ClickNews
Política

Congresso articula ‘acordão’ para barrar Messias no STF e proteger Vorcaro, alega PT

Redação
9 de maio de 2026 às 14:09
Compartilhar:
Congresso articula ‘acordão’ para barrar Messias no STF e proteger Vorcaro, alega PT

Foto: Juliana Alves

Contexto político e acusações do PT

O deputado Pedro Uczai (PT-SC), líder do partido na Câmara dos Deputados, acusou neste sábado (9/5/2026) a bancada do Centrão de articular um “acordão” no Congresso Nacional com o objetivo de rejeitar a nomeação de Jorge Messias para o Supremo Tribunal Federal (STF). Segundo Uczai, a manobra política teria como motivação central evitar investigações sobre o empresário Daniel Vorcaro, fundador do Banco Master, e reduzir as penas dos condenados pelos atos golpistas de 8 de Janeiro. O petista afirmou que a estratégia visava, ainda, neutralizar um ministro supostamente alinhado a apurações rigorosas contra aliados do bloco parlamentar.

A relação entre Messias, Mendonça e as investigações

Jorge Messias, ex-advogado-geral da União e indicado pelo governo Lula para a vaga no STF, é apontado por Uczai como um potencial aliado do ministro André Mendonça, relator do caso Master no Supremo. Mendonça, em decisão proferida na quinta-feira (7/5), autorizou a Polícia Federal a realizar busca e apreensão na residência do senador Ciro Nogueira (PP-PI), presidente nacional do Progressistas, em investigação relacionada ao Banco Master. A operação integra uma das frentes de apuração conduzidas pela Corte sobre supostas irregularidades financeiras e envolvimento de figuras políticas em esquemas de lavagem de dinheiro e corrupção.

Ainda segundo o líder petista, a rejeição de Messias no Senado — onde seu nome foi barrado pela bancada governista — foi orquestrada para garantir a aprovação do Projeto de Lei (PL) da Dosimetria, que propõe a redução das penas de condenados nos atos de 8 de Janeiro. “Cada dia que passa, vai se explicitando mais o acordão construído no Congresso para rejeitar Messias”, declarou Uczai, em entrevista coletiva. “Não queriam investigação, mais um aliado de André Mendonça no STF, em troca da redução da pena dos golpistas que tentaram destruir a democracia”, acrescentou.

Os atores do ‘acordão’ e suas motivações

Além de Ciro Nogueira, Uczai citou o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), e o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) como principais articuladores da suposta manobra. Segundo o petista, os três teriam se reunido para “neutralizar a CPMI do 8 de Janeiro”, comissão parlamentar mista criada para investigar os atos antidemocráticos de 2023. “Ciro Nogueira, que ria na véspera do resultado de Jorge Messias junto com Davi Alcolumbre, se reuniam junto com Flávio Bolsonaro para efetivamente neutralizar a CPMI [do 8 de Janeiro], diminuir a força de um ministro aliado das investigações”, afirmou.

O deputado ainda qualificou o grupo como “ilibado, honesto e decente”, em uma ironia ao contexto das acusações. “Ao mesmo tempo, flertar com aventuras golpistas no futuro”, completou, em referência às tentativas de desestabilização institucional registradas desde as eleições de 2022. A CPMI, que já esteve paralisada devido a embates entre parlamentares, teve sua atuação recentemente reforçada por Mendonça, que determinou o compartilhamento de dados sigilosos com a comissão.

Implicações jurídicas e resistência institucional

A articulação descrita por Uczai revela um quadro de tensão entre os poderes Executivo e Legislativo, com reflexos diretos no Judiciário. A nomeação de Messias ao STF, inicialmente vista como consensual devido à sua trajetória técnica, foi vetada após pressão de setores do Centrão, que alegaram “incompatibilidade ideológica” com a agenda do governo. No entanto, as acusações de Uczai sugerem que a rejeição teria motivações menos transparentes, ligadas a interesses específicos em investigações em curso.

A operação da PF contra Nogueira, autorizada por Mendonça, reforça a hipótese de que o empresário Daniel Vorcaro — cujo banco é investigado por suspeitas de envolvimento em lavagem de dinheiro e financiamento ilegal de campanhas — teria suporte político no Congresso. Vorcaro, que já foi citado em delações premiadas como um dos principais operadores de um esquema de corrupção, teria seus laços com figuras do Centrão como Nogueira e Alcolumbre como alvo das apurações em andamento.

Desdobramentos e o futuro das investigações

A recusa de Messias ao STF, combinada à aprovação do PL da Dosimetria, pode ter consequências duradouras para o sistema de justiça brasileiro. O projeto, se convertido em lei, reduziria significativamente as penas de condenados por crimes cometidos durante os atos golpistas, incluindo os responsáveis pela invasão das sedes dos Três Poderes em 8 de Janeiro de 2023. Críticos da medida argumentam que ela representaria um retrocesso na responsabilização de crimes contra o Estado democrático de direito.

Enquanto isso, a CPMI do 8 de Janeiro enfrenta resistência para avançar em suas investigações. Parlamentares aliados ao governo Lula denunciam tentativas de obstrução, enquanto a bancada governista busca ampliar os poderes da comissão. A nomeação de Messias, caso tivesse sido aprovada, poderia ter alterado o equilíbrio de forças na Corte, favorecendo uma postura mais incisiva contra os réus do caso Master e dos atos antidemocráticos. Agora, com a vaga em aberto, o presidente Lula deve indicar um novo nome, possivelmente após intensas negociações com o Centrão.

Análise: Um jogo de poder com vítimas e beneficiários

A narrativa apresentada por Uczai desenha um cenário onde interesses políticos se sobrepõem à transparência e à justiça. Se confirmadas, as acusações de um “acordão” envolvendo figuras centrais do Congresso e do Judiciário revelariam uma trama para proteger aliados de investigações e minar instrumentos de controle institucional. A manobra contra Messias, nesse contexto, não seria apenas uma questão de conveniência política, mas parte de uma estratégia mais ampla para desmantelar os mecanismos de responsabilização criados após os episódios de 2023.

O caso Master, por sua vez, expõe a fragilidade das fronteiras entre poder político e econômico no Brasil, onde grandes doadores de campanha — como supostamente Vorcaro — teriam influência decisiva na condução de políticas públicas e na proteção de seus interesses. Enquanto o STF, a PF e a CPMI buscam desvendar esses laços, o Congresso parece disposto a usar de seu poder de veto para frear ou redirecionar as investigações. O equilíbrio entre os poderes, nesse sentido, depende não apenas de decisões judiciais, mas também da capacidade da sociedade civil e das instituições democráticas de resistirem a essas pressões.

O que você achou desta notícia?

Sua avaliação ajuda nossa redação a entregar o melhor conteúdo.