante o exercício do cargo, com 78%; receber pagamentos de empresas privadas por palestras, também com 78%; e conceder entrevistas ou emitir opiniões públicas sobre processos que estejam sendo julgados, com 71%.
Maioria apoia código de ética
A pesquisa também investigou a posição dos eleitores sobre a criação de um código de ética específico para os ministros do Supremo Tribunal Federal.
Segundo o levantamento, 45% são favoráveis à iniciativa. Desse total, 23% afirmam ser totalmente a favor e outros 23%, em parte. Na direção oposta, 33% se dizem contrários: 18% são totalmente contra e 15% parcialmente contra.
Outros 5% afirmam não ser nem a favor nem contra, enquanto 17% não souberam responder.
A criação de regras específicas de conduta para ministros é uma das propostas associadas à presidência de Edson Fachin no STF. A iniciativa busca estabelecer parâmetros relacionados a conflitos de interesse, conduta, transparência e regras internas para os integrantes da Corte.
Em fevereiro, Fachin indicou a ministra Cármen Lúcia para relatar a proposta. A ideia, porém, encontrou resistência dentro do próprio tribunal e provocou divergências entre ministros que inicialmente apoiavam a elaboração das regras.
Caso Master amplia debate sobre o Supremo
A discussão sobre um código de ética ganhou espaço no contexto das revelações relacionadas ao Banco Master e de informações envolvendo ministros do STF. Entre os episódios mencionados estão as revelações sobre o resort Tayayá e o ministro Dias Toffoli, que era relator das investigações relacionadas ao caso no Supremo, além de informações sobre um contrato envolvendo o escritório da mulher do ministro Alexandre de Moraes e a instituição financeira.
As acusações e suspeitas relacionadas ao caso são objeto de diferentes investigações e têm sido alvo de versões e contestações por parte dos envolvidos. A crise envolvendo o STF e o Banco Master também passou a ocupar espaço no debate eleitoral. O próprio Datafolha havia identificado anteriormente que 47% dos eleitores consideravam que o episódio teria alguma influência sobre a decisão de voto para presidente, enquanto 49% diziam que não teria impacto.
Sessão sobre Moraes é interrompida
Em setembro, o plenário do STF chegou a iniciar uma discussão sobre relatório da Polícia Federal que reunia diálogos extraídos do celular de Daniel Vorcaro, ex-banqueiro ligado ao Banco Master, incluindo conversas com Alexandre de Moraes.
A sessão poderia avançar sobre a possibilidade de abertura de investigação relacionada ao ministro, mas o debate foi interrompido após uma questão de ordem apresentada por Gilmar Mendes sobre o procedimento a ser adotado. Posteriormente, o ministro Flávio Dino pediu vista, suspendendo a análise.
O episódio passou a integrar a crise institucional que envolve o Supremo e o caso Master. Segundo levantamento anterior do Datafolha, 66% dos eleitores haviam declarado ter conhecimento do vazamento de informações relacionadas às mensagens entre Vorcaro e Moraes.
Relatórios citam outros ministros
Relatórios da Polícia Federal e do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) também passaram a ser relacionados às apurações sobre o Banco Master. Entre os nomes mencionados estão o ministro Kassio Nunes Marques e o ministro André Mendonça.
No caso de Kassio Nunes Marques, documentos e mensagens atribuídos a Vorcaro foram associados a articulações que, segundo as investigações citadas no texto, buscariam favorecer interesses relacionados a dívidas judiciais federais. Nas mensagens, a expressão “Turma do KN” teria sido utilizada para identificar um núcleo de influência próximo ao ministro.
O caso envolve discussões sobre precatórios adquiridos pelo Banco Master e a atuação de escritórios de advocacia relacionados aos processos. As suspeitas fazem parte das apurações em andamento e não equivalem, por si só, a uma conclusão definitiva sobre responsabilidade dos citados.
André Mendonça também aparece entre os magistrados mencionados em mensagens atribuídas a Vorcaro. O banqueiro relatou ter participado de uma reunião com o ministro para tratar de assuntos relacionados à instituição financeira.
Mendonça afirmou que o encontro ocorreu oficialmente em seu gabinete e que se tratou de uma audiência formal, procedimento que, segundo o ministro, faz parte da rotina do Judiciário.
Maioria diz conhecer suspeitas
O Datafolha também perguntou aos entrevistados se eles tinham conhecimento das suspeitas que relacionavam ministros do STF ao caso Banco Master. Segundo os dados apresentados, 77% responderam que sim, enquanto 23% disseram não ter conhecimento.
Entre aqueles que afirmaram conhecer as suspeitas, 68% disseram acreditar que existe envolvimento de ministros do Supremo no caso. Outros 2% responderam que não acreditam nessa possibilidade e 7% não souberam responder.
Os resultados devem ser interpretados como a percepção dos entrevistados sobre as suspeitas, e não como comprovação das acusações. As investigações relacionadas ao Banco Master e aos ministros citados seguem em diferentes frentes.
Crise também entra no debate eleitoral
A pesquisa ainda mediu a percepção dos eleitores sobre os possíveis efeitos políticos da crise envolvendo o STF e o Banco Master.
Para 33% dos entrevistados, a atuação dos ministros do Supremo prejudica mais do que beneficia a candidatura de Flávio Bolsonaro. Outros 23% disseram que o presidente Lula é mais prejudicado do que beneficiado pela atuação da Corte.
Em levantamento anterior, o Datafolha havia registrado que 38% citavam Lula como candidato prejudicado pela crise envolvendo o STF e o Banco Master, enquanto 31% mencionavam Flávio Bolsonaro.
A avaliação negativa recorde do STF ocorre, portanto, em um momento no qual a percepção sobre a Corte está fortemente associada ao debate sobre o Banco Master e às disputas políticas que envolvem as eleições presidenciais de 2026. O Datafolha também registrou, em pesquisa divulgada anteriormente, que 48% dos eleitores afirmavam não confiar no Supremo, o maior índice da série histórica de confiança iniciada em 2012.
(Fonte: Folhapress)




