ClickNews
Geral

Estudo científico avalia uso de geoengenharia solar para conter impactos de Super El Niño em formação

João
10 de julho de 2026 às 10:06
Compartilhar:
Estudo científico avalia uso de geoengenharia solar para conter impactos de Super El Niño em formação

Os devastadores incêndios florestais que assolaram a Austrália entre 2019 e 2020 resultaram em uma trágica perda de vidas, deixando centenas de pessoas mortas. Foto: David Gray/Getty Images via CNN Newsource

Pesquisadores testam simulações de clareamento artificial de nuvens marinhas para resfriar o Oceano Pacífico e mitigar catástrofes climáticas globais

Mecanismo de reflexão de radiação solar e simulações baseadas em dados históricos

 

O surgimento de indicadores que apontam para a estruturação de um Super El Niño de proporções potencialmente históricas reacendeu o debate na comunidade científica internacional sobre intervenções climáticas deliberadas. Cientistas de diversas instituições avaliam se mecanismos de interferência na radiação solar poderiam funcionar como um escudo temporário para atenuar a escalada de desastres meteorológicos extremos associados ao aquecimento global. Os detalhes desse modelo teórico de intervenção foram apresentados em um artigo científico veiculado nesta quarta-feira (8) na publicação especializada Science Advances.

O padrão climático do El Niño, gerado no aquecimento das águas superficiais do Oceano Pacífico tropical, atua historicamente como um catalisador de altas térmicas planetárias e desequilíbrios pluviométricos. Na atualidade, essa dinâmica natural encontra-se potencializada pelas transformações atmosféricas decorrentes da atividade antrópica, ampliando o poder de destruição socioeconômica dos episódios sazonais. Diante disso, o estudo conduzido por especialistas da Instituição Scripps de Oceanografia investigou a viabilidade técnica do “clareamento de nuvens marinhas” (marine cloud brightening), um braço da geoengenharia que propõe a dispersão de micropartículas salinas sobre as massas nubladas oceânicas com o objetivo de aumentar seu albedo, fazendo com que uma fração maior da energia solar seja rebatida de volta ao espaço sideral.

Diante da impossibilidade ética e biológica de conduzir testes práticos em larga escala na atmosfera — sob o risco de desencadear reações ecológicas imprevistas —, os autores recorreram à modelagem matemática alimentada por um laboratório fornecido pela própria natureza. Os pesquisadores tomaram como base analítica os megaicêndios florestais ocorridos na Austrália durante o período conhecido como “Verão Negro”, entre 2019 e 2020. Naquela ocasião, as densas colunas de fumaça injetaram massas colossais de aerossóis refletores no Pacífico Sul, modificando a estrutura das nuvens locais. Estudos subsequentes comprovaram que esse bloqueio solar induziu o resfriamento das águas da bacia oceânica, acelerando a consolidação posterior de um ciclo prolongado de La Niña, fenômeno que atua no sentido inverso, resfriando a média térmica global.

A partir desse mapeamento, os cientistas utilizaram supercomputadores para projetar cenários onde um clareamento artificial direcionado fosse ativado estrategicamente antes de duas das maiores crises de El Niño registradas pela meteorologia moderna: as edições de 1997 e 2015. Os resultados computacionais sugerem que a aplicação cirúrgica e precoce da metodologia possui capacidade de atenuar os efeitos termais do El Niño e incrementar em até 40% o potencial de resfriamento e as dinâmicas de retração pluviométrica tipicamente coordenadas pelo La Niña.

Controvérsias regulatórias, o risco do choque de interrupção e caráter provisório da proposta

A possibilidade de manipulação artificial do termostato terrestre divide opiniões entre geocientistas. Correntes de especialistas manifestam oposição categórica ao avanço de pesquisas de geoengenharia, argumentando que a introdução de variáveis artificiais no equilíbrio meteorológico apresenta riscos sistêmicos imprevisíveis. Existe ainda o temor regulatório do chamado “choque de interrupção”, um cenário hipotético em que uma pane técnica ou decisão geopolítica force a suspensão imediata de um sistema de blindagem solar ativo, gerando um efeito rebote com elevação abrupta e catastrófica das temperaturas médias em escala mundial em um curto intervalo de tempo.

