Contexto histórico e relevância estratégica
A realização de exercícios navais conjuntos entre o Brasil e os Estados Unidos no Atlântico Sul não é uma prática recente, mas ganhou contornos estratégicos a partir da década de 2010, quando Washington reativou sua 4ª Frota — desativada em 1950 — como resposta à crescente influência chinesa na região. A operação ‘Southern Seas’, iniciada em 2022, insere-se nesse contexto de reafirmação da presença militar norte-americana no Hemisfério Ocidental, alinhada à Doutrina de Segurança Nacional dos EUA para 2022-2032, que prioriza a contenção de ameaças assimétricas e a manutenção da liberdade de navegação em rotas críticas, como o Estreito de Magalhães e a Passagem de Drake.
Detalhes operacionais e composição das forças
A edição de 2026 da ‘Southern Seas’ contou com a participação do porta-aviões USS *Gerald R. Ford*, unidade líder de sua classe e um dos navios mais avançados do mundo, equipado com sistemas de propulsão nuclear e catapultas eletromagnéticas (EMALS). O navio, deslocando cerca de 100 mil toneladas, operou em conjunto com três contratorpedeiros classe *Arleigh Burke*, dois cruzadores classe *Ticonderoga* e um submarino nuclear de ataque da classe *Virginia*. Pelo lado brasileiro, a Marinha enviou o NAe *São Paulo* (inativo desde 2017, mas ainda em treinamento para eventual reativação), a fragata *Niterói*, o submarino *Tikuna* e aeronaves Super Tucano e AF-1 (versão naval do A-4 Skyhawk).
Objetivos táticos e cenários simulados
As manobras, conduzidas em águas internacionais a 150 milhas náuticas da costa do Rio de Janeiro, focaram em três eixos principais: defesa antiaérea integrada, guerra antissubmarino (ASW) em águas profundas e operações de assalto anfíbio. Segundo fontes militares ouvidas pela ClickNews, foram realizados exercícios de cross-decking — pouso de caças F/A-18E/F Super Hornet do USS *Ford* no convés do NAe *São Paulo* (ainda que este não tenha capacidade operacional plena) — e simulações de interceptação de mísseis de cruzeiro em ambiente de guerra eletrônica. A Marinha do Brasil também testou, pela primeira vez, a integração de seus drones de vigilância Mariner com sistemas de controle de fogo dos navios estadunidenses.
Impacto na interoperabilidade e doutrina militar brasileira
A participação no exercício é considerada um marco para a Marinha do Brasil, que busca modernizar sua capacidade de projeção de poder naval em um cenário de crescente competição na América do Sul. O almirante Renato Rodrigues, coordenador das operações no RJ, afirmou em coletiva que os exercícios ‘permitiram validar procedimentos de coordenação entre forças de diferentes nações, especialmente em operações de alto risco’. No entanto, especialistas como o pesquisador do IPEA, Fernando Santos, alertam que a dependência de tecnologias estrangeiras — como os sistemas de controle de voo do *Ford* — expõe vulnerabilidades em caso de conflitos prolongados. ‘A interoperabilidade é louvável, mas não pode substituir o desenvolvimento de soluções próprias’, destacou Santos.
Reações diplomáticas e posicionamentos geopolíticos
A operação não passou despercebida por Pequim, que, através do porta-voz do Ministério das Relações Exteriores da China, Liu Pengyu, manifestou ‘preocupação com a militarização do Atlântico Sul’. Em resposta, o Ministério das Relações Exteriores do Brasil reiterou, em nota oficial, que ‘os exercícios são rotineiros e não direcionados a nenhum país específico’. Analistas internacionais, como a professora Carla Martinez da Universidade de Buenos Aires, avaliam que a presença do USS *Ford* — o único porta-aviões nuclear em operação no mundo — sinaliza uma ‘mudança de tom’ na política externa dos EUA para a região, após anos de redução de efetivos militares na América Latina.
Desdobramentos futuros e agenda de defesa regional
Embora a ‘Southern Seas 2026’ seja oficialmente encerrada nesta quinta-feira, fontes da Marinha do Brasil indicam que os resultados dos exercícios serão incorporados ao Plano de Reequipamento Naval 2030, que prevê a aquisição de novos caças F-35B para substituir os AF-1 até 2028 — uma decisão que, segundo o ministro da Defesa, José Múcio Monteiro, ‘fortalecerá a dissuasão brasileira na Zona Econômica Exclusiva’. Além disso, há expectativa de que a próxima edição do exercício inclua a participação da Argentina, que recentemente adquiriu caças JAS-39 Gripen da Suécia, ampliando a diversidade de plataformas aéreas na região.
Críticas e desafios logísticos
Não obstante os benefícios estratégicos, a operação enfrentou críticas quanto aos custos de manutenção do NAe *São Paulo*, que, segundo relatórios do Tribunal de Contas da União (TCU), consome R$ 1 milhão mensais em reformas parciais. O deputado federal Glauber Braga (PSOL-RJ) questionou a priorização de recursos em exercícios conjuntos enquanto ‘a Marinha não consegue garantir a segurança do litoral brasileiro contra crimes ambientais’. Em contrapartida, o almirante Rodrigues defendeu que ‘a projeção de poder naval é um investimento a longo prazo, essencial para a soberania do país’.




