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Fiocruz conquista patente nos EUA para tratamento inovador contra malária resistente

Redação
7 de maio de 2026 às 19:30
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Fiocruz conquista patente nos EUA para tratamento inovador contra malária resistente

Foto: agenciabrasil.ebc.com.br

Um marco científico na luta contra a malária resistente

A Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) alcançou um feito de relevância internacional ao obter a patente de um método de tratamento contra a malária, concedida pelo United States Patent and Trademark Office (USPTO). A inovação, desenvolvida por pesquisadores do Instituto René Rachou — unidade da Fiocruz em Minas Gerais — utiliza o composto DAQ (diaminquinolina), uma molécula cujo potencial antimalárico foi identificado ainda na década de 1960, mas cuja eficácia só agora foi plenamente elucidada. O diferencial do método reside na capacidade de atuar contra cepas do Plasmodium falciparum resistentes aos tratamentos convencionais, como a cloroquina e a artemisinina, responsáveis pelas formas mais graves e letais da doença.

Reinventando uma molécula esquecida: o ressurgimento do DAQ

Embora o DAQ não seja uma substância inédita, sua redescoberta por meio de abordagens contemporâneas de química e biologia molecular representou um divisor de águas na pesquisa antimalárica. Segundo o pesquisador Wilian Cortopassi, colaborador da Fiocruz, o grupo liderado pela pesquisadora Antoniana Krettli identificou um mecanismo estrutural decisivo na molécula: a presença de uma ligação tripla em sua cadeia química. Essa característica confere ao composto a capacidade de bloquear um processo vital para a sobrevivência do parasita durante a digestão da hemoglobina humana.

Durante a infecção, o Plasmodium falciparum digere a hemoglobina do hospedeiro, produzindo substâncias tóxicas como a hemozoína. Normalmente, o parasita neutraliza essas toxinas por meio de um sistema de defesa enzimático. O DAQ interfere nesse mecanismo, acumulando as toxinas até que o parasita seja levado à morte. Essa ação, semelhante à da cloroquina, foi observada tanto em cepas sensíveis quanto em variantes resistentes do parasita, incluindo aquelas que já apresentavam mutações associadas à resistência a medicamentos como a artemisinina.

Aplicação promissora contra o Plasmodium vivax e viabilidade econômica

Os estudos realizados pela Fiocruz não se limitaram ao combate ao P. falciparum. Os pesquisadores identificaram resultados encorajadores contra o Plasmodium vivax, espécie responsável pela maioria dos casos de malária registrados no Brasil. Dado o perfil endêmico da doença em regiões de baixa e média renda, o baixo custo potencial do DAQ é apontado como um fator estratégico. Segundo os cientistas, a molécula poderia ser produzida a um valor significativamente inferior ao dos tratamentos atuais, tornando-a acessível em países onde a malária ainda representa um problema de saúde pública prioritário.

A viabilidade econômica do composto é reforçada pela sua estrutura química simplificada, que facilita a síntese em larga escala. Além disso, a ausência de patentes prévias sobre o DAQ em sua aplicação antimalárica — diferentemente de outros fármacos como a artemisinina, cujos derivados são protegidos por patentes internacionais — poderia agilizar sua adoção em programas de saúde pública.

Colaborações internacionais e próximos passos da pesquisa

A pesquisa que levou à patente contou com a colaboração de instituições de prestígio internacional, como a University of California San Francisco (UCSF) nos Estados Unidos, a Universidade Federal de Alagoas (UFAL) e a Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio). Esse modelo de parceria multidisciplinar, envolvendo instituições brasileiras e estrangeiras, reflete a crescente integração da ciência nacional na busca por soluções globais para doenças negligenciadas.

Atualmente, novos estudos estão em andamento em parceria com a Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), com foco na otimização do composto e em testes pré-clínicos avançados. Os pesquisadores também investigam a possibilidade de combinar o DAQ com outros fármacos antimaláricos, visando aumentar a eficácia e reduzir ainda mais o risco de desenvolvimento de resistência. Segundo a Fiocruz, os resultados até o momento são promissores o suficiente para justificar a entrada do composto em ensaios clínicos nos próximos anos.

Contexto histórico e desafios da malária resistente

A malária, transmitida por mosquitos do gênero Anopheles, afeta cerca de 240 milhões de pessoas anualmente, segundo estimativas da Organização Mundial da Saúde (OMS). Desde a década de 1950, a doença tem sido combatida com o uso de antimaláricos como a cloroquina, que, após décadas de eficácia, viu sua utilidade reduzida devido ao surgimento de cepas resistentes. Nas décadas seguintes, a artemisinina emergiu como o principal fármaco, mas relatos de resistência começaram a ser documentados em países como Camboja e Tailândia já em 2008, levantando alarmes globais sobre a possibilidade de uma crise sanitária sem precedentes.

O Brasil, embora tenha reduzido drasticamente seus casos de malária nas últimas décadas — graças a programas de controle vetorial e tratamento — ainda registra cerca de 150 mil casos anuais, a maioria na região amazônica, onde o P. vivax é predominante. A resistência aos medicamentos tradicionais nesses locais agrava o cenário, tornando inadiável a busca por alternativas terapêuticas como o DAQ.

Impacto global e perspectivas futuras

A concessão da patente pelo USPTO não apenas reconhece a inovação da Fiocruz, mas também abre caminho para parcerias com indústrias farmacêuticas interessadas em desenvolver o composto em larga escala. Segundo especialistas ouvidos pela ClickNews, a aprovação regulatória nos Estados Unidos é um passo crucial para a obtenção de registros em outros países, especialmente na África Subsaariana, região que concentra cerca de 95% das mortes por malária no mundo.

Para a pesquisadora Antoniana Krettli, líder do projeto, a patente representa um avanço não só científico, mas também geopolítico. “O DAQ tem potencial para ser uma ferramenta transformadora, especialmente em países onde os recursos são limitados. Nossa esperança é que essa descoberta possa contribuir para os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU, reduzindo a mortalidade por malária até 2030”, declarou.

Enquanto aguardam os próximos desdobramentos, os pesquisadores da Fiocruz mantêm a cautela. O processo de desenvolvimento de um novo fármaco é longo e complexo, envolvendo etapas rigorosas de testes clínicos para garantir segurança e eficácia. No entanto, o reconhecimento da patente nos EUA é um indicativo claro de que o DAQ pode se tornar um dos principais aliados na luta contra a malária resistente nas próximas décadas.

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