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Violência contra mulheres leva 900 vítimas por dia a hospitais em 2025

Jeverson
22/04/2026, 08:59
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Violência contra mulheres leva 900 vítimas por dia a hospitais em 2025
© Paulo H. Carvalho/Agência Brasília

Dados do Ministério da Saúde revelam que maioria dos casos envolve agressões de parceiros íntimos

Perfil das vítimas coincide com estatísticas de feminicídio no Brasil

Em 2025, ao menos 900 meninas e mulheres buscaram diariamente atendimento em unidades de saúde públicas e privadas em todo o país após sofrerem algum tipo de violência. O levantamento, baseado em registros do Sinan (Sistema de Informação de Agravos de Notificação) e obtido pelo Ministério da Saúde, contabilizou 330 mil notificações apenas no último ano.

Entre 2015 e 2025, foram identificados 2,3 milhões de casos de violência interpessoal — física, psicológica ou sexual — e em 71% das ocorrências as vítimas eram mulheres. O perfil predominante é de mulheres negras, entre 20 e 49 anos, com escolaridade interrompida antes da conclusão do ensino médio, agredidas dentro de casa por parceiros ou ex-parceiros.

Notificação obrigatória e subregistro

Por lei, profissionais de saúde devem registrar todos os atendimentos relacionados à violência. No entanto, como explica a pesquisadora Camila Alves, da Fiocruz, nem todas as vítimas procuram assistência médica. “Apenas 34% das mulheres buscaram algum tipo de atendimento em saúde”, aponta pesquisa nacional realizada pelo Senado. Alves ressalta que o aumento das notificações não significa necessariamente mais casos, mas maior capacidade de identificação por parte dos profissionais.

Escalada da violência

Os dados convergem com estatísticas de feminicídio. Segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, a maioria das vítimas assassinadas entre 2015 e 2025 já havia sofrido agressões anteriores. “A violência não é um evento isolado. A violência por parceiro íntimo, muitas vezes, é sequencial. E o que a gente chama atenção é que isso pode ter uma escalada em termos de gravidade. Começa com a violência psicológica, mas pode evoluir até mesmo para a morte”, alerta Deborah Carvalho Malta, professora da UFMG e doutora em saúde coletiva.

Mais da metade das mulheres atendidas nos últimos dez anos já havia procurado ajuda médica anteriormente pelo mesmo motivo. Em parte dos casos reincidentes, o desfecho foi óbito.

Rede de proteção e lacunas

O sistema de saúde busca interromper o ciclo de violência antes que chegue ao feminicídio. Desde 2001, o Ministério da Saúde reconhece o problema como questão de saúde pública, determinando que hospitais e postos não apenas tratem ferimentos, mas também acionem serviços de assistência social e orientem sobre medidas protetivas. “A gente não notifica para a rede policial porque, se o profissional de saúde faz isso sem a concordância da mulher, ele pode colocá-la em risco”, explica Malta. O objetivo é dar autonomia à vítima.

Apesar disso, a estrutura ainda é insuficiente. Apenas cerca de 40 hospitais públicos estão habilitados a atender casos de violência sexual com protocolo completo, incluindo profilaxias e interrupção da gestação nos casos previstos em lei. “A mulher que sofre violência também sofre para encontrar o local que vá ter tudo que ela eventualmente precise”, observa Lia Cruz Vaz da Costa Damásio, médica da Febrasgo.

Impactos duradouros

As consequências da violência ultrapassam o momento da agressão. Vítimas na infância carregam sequelas físicas e psicológicas por toda a vida. “Uma vítima de violência na infância tem consequências para o resto da vida. Muitas vezes essas lesões são incapacitantes e podem até resultar em morte”, afirma Malta.

Estudo publicado pela revista The Lancet em 2025 mostra que a violência por parceiro íntimo é o quarto maior fator de risco para morte prematura e invalidez de mulheres entre 15 e 49 anos no mundo. No Brasil, ocupa o terceiro lugar. A violência sexual na infância aparece em segundo.

“O problema da violência contra a mulher é complexo e deve ser enfrentado de forma intersetorial. A desigualdade social perpetua essa situação. É um caminho longo. Passa por reduzir desigualdade, aumentar escolaridade e investir na infância”, conclui Malta.


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