Há poucos dias, reencontrei um velho companheiro.
Um caderno.
Daqueles antigos, com capa amarelada pelo tempo, quase destruída, onde em um dos lados estava o Hino Nacional impresso na capa, tão comuns nas escolas de antigamente.
Bastou abri-lo para que mais de sessenta anos desaparecessem diante dos meus olhos.
As páginas já estavam amareladas.
A tinta perdera um pouco da força.
Mas ali continuava um rapaz que eu quase já não conhecia.
Era eu.
Ou, talvez, apenas o começo de mim.
Naquelas folhas estavam minhas primeiras poesias.
Versos escritos lá pelos anos de 1960.
Eu não pensava em ser escritor.
Não imaginava publicar livros.
Muito menos que um dia escreveria contos, registraria a história da minha vida ou passaria tantas horas conversando com o papel.
Eu apenas escrevia.
Porque havia sentimentos que não cabiam dentro de mim.
Uma das poesias tinha um título que hoje me fez sorrir:
Tempo.
Ao relê-la, encontrei um verso que dizia:
“Cada dia no tempo é sempre um dia a menos.”
Sorri outra vez.
Não porque o verso estivesse perfeito.
Mas porque aquele rapaz já fazia perguntas que ainda hoje continuam me acompanhando.
Na mesma época, eu também sonhava com outra coisa.
Queria deixar de ser franzino.
Eu e meu primo Ariovaldo acordávamos antes das cinco da manhã para ir a uma pequena academia, na Avenida Tocantins, perto do antigo Teatro Goiânia.
Treinávamos cedo e voltávamos correndo para chegar ao trabalho antes das sete.
Depois construí, no quintal de casa, uma barra de exercícios feita com dois postes e uma barra de ferro.
A barra resistiu.
Os músculos, nem tanto.
Até hoje continuo um pouco magro.
Acho que meu DNA nunca teve muito entusiasmo por halteres.
Curioso como a juventude escolhe sonhos sem saber quais realmente permanecerão.
O rapaz que queria fortalecer o corpo não imaginava que estava fortalecendo outra coisa.
A persistência.
A disciplina.
A paciência.
Virtudes que, anos mais tarde, encontrariam um lugar muito mais confortável entre páginas de papel do que entre barras de ferro.
Hoje releio aquelas poesias.
Algumas são ingênuas.
Outras românticas demais.
Algumas fariam o jovem de hoje sorrir com certa indulgência.
Mas eu não mudaria uma única linha.
Não porque sejam grandes poemas.
Mas porque são verdadeiros.
E toda caminhada merece respeito, principalmente os primeiros passos.
Foi naquele velho caderno que aprendi, sem perceber, a escutar as palavras.
Vieram depois os contos.
Mais tarde, a história da minha vida.
E, quase sem notar, chegaram também as crônicas.
Cada uma nasceu da anterior.
Como um rio que nunca sabe exatamente onde encontrará o mar.
Enquanto fechava o caderno, fiquei pensando em quantas pessoas guardam seus primeiros sonhos numa gaveta.
Desenhos.
Cartas.
Poemas.
Fotografias.
Projetos interrompidos.
Talvez imaginem que aquilo já não tenha valor.
Tem.
Porque não é o talento que mora ali.
É o começo.
E todo começo merece ser preservado.
Antes de guardar o caderno, reli os últimos versos daquela velha poesia:
“Nada acaba, nada morre… tudo se transforma.”
Naquele tempo, confesso que eu nem sabia direito tudo o que estava escrevendo.
Hoje sei.
O rapaz que enchia aquelas páginas com versos simples também estava escrevendo, sem perceber, o primeiro capítulo da minha própria história.
E talvez seja essa a maior obra do tempo.
Ele transforma um velho caderno de poesias na memória viva de onde tudo começou.





