Os pesquisadores do Instituto de Química da Universidade de São Paulo dedicam-se ao estudo minucioso do microrganismo
A hipótese de que Marte já abrigou ou ainda abriga formas de vida microbiana ganhou novo fôlego após estudo conduzido pelo AstroLab, da Universidade de São Paulo (USP), que analisa a capacidade de sobrevivência de microrganismos terrestres em condições extremas semelhantes às do planeta vermelho.
A bactéria do oceano perdido em Marte e das lagunas cariocas
A *Staphylococcus nepalensis* (S. nepalensis), descoberta originalmente em 2003 no trato digestivo de cabras no Nepal, tem sido o foco de pesquisadores brasileiros. O microrganismo, encontrado também em ambientes hipersalinos do Rio de Janeiro — como as lagunas de Araruama — e até na saliva de felinos domésticos, demonstra uma resistência notável a condições adversas. Essas características tornam a bactéria um modelo ideal para simular a sobrevivência em Marte, onde estudos recentes indicam que um terço de sua superfície pode ter sido coberto por oceanos há milhões de anos.
Segundo dados da NASA, capturados pelo rover *Curiosity*, formações como a “Kimberley” sugerem a presença intermitente de água salgada na superfície marciana, formando salmouras capazes de sustentar vida microbiana por períodos limitados. “As salmouras intermitentes em Marte são ambientes transitórios, mas que poderiam abrigar microrganismos adaptados, como a S. nepalensis”, explica a equipe do AstroLab em comunicado à imprensa.
Do Rio de Janeiro ao planeta vermelho: a ponte científica
Os pesquisadores do IQUSP (Instituto de Química da USP) estão replicando em laboratório as condições de pressão, temperatura e salinidade encontradas nas salmouras marcianas. Os experimentos incluem a exposição da bactéria a ciclos de dessecação e reidratação, além de radiação ultravioleta intensa — fatores críticos no ambiente marciano.
“A descoberta de microrganismos terrestres em ambientes extremos é um passo crucial para entender se a vida pode ter se originado ou persistido em outros planetas”, afirmou a coordenadora do estudo, Dra. Ana Clara Santos. “Marte não é apenas um deserto gelado: há evidências de que, em sua história geológica, ele teve ciclos de umidade e salinidade compatíveis com a vida como a conhecemos.”
Implicações para missões espaciais e busca por vida extraterrestre
A pesquisa, publicada em periódico especializado na última quarta-feira (2 de julho de 2026), reforça a importância de missões como a *Mars Sample Return*, prevista para 2031, que trará amostras do solo marciano para análise em laboratórios terrestres. A detecção de bioassinaturas — como estruturas orgânicas ou microrganismos fossilizados — naquelas amostras poderia confirmar a hipótese de que a vida, mesmo em formas microscópicas, é um fenômeno universal.
Além disso, os resultados abrem caminho para o desenvolvimento de tecnologias de detecção de vida em ambientes extremos, tanto em Marte quanto em luas como Europa (de Júpiter) ou Encélado (de Saturno), onde oceanos subterrâneos também são alvos de estudo.
Para o Brasil, o estudo representa um avanço na astrobiologia nacional, consolidando o país como um polo de pesquisa em ciências planetárias. “Este é um exemplo de como a microbiologia terrestre pode nos ajudar a desvendar os mistérios do cosmos”, destacou o diretor do AstroLab, Dr. Ricardo Oliveira.




