Há perguntas que apenas ouvimos.
E há perguntas que entram silenciosamente dentro da gente, como quem abre uma janela esquecida da alma e deixa o vento circular pelos pensamentos.
Esta é uma delas.
Ela não chega trazendo respostas.
Chega provocando.
E talvez sejam justamente as perguntas que mais nos desarrumam por dentro.
Quem é você?
Quem sou eu?
Parece simples.
Mas não é.
Passei muito tempo da vida acreditando que sabia quem eu era. Acho que todos nós acreditamos nisso em algum momento. Dizemos nosso nome, profissão, idade, história, gostos, religião, amizades… e pensamos que isso basta para nos definir.
Mas será que basta mesmo?
Quem é você quando ninguém está olhando?
Quem sou eu quando o silêncio da noite apaga os ruídos do mundo?
A vida, vez ou outra, nos coloca diante de um espelho diferente.
Não aquele espelho comum, que mostra apenas o rosto envelhecendo devagar, os cabelos embranquecendo, as marcas do tempo.
Não.
Ela nos coloca diante de um espelho invisível, desses que refletem aquilo que escondemos até de nós mesmos.
E aí começa o desconforto.
Porque percebemos que somos muitos.
Você não é exatamente o mesmo na roda de amigos e diante de uma despedida.
E eu também não sou.
Sou um homem quando estou escrevendo sozinho, lembrando do passado, e outro quando estou cercado pela família.
Você talvez seja forte diante das pessoas e frágil diante do travesseiro.
O mesmo coração que sorri numa festa pode chorar escondido horas depois.
A vida inteira vestimos roupas para sair no mundo.
Mas, sem perceber, vestimos também comportamentos.
Máscaras delicadas.
Algumas necessárias.
Outras dolorosas.
Há a máscara do pai, do filho, do profissional, do religioso, do homem sério, do homem alegre.
Em cada ambiente parece existir uma versão diferente de nós mesmos.
E qual delas é a verdadeira?
Qual delas sou eu?
Qual delas é você?
Outro dia me lembrei de uma velha árvore que vi certa vez à beira do Rio do Peixe.
Dependendo da estação, ela parecia outra árvore.
No tempo da seca, quase morta.
No início das chuvas, cheia de brotos verdes.
Meses depois, carregada de flores.
Mais tarde, novamente silenciosa.
Mas era a mesma árvore.
Talvez o ser humano seja assim.
Mudamos constantemente.
O tempo nos modifica sem pedir licença.
Cada perda nos altera.
Cada amor nos transforma.
Cada decepção reorganiza alguma coisa dentro da alma.
O homem que fui aos vinte anos já não existe inteiro dentro de mim.
E o homem que sou hoje talvez já esteja mudando enquanto escrevo estas palavras.
Isso assusta.
Queremos estabilidade.
Queremos uma definição pronta de quem somos.
Queremos colocar a alma numa moldura fixa.
Mas a vida não aceita retratos imóveis.
Ela é movimento.
Como, então, ser você mesmo, se esse “você” muda a todo instante?
E eu me pergunto também:
Como ser eu mesmo, se já não sou exatamente o homem que fui ontem?
Confesso que isso mexe profundamente comigo.
Porque, aos oitenta um anos, olhando para trás, percebo que fui muitos homens dentro de uma única existência.
O rapaz sonhador da juventude.
O pai preocupado.
O trabalhador cansado.
O homem apaixonado pela natureza.
O filho saudoso da mãe.
O avô emocionado.
O escritor tentando entender a si mesmo através das palavras.
Todos eram eu.
E, ao mesmo tempo, nenhum deles permaneceu inteiro.
Talvez o segredo não esteja em descobrir exatamente quem somos.
Talvez esteja apenas em caminhar com sinceridade dentro das mudanças inevitáveis da vida.
Porque, quando tudo muda, alguma coisa precisa permanecer.
Não o rosto.
Não a idade.
Nem as certezas.
Mas a direção do coração.
Princípios.
Valores.
Bondade.
Respeito.
Amor.
Gratidão.
Talvez eu nunca descubra completamente quem sou.
Talvez você também não descubra.
Mas talvez isso não seja o mais importante.
Um rio nunca é exatamente o mesmo rio.
Ainda assim, continua seguindo em direção ao mar.
Talvez viver seja exatamente isso:
aceitar que somos feitos de mudanças,
sem perder aquilo que nos dá direção.





