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Controvérsia na Bienal de Veneza: inclusão da Rússia divide opiniões e acirra protestos internacionais

Redação
9 de maio de 2026 às 15:19
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Controvérsia na Bienal de Veneza: inclusão da Rússia divide opiniões e acirra protestos internacionais

Foto: Redação Central

Contexto histórico e a tradição da Bienal de Veneza

A Bienal de Veneza, fundada em 1895, é uma das mais antigas e prestigiadas mostras de arte do mundo, com edições anuais que reúnem artistas de mais de 80 países. Ao longo de sua história, a exposição refletiu não apenas tendências estéticas, mas também tensões políticas e sociais, como a exclusão de artistas soviéticos durante a Guerra Fria ou a suspensão de representações nacionais em períodos de conflito. Contudo, a 60ª edição, inaugurada em abril de 2024, rompeu com essa tradição ao incluir pela primeira vez desde 2022 — ano da invasão russa à Ucrânia — uma participação oficial da Rússia, representada pelo artista Alexei Isaev. A decisão, anunciada em março de 2024, gerou um debate acalorado sobre os limites da neutralidade cultural em tempos de guerra.

Os protestos e a acusação de legitimação do regime

Desde a abertura da mostra, organizações de direitos humanos, artistas ucranianos e ativistas internacionais promoveram manifestações nas proximidades do Arsenale e do Palazzo delle Esposizioni. Cartazes com dizeres como “Arte não é propaganda” e “Pare a guerra, não a cultura” dominaram os protestos, que contaram com a participação de figuras como a curadora ucraniana Kateryna Botanova e o artista russo exilado Pável Pepperstein. “A Bienal não pode ser um palco para o regime de Putin mascarar crimes de guerra com verniz cultural”, declarou Botanova em entrevista à *The Art Newspaper*. A polêmica ganhou ainda mais força após a divulgação de que o pavilhão russo, intitulado “Landscape of Empty Places“, exibia obras abstratas de Isaev, interpretadas por críticos como uma metáfora da ocupação territorial.

A defesa da organização: arte como espaço de diálogo

Em resposta às críticas, a direção da Bienal, liderada por Adriano Pedrosa, argumentou que a inclusão da Rússia — assim como de outros países envolvidos em conflitos, como Israel e Irã — fazia parte de uma estratégia de “abertura política”. “A arte não pode ser refém de governos, mas um terreno para confrontar diferenças”, afirmou Pedrosa em coletiva de imprensa. A curadora-chefe, Sonia Becce, acrescentou que a participação russa não implicava endosso às ações do Kremlin, mas sim um convite à reflexão sobre as relações entre arte e poder. “Se excluirmos todos os países com governos controversos, não sobrará ninguém”, declarou. No entanto, especialistas em geopolítica cultural, como o professor de Relações Internacionais da Universidade de Oxford, Mark Leonard, questionaram a eficácia de tal abordagem: “A arte pode ser um instrumento de soft power, e a Rússia já demonstrou como explorar esse recurso para desviar atenção de suas ações militares”.

As implicações éticas e o precedente internacional

A polêmica transcende o âmbito artístico, colocando em xeque o papel das instituições culturais em tempos de crise. Em 2022, a Ucrânia retirou-se da Bienal após a invasão russa, e o pavilhão ucraniano foi reconstruído como um espaço de resistência, exibindo obras de artistas como Marina Abramović. A reaproximação da Rússia em 2024, portanto, foi vista por muitos como uma normalização simbólica da guerra. “Isso envia uma mensagem perigosa: de que a cultura pode ser separada da política, quando na realidade ela sempre foi um campo de batalha”, afirmou a historiadora de arte Halyna Hryn em artigo publicado na *Artforum*. Além disso, a decisão pode influenciar outras grandes exposições, como a Documenta de Kassel, que enfrenta pressões para rever suas políticas de inclusão.

Reações internacionais e o debate sobre boicotes

O caso da Bienal de Veneza ecoou em outras capitais. Na Alemanha, o Bundestag discutiu a possibilidade de reduzir financiamentos a eventos que não condenem explicitamente a agressão russa. Na França, o Ministério da Cultura emitiu um comunicado afirmando que “a arte deve servir à paz, não à propaganda de regimes autoritários”. Enquanto isso, a Rússia celebrou a participação como uma vitória diplomática, com o ministro da Cultura, Vladimir Medinsky, afirmando que o pavilhão russo havia atraído grande público estrangeiro. “A arte russa sempre foi um cartão de visita da nossa cultura”, declarou Medinsky, ignorando as críticas. Já o Ukraine Pavilion, que neste ano exibe obras de artistas como Yarema Malashchuk e Roman Himey, recebeu apoio financeiro de governos europeus e organizações não-governamentais, como um contraponto à presença russa.

O futuro das bienais: entre neutralidade e ativismo

A controvérsia levanta uma questão fundamental: as bienais devem manter-se neutras ou assumir um papel ativo em causas políticas? A historiadora de arte Claire Bishop, autora de Artificial Hells: Participatory Art and the Politics of Spectatorship, argumenta que a arte contemporânea não pode mais se furtar ao debate público. “O silêncio é uma forma de cumplicidade”, escreveu Bishop em um ensaio recente. Por outro lado, defensores da neutralidade, como o curador Hans Ulrich Obrist, defendem que as instituições culturais devem ser espaços de diálogo, não de julgamento. “A arte não resolve conflitos, mas pode ajudar a entendê-los”, afirmou Obrist em entrevista à *Financial Times*. O impasse sugere que, nos próximos anos, as bienais enfrentarão pressões crescentes para definir claramente seus limites éticos — e as consequências de suas escolhas poderão reverberar muito além dos muros dos palácios venezianos.

Conclusão: um teste para a democracia cultural

A 60ª Bienal de Veneza tornou-se um espelho das contradições do século XXI, onde a arte e a política colidem de forma cada vez mais explícita. Enquanto alguns veem na inclusão da Rússia um gesto de resiliência institucional, outros a interpretam como uma capitulação aos interesses geopolíticos. O que está em jogo não é apenas a reputação de uma mostra centenária, mas o próprio conceito de cultura em tempos de guerra. À medida que o conflito na Ucrânia se prolonga, a pergunta persiste: até que ponto as instituições podem — ou devem — separar a estética da ética? A resposta, pelo menos por enquanto, permanece tão ambígua quanto as obras expostas no Arsenale.

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