A cientista climática Kate Ricke, integrante da Scripps Oceanografia e da Escola de Política Global e Estratégia da Universidade da Califórnia em San Diego, esclarece que a modelagem avaliada neste novo artigo científico propõe um caminho de governança distinto dos projetos tradicionais de geoengenharia contínua. Segundo a autora, a estratégia seria acionada estritamente como um paliativo sazonal e direcionado a crises específicas de alta previsibilidade de danos.

“Não é algo ao qual você estaria permanentemente comprometido”, ponderou a pesquisadora.

Ricke fez questão de enfatizar o caráter puramente teórico e exploratório do material publicado, descartando que o texto funcione como uma recomendação de uso imediato das tecnologias de dispersão.

“Trata-se apenas de uma prova de conceito. A única coisa que demonstramos é que vale a pena estudar essa possibilidade mais profundamente”, afirmou a cientista.

Gargalos tecnológicos, assimetrias regionais e dilemas éticos globais

A viabilização do clareamento de nuvens esbarra em complexidades práticas e disparidades de impacto geográfico. O El Niño altera o regime de chuvas global de forma assimétrica, trazendo prejuízos bilionários para determinadas nações, enquanto beneficia outras. Setores da economia da Califórnia, por exemplo, dependem historicamente do incremento de precipitações trazido pelo fenômeno para a recomposição de seus mananciais de água doce, mesmo sob o risco de inundações localizadas.

“É preciso pensar cuidadosamente sobre as compensações”, alertou Kate Ricke, indicando que uma eventual intervenção deveria ser restrita a episódios de Super El Niño, cenários nos quais os prejuízos humanitários e financeiros tornam-se generalizados e severos.

O professor de ciência atmosférica da Universidade de Exeter, James Haywood, que não compõe o corpo de autores da pesquisa, reforçou que o nível de desconhecimento sobre as engrenagens finas da atmosfera ainda é elevado. Entre as barreiras operacionais, o físico destaca o desafio de sintetizar partículas artificiais dotadas de diâmetro e volumetria exatos para gerar o resfriamento sem alterar dinâmicas de microfísica de nuvens de maneira adversa.

“E também existe a questão: o que acontece se exagerarmos?”, questionou Haywood, alertando para o risco de a humanidade induzir artificialmente um La Niña hiperbólico, cujos efeitos colaterais incluiriam inundações históricas em porções territoriais da Ásia e da Austrália, concomitantes a secas severas em faixas agrícolas da América do Sul e do hemisfério norte. “Estamos muito longe de sermos capazes de implementar tecnologias desse tipo e de saber se elas funcionariam conforme o planejado”, concluiu.

A barreira de engenharia mecânica também foi apontada por David Keith, professor de Ciências Geofísicas da Universidade de Chicago. O pesquisador indicou que, mesmo após duas décadas de debates e pesquisas acadêmicas na área, os sistemas de pulverização marinha projetados em laboratório demonstram baixa eficiência prática.

“Quase duas décadas após o início das pesquisas, os pulverizadores usados para clareamento de nuvens marinhas ainda possuem taxas de dispersão pelo menos cem vezes menores do que o necessário para uso prático”, mensurou Keith, sentenciando que, no atual estágio civilizatório, “a tecnologia simplesmente não existe”.

No campo da ética e das relações internacionais, pairam dúvidas sobre quais blocos econômicos ou órgãos multilaterais deteriam a legitimidade política para autorizar a modificação deliberada do clima global. Há ainda o receio de que a geoengenharia seja convertida em uma espécie de salvo-conduto corporativo, enfraquecendo as metas de descarbonização da matriz industrial e de transição energética. Diante desse mosaico de incertezas, Kate Ricke defende que a busca por respostas científicas não deve ser paralisada por tabus dogmáticos.

“Precisamos compreender muito mais”, reconheceu a especialista. “Mas se existir uma forma de utilizar essa técnica para reduzir os impactos dos El Niños, por que não considerá-la?”