Investigação tenta esclarecer o paradeiro do equipamento usado pela vítima e aguarda o relato do acompanhante, que passou mal ao presenciar a tragédia durante atividade de “rope jump” em Limeira
“Quem foi o doido que deixou eu vir pular de uma ponte?” A frase, publicada em tom de brincadeira por Maria Eduarda Rodrigues em suas redes sociais horas antes do acidente, ganhou contornos dramáticos após a morte da jovem de 21 anos durante um salto de “rope jump” na chamada Ponte do Esqueleto, na zona rural de Limeira, interior de São Paulo.
Formada em Educação Física, Maria Eduarda caiu de aproximadamente 40 metros de altura na manhã de sábado, após ser lançada da estrutura sem estar presa ao sistema de segurança. Segundo os investigadores, a vítima não estava conectada às cordas que deveriam amparar o salto.
Os três homens responsáveis pela atividade foram presos em flagrante e alegaram à polícia ter sofrido um “apagão” durante os procedimentos preparatórios, o que teria levado ao esquecimento da fixação dos equipamentos de proteção.
O acidente foi registrado por pessoas que acompanhavam a atividade, entre elas a cliente que realizaria o salto logo em seguida. Maria Eduarda seria a primeira participante do dia.
As imagens, amplamente compartilhadas nas redes sociais, mostram a jovem sendo carregada por três homens até a plataforma de lançamento, em uma técnica conhecida como “aviãozinho”. Ao fundo, é possível observar uma corda enrolada no chão. Instantes depois da queda, testemunhas entram em desespero e gritam: “Gente, a corda!”.
Apesar das tentativas de socorro realizadas por pessoas que estavam no local, equipes do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu) e do Corpo de Bombeiros constataram a morte da jovem ainda na trilha de acesso à ponte. A causa do óbito foi atribuída a múltiplas fraturas.
Prisões e versões apresentadas pelos envolvidos
Foram presos Luis Felipe Feliciano Egoroff, Vitor de Freitas Gonçalves e Maicon Fernandes Cintra. O trio responde por homicídio com dolo eventual, modalidade em que há entendimento de que os acusados assumiram o risco de provocar a morte ao negligenciar procedimentos essenciais de segurança. A pena pode variar de seis a 30 anos de prisão.
A Justiça converteu as detenções em prisões preventivas no domingo. A delegada Andréa Dantas Levy, responsável pelas investigações, informou que seis pessoas foram levadas à delegacia para prestar esclarecimentos. Além dos três envolvidos diretamente no salto, outras três pessoas que atuavam na recepção dos participantes foram ouvidas e liberadas.
— Dois deles disseram que ficam responsáveis por amarrar as cordas, só que na hora tiveram um apagão. Eles disseram que não conseguem se recordar onde e quando ocorreu a falha, quem teria de ter colocado e não colocou. O terceiro, que segurava as pernas, disse que só foi chamado para ajudar no arremesso. Tentou se isentar da responsabilidade de verificar a corda. Mas é nítido, a corda é grossa. Eram duas cordas que deveriam ter sido colocadas, e não foi colocada nenhuma. Em um esporte de risco desse, era para terem checado três vezes — afirmou a delegada.
Para a investigadora, a ausência das verificações básicas demonstra que os envolvidos assumiram o risco de um desfecho fatal.
Ainda segundo Andréa Levy, o evento não era promovido por uma empresa formalmente constituída ou submetida a regulamentações específicas. Os responsáveis atuariam por meio de grupos independentes vinculados a nomes divulgados nas redes sociais, como “Ih voei” e “Entre cordas”. Após o acidente, os perfis deixaram de estar disponíveis.
A defesa dos acusados sustenta que eles possuem ampla experiência no segmento e afirma que esta teria sido a primeira ocorrência fatal envolvendo a equipe.
Câmera desaparecida e testemunha-chave ainda serão analisadas
Entre os pontos que ainda aguardam esclarecimento está o desaparecimento da câmera utilizada pela vítima durante a atividade.
A investigação apurou que Maria Eduarda desembolsou R$ 180 pelo salto e pagou outros R$ 150 para registrar a experiência com uma câmera de captação em 360 graus. Nas gravações feitas por testemunhas, a jovem aparece segurando o equipamento momentos antes da queda.
Contudo, a câmera não foi localizada pelos investigadores.
Outro depoimento considerado relevante é o do homem que acompanhava Maria Eduarda no local. A relação entre ambos não foi detalhada pelas autoridades. Após presenciar a cena, ele passou mal e precisou ser hospitalizado, razão pela qual ainda não foi ouvido formalmente.
Ao decretar a prisão preventiva dos três acusados, o juiz Paulo Henrique Stahlberg Natal, da Vara Criminal de Limeira, destacou a possibilidade de tentativa de fuga e afirmou que “a liberdade deles poderia levar à repetição de condutas igualmente perigosas”.
Vida interrompida e despedida
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Moradora de Jandira, na Região Metropolitana de São Paulo, Maria Eduarda havia se formado em Educação Física e Gestão Esportiva. Ela trabalhava em uma academia e costumava compartilhar em suas redes sociais conteúdos ligados à prática esportiva, bem-estar, viagens e contato com a natureza.
Poucas horas após a confirmação da morte, seu perfil no Instagram foi retirado do ar.
O velório e o sepultamento ocorreram no domingo, no Cemitério Municipal, reunindo familiares e amigos.
Ponte do Esqueleto acumula histórico de acidentes
Localizada entre Limeira e Cordeirópolis, a Ponte do Esqueleto foi construída há mais de três décadas durante projetos da extinta Rede Ferroviária Federal S.A. (RFFSA), mas nunca chegou a ser concluída.
Atualmente, a estrutura está sob responsabilidade da Secretaria do Patrimônio da União (SPU), vinculada ao Ministério da Gestão e da Inovação em Serviços Públicos.
Mesmo sem fiscalização permanente, o local tornou-se ponto de encontro para praticantes de esportes de aventura, ciclistas e corredores, além de sediar atividades organizadas por grupos que comercializam experiências radicais.
Antes do acidente, Maria Eduarda chegou a publicar uma fotografia em frente a placas que alertavam para o “risco de morte” existente na área.
O viaduto também registra outros episódios trágicos recentes. Em abril de 2024, uma ciclista morreu após cair da estrutura enquanto participava de um passeio com amigos. No ano anterior, duas mulheres sofreram ferimentos graves em ocorrências semelhantes.
A Prefeitura de Limeira afirma que a responsabilidade pela manutenção, fiscalização e controle do acesso é do governo federal e informou que pretende recorrer à Justiça alegando omissão da União, após sucessivos pedidos de providências desde 2025.
A Secretaria do Patrimônio da União, por outro lado, sustenta que a incorporação definitiva da área ao patrimônio federal foi autorizada apenas neste ano. O órgão afirma ainda que, desde 2024, solicitou apoio das administrações municipais para restringir o acesso ao local.
